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terça-feira, 17 de março de 2020

D. Pedro III de Portugal, pai de D. João VI - O "Capacidónio"


D. Pedro III foi Rei Consorte de Portugal, por ter casado com a herdeira do trono, a rainha D. Maria I [mãe de D. João VI; recorde-se que ela viria a falecer em 1816 no Brasil, com as faculdades mentais gravemente afectadas,  no período em que a Corte lusitana se instalou, para escapar a Napoleão, na cidade do Rio de Janeiro (1808-1821)].

D. Pedro era tio de D. Maria I, uma vez que foi irmão do pai desta (o rei português D. José I, que tivera o famoso Marquês de Pombal como principal ministro).
Era, também, bastante mais velho do que a esposa e sobrinha (quase dezoito anos de diferença).

A historiografia não foi muito generosa para com esta figura relativamente apagada. Puseram-lhe em realce a beatice e duvidaram-lhe amiúde da inteligência e da capacidade governativa. Quanto ao primeiro aspecto, Oliveira Martins chegou ao ponto de lhe chamar "sacristão"…


Rainha D. Maria I, de Portugal (1734-1816)
e o tio D. Pedro III, seu esposo e Rei Consorte (1717-1786)

Segundo os testemunhos disponíveis, D. Maria I terá sempre respeitado, e até amado, este seu tio e marido. Desejando pô-lo em destaque, mandou cunhar moedas de ouro com as efígies de ambos (eram as célebres peças de duas caras).

Tratou também de o convocar para reuniões de governo, onde se debatiam negócios públicos e inúmeras pretensões de uma multidão de requerentes. Mas ele, de facto, não possuía bagagem intelectual para uma colaboração válida. Aflito, socorria-se, então, de um bordão, uma frase feita, que aplicava sempre que lhe solicitavam opiniões sobre uma eventual solução : Eu não vou por aí…
Isto não significava que ele pretendesse de alguma forma opor-se a esta ou àquela medida: queria apenas dizer que não tinha outra resposta. Limitava-se, assim, a pôr um ar grave e lá ia repetindo: Eu não vou por aí… E dali não passava.

A razão da sua alcunha mais famosa teve igualmente origem em algo que ele repetia com frequência. Certa ocasião, D. Pedro terá escutado sobre certo indivíduo que este era capaz e idóneo para exercer determinado cargo. Soando-lhe bem o que ouviu, passou a utilizar a expressão para qualificar quaisquer candidatos que lhe agradassem. Porém, juntando incorrectamente as palavras que lhe tinham chegado aos ouvidos, dizia que eles eram capacidónios para os lugares pretendidos. Fulano é capacidónio para… Beltrana é capacidónia para…
E assim ficou D. Pedro III para todo o sempre lembrado como o Capacidónio

Fosse como fosse, D. Maria I foi-lhe dedicada até ao fim. Acredita-se, até, que a morte de D. Pedro III (em 1786) e a do primogénito e herdeiro de ambos, D. José (aos 27 anos, no ano de 1788) contribuíram decisivamente para o agravamento da instabilidade mental que havia de a conduzir à loucura.

A morte do primogénito D. José e a demência de D. Maria I acabariam por atirar para a ribalta um outro filho da rainha e de D. Pedro III: D. João, que todos conhecemos, primeiro, como Príncipe Regente, e, depois, como o rei D. João VI de Portugal, Brasil e Algarves...

Moeda de ouro
com as efígies de D. Maria I e D. Pedro III

 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Tragédia Brasileira (Manuel Bandeira)

 
Misael, funcionário da Fazenda,
com 63 anos de idade,
conheceu Maria Elvira na Lapa,
- prostituída,
com sífilis,
dermite nos dedos,
uma aliança empenhada
e os dentes em petição de miséria.


Misael tirou Maria Elvira da vida,
instalou-a num sobrado no Estácio,
pagou médico,
dentista,
manicura...
Dava tudo quanto ela queria.


Quando Maria Elvira se apanhou
de boca bonita,
arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo.
Podia dar uma surra,
um tiro,
uma facada.
Não fez nada disso:
mudou de casa.


Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira
arranjava namorado,
Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio,
Rocha, Catete,
Rua General Pedra,
Olaria, Ramos,
Bonsucesso,
Vila Isabel,
Rua Marquês de Sapucaí,
Niterói, Encantado,
Rua Clapp,
outra vez no Estácio,
Todos-os-Santos,
Catumbi,
Lavradio,
Boca do Mato,
Inválidos…

 
Por fim na Rua da Constituição,
onde Misael,
privado de sentidos
e de inteligência,
matou-a com seis tiros,
e a polícia foi encontrá-la
caída
em decúbito dorsal,
vestida de organdi azul.
.

…………
 
Manuel Bandeira - Brasil (1886-1968)

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Pêro Vaz de Caminha - Quem era, e como terminou os seus dias, o autor da "certidão de nascimento" do Brasil?


Pêro Vaz de Caminha foi o escrivão, embarcado na frota de Pedro Álvares Cabral, a quem coube relatar, por escrito, em Abril de 1500, os dias extraordinários do descobrimento da terra brasileira pelos Portugueses (reveja aqui).
Por isso mesmo, considera-se que a ele se ficou a dever a "certidão de nascimento" do grande país da América do Sul - que em Portugal se encara e se sente como o "País Irmão".


Pêro Vaz de Caminha nasceu em meados do século XV (talvez em 1450) na cidade do Porto, Norte de Portugal.  Era homem bem integrado na vida pública da urbe natal, tendo ocupado cargos de relevo. Sabe-se, por consulta das respectivas actas, que esteve presente nas reuniões da Câmara entre 1488 e 1498.
Foi, a partir de 1479, mestre da Balança da Moeda do Porto (cargo herdado do pai e em que foi confirmado pelo rei português, D. Manuel I, em 1496).

Comandando as tropas do Porto, participou na batalha de Toro, que os Portugueses travaram em Castela no 1.º dia de Março de 1476.
Pêro Vaz de Caminha foi ainda cavaleiro das Casas Reais de vários monarcas lusitanos (D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I).
Foi casado com D. Catarina Vaz, de quem teve uma filha, D. Isabel de Caminha.

Possuía formação literária humanista e conhecia bem os autores latinos, achando-se familiarizado com as obras clássicas. Era, sobretudo, um ser aberto ao mundo, dotado de profunda sensibilidade, como pode ser comprovado pelas maravilhosas e emocionantes descrições que ele fez, na sua famosa "carta", da terra brasileira - fauna, flora, meio físico - e, sobretudo, das suas gentes.



Infelizmente, Pêro Vaz de Caminha não viveria tempo suficiente para testemunhar as repercussões que a sua "carta" - dirigida ao rei D. Manuel I - tivera em Portugal.
Com efeito, e como é do conhecimento geral, o destino final daquela expedição de Pedro Álvares Cabral não era o Brasil, mas sim a Índia. Tratava-se da segunda viagem realizada pelos Portugueses até àquele país asiático, depois da descoberta da respectiva rota por Vasco da Gama (rever aqui).

Discute-se, ainda hoje, se a descoberta da Terra de Vera Cruz (o Brasil) ocorreu por acidente ou por um desvio deliberado da rota principal. As teses mais recentes e sustentadas apontam para a segunda hipótese - e essa é também a nossa opinião: os Portugueses saberiam de antemão que existia por ali uma terra nova, assim se explicando o desvio pronunciado que levaram a cabo para realizar o desembarque.

Fosse como fosse, havia que cumprir o plano originalmente concebido em Lisboa - o objectivo final da viagem era Calecute, na Índia, e foi esse o rumo que retomaram ao cabo de dez dias. A carta de Pêro Vaz de Caminha, com a notícia do "achamento do Brasil", fora entretanto expedida para Lisboa num dos navios da frota que Cabral mandara regressar à pátria.

 

A frota portuguesa navegou, pois, em busca de Calecute, na Índia, onde chegou após uma viagem dramática: Cabral perdeu vários navios na travessia do Atlântico para o Índico; quando ancorou no seu destino, restavam-lhe sete embarcações das treze com que havia deixado Lisboa.
Na Índia, para além das motivações religiosas, os Portugueses estavam sobretudo interessados em participar no comércio local, acedendo às preciosas especiarias para as transportar até à Europa. Com esse intuito negociaram durante meses a fio com o governante local, o Samorim, até que conseguiram obter permissão para fundar um entreposto comercial (uma feitoria), à frente da qual Pedro Álvares Cabral colocou Aires Correia.

Como é natural, os muçulmanos que dominavam até então a actividade comercial na região (os mouros de Meca, como lhes chamavam os Portugueses) não viram com bons olhos a ameaça dos novos concorrentes. Durante algum tempo viveram-se episódios de intrigas e traições. O comportamento do Samorim foi, no mínimo, ambíguo, mas parece ter sido com a sua conivência que uma multidão de muçulmanos enfurecidos atacou o edifício da feitoria portuguesa. O grosso dos expedicionários, incluindo Cabral, achava-se no mar, a bordo da frota, pelo que na feitoria permaneciam, apenas, cerca de 70 homens. Entre eles estavam o feitor, Aires Correia, alguns frades franciscanos e, para mal dos seus pecados, o escrivão Pêro Vaz de Caminha.



Refugiados na feitoria, os Portugueses resistiram enquanto puderam. Mas o número de atacantes era esmagador, pelo que Aires Correia decidiu a retirada até à praia, onde talvez lhes chegasse algum auxílio enviado por Pedro Álvares Cabral. Correndo e lutando, a maioria conseguiu alcançar a beira do mar, mas aí verificaram que as ondas, muito agitadas, impediam a aproximação dos botes de socorro. Cercados pela multidão que os perseguia, envolveram-se então numa derradeira e desesperada luta.

Ainda que bastante feridos, vinte homens lograram atirar-se ao mar, onde, correndo risco de afogamento, foram sendo recolhidos pelos batéis da frota.
Na praia, para os seus companheiros, o drama estava todavia consumado. Aires Correia acabou trucidado, bem como três frades franciscanos e cerca de cinquenta homens. Entre as vítimas do massacre encontrava-se Pêro Vaz de Caminha - o autor da "certidão de nascimento" do Brasil.
Era o dia 15 de Dezembro de 1500, e tinham decorrido menos de oito meses sobre o momento em que ele avistara pela primeira vez, para a descrever de forma emocionada e deslumbrante, a maravilhosa Terra de Vera Cruz...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A Tecelã (Mauro Mota - Brasil) [REPOSIÇÃO]


A Tecelã

Toca a sereia na fábrica
e o apito,
como um chicote,
bate na manhã nascente
e bate na tua cama,
no sono da madrugada.
Ternuras de áspera lona
pelo corpo adolescente.

É o trabalho que te chama.
Às pressas tomas o banho,
tomas teu café com pão,
tomas teu lugar no bote
no cais de Capibaribe.

Deixas chorando na esteira
teu filho de mãe solteira.
Levas ao lado a marmita,
contendo a mesma ração
do meio de todo o dia,
a carne-seca e o feijão.

De tudo quanto ele pede,
dás só bom dia ao patrão,
e recomeças a luta
na engrenagem da fiação.

Ai, tecelã sem memória,
de onde veio esse algodão?
Lembras o avô semeador,
com as sementes na mão,
e os cultivadores pais?
Perdidos na plantação
ficaram teus ancestrais.

Plantaram muito.
O algodão
nasceu também na cabeça,
cresceu no peito e na cara.
Dispersiva tecelã,
esse algodão quem colheu?
Muito embora nada tenhas,
estás tecendo o que é teu.

Teces tecendo a ti mesma
na imensa maquinaria,
como se entrasses
inteira
na boca do tear
e desses a cor do rosto
e dos olhos
e o teu sangue
à estamparia.

Os fios dos teus cabelos
entrelaças nesses fios
e noutros fios dolorosos
dos nervos de fibra longa.

Ó tecelã perdulária,
enroscas-te em tanta gente
com os ademanes ofídicos
da serpente multifária.
A multidão dos tecidos
exige-te esse tributo.
Para ti, nem sobra ao menos
um pano preto de luto.

Vestes as moças da tua idade
e dos teus anseios,
mas livres da maldição
do teu salário mensal,
com o desconto compulsório,
com os infalíveis cortes
de uma teórica assistência,
que não chega na doença,
nem chega na tua morte.

Com essa policromia de fazendas,
todo o dia,
iluminas os passeios,
brilhas nos corpos alheios.
E essas moças desconhecem
o teu sofrimento têxtil,
teu desespero fabril.
Teces os vestidos,
teces agasalhos
e camisas,
os lenços especialmente
para adeus, choro e coriza.
Teces toalhas de mesa
e a tua mesa vazia

Toca a sereia da fábrica,
E o apito como um chicote
bate neste fim de tarde,
bate no rosto da lua.
Vais de novo para o bote.
Navegam fome e cansaço
nas águas negras do rio.

Há muita gente na rua
Parada no meio-fio.
Nem liga importância
à tua blusa rota
de operária.
Vestes o Recife
e voltas para casa,
quase nua.

………….

Mauro Ramos da Mota e Albuquerque nasceu em 1911, na localidade de Nazaré da Mata, Brasil.
Foi jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista.
Faleceu no Recife, Brasil, em 1984.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

No dia em que o gato falou (Emmanuel Vão Gôgo - Brasil)


Era uma vez uma dama gentil e senil que tinha um gato siamês.
Gato siamês!
Gato de raça, de bom-tom, de filiação, de ânimo cristão. Lindo gato, gato terno, amigo, pertencente a uma classe quase extinta de antigos deuses egípcios.

Êste gato só faltava falar. Manso e inteligente, seu olhar era humano.
Mas falar não falava.
E sua dona, triste, todo dia passava uma ou duas horas repetindo sílabas e palavras para êle, na esperança de que um dia aquela inteligência que via em seu olhar explodisse em sons compreensivos e claros. Mas, nada!

A dama gentil e senil era, naturalmente, incapaz de compreender o fenômeno. Tanto mais que ali mesmo à sua frente, preso a um poleiro de ferro, estava um outro ser, também animal, inferior até ao gato, pois era somente uma pobre ave, mas que falava! Falava mesmo muito mais do que devia!
Um papagaio que falava pelas tripas do Judas.
Curiosa natureza, pensava a mulher, que fazia um gato quase humano, sem fala, e um papagaio cretino mas parlapatão.
E quanto mais meditava mais tempo gastava com o gato no colo, tentando métodos, repetindo sílabas, redobrando cuidados, para ver se conseguia que seu miado virasse fala.




Exatamente no dia 16 de maio de 1958 foi que teve a ideia genial.
Quando a ideia iluminou seu cérebro, veio logo acompanhada da crítica, autocrítica: Mas, como não me ocorreu isso antes? perguntou ela para si própria, muito gentil e senil como sempre, mas agora também autopunitiva. Como não me ocorreu isso antes?

O papagaio viu no brilho da dona o seu (dele) terrível destino e tentou escapar, mas estava preso. Foi morto, depenado, e cozinhado em menos de uma hora.
Pois o raciocínio da mulher era lógico e científico: se desse ao gato o papagaio como alimentação, não era evidente que o gato começaria a falar? Não era?

O gato, a princípio, não quis comer o companheiro. Temendo ver fracassado o seu experimento científico, a dama gentil e senil procurou forçá-lo. Não conseguindo que o gato comesse o papagaio, bateu-lhe mesmo - horror! - pela primeira vez.
Mas o gato se recusou.
Duas horas depois, porém, vencido pela fome, aproximou-se do prato e engoliu o papagaio todo. Imediatamente subiu-lhe uma ânsia do estômago, ele olhou para a dona e, enquanto esta chorava de alegria, começou a gritar, num tom meio currupaco, meio miau-aua-au, mas perfeitamente compreensível:
- Madame, foge pelo amor de Deus! Foge, madame, que o prédio vai cair. Corre madame, que o prédio vai cair!

A mulher, tremendo de comoção e de alegria, chorando e rindo, pôs-se a gritar por sua vez:
- Vejam, vejam, meu gatinho fala! Milagre! Milagre! Fala o meu gatinho!
Mas o gato, fugindo ao seu abraço, saltou para a janela e gritou de novo:
- Foge, madame, que o prédio vai cair! Madame, foge! - e pulou para a rua. 



Nesse momento, com um estrondo monstruoso, o prédio inteiro veio abaixo, sepultando a dama gentil e senil em meio aos seus escombros.

O gato, escondido melancolicamente num terreno baldio, ficou vendo o tumulto diante do desastre e comentou apenas, com um gato mais pobre que passava:
Veja só que cretina. Passou a vida inteira para fazer eu falar e no momento em que eu falei não me prestou a mínima atenção.

Moral: O mal do artista é não acreditar na própria criação.

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Emmanuel Vão Gôgo foi um pseudónimo de Millôr Fernandes, que colaborou na revista brasileira O Cruzeiro durante quase duas décadas.
Uma das colunas que assinava era o famoso Pif-Paf.
A história acima foi publicada, nessa coluna, no dia 24 de Setembro de 1960.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Canção do Exílio (Gonçalves Dias - Brasil)

Sabiá

O poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864) expressa nesta obra todo o seu amor pelos pequenos e intensos valores naturais brasileiros.
No ano em que a compôs (1843) achava-se muito longe do Brasil, embora vivesse entre gente que (embora com sotaque distinto...) falava a mesma língua que ele falava: era estudante em Coimbra, Portugal.
Os seus versos transformaram-se no mais forte poema nacionalista do Brasil.

.................

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

…………………….




Gonçalves Dias


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

E por falar em blues... (Indiara Sfair e Ricardo Maranhão)



Já conhecemos (daqui) esta excelente brasileira de Curitiba. Agora, na interpretação do blues I'm Tired (e muito bem acompanhada por Ricardo Maranhão), faz outra demonstração do seu magnífico talento.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Brigão Brasileiro... (Stanislaw Ponte Preta)






O negócio aconteceu num café.
Tinha uma porção de sujeitos, sentados nesse café, tomando umas e outras.
Havia brasileiros, portugueses, franceses, argelinos, alemães, o diabo.

De repente, um alemão forte pra cachorro levantou e gritou que não via homem pra ele ali dentro. Houve a surpresa inicial, motivada pela provocação, e logo um turco, tão forte como o alemão, levantou-se de lá e perguntou:
Isso é comigo?
Pode ser com você também — respondeu o alemão.
Aí então o turco avançou para o alemão e levou uma traulitada tão segura que caiu no chão.

Vai daí o alemão repetiu que não havia homem ali dentro pra ele.
Queimou-se então um português que era maior ainda do que o turco. Queimou-se e não conversou. Partiu para cima do alemão e não teve outra sorte. Levou um murro debaixo dos queixos e caiu sem sentidos.

O alemão limpou as mãos, deu mais um gole no chope e fez ver aos presentes que o que dizia era certo. Não havia homem para ele ali naquele café.
Levantou-se então um inglês troncudo pra cachorro e também entrou bem.
E depois do inglês foi a vez de um francês, depois de um norueguês etc. etc.

Até que, lá do canto do café levantou-se um brasileiro magrinho, cheio de picardia para perguntar, como os outros:
Isso é comigo?
O alemão voltou a dizer que podia ser.
Então o brasileiro deu um sorriso cheio de bossa e veio vindo gingando assim pro lado do alemão.
Parou perto, balançou o corpo e... pimba! O alemão deu-lhe uma porrada na cabeça com tanta força que quase desmonta o brasileiro.

Como, minha senhora?
Qual é o fim da história?
Pois a história termina aí, madame. Termina aí que é pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Morte e Vida Severina - João Cabral de Melo Neto (Brasil)




O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

 Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?

Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda
em que eu vivia.


 Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também
porque o sangue que usamos
tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte Severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.






João Cabral de Melo Neto foi um dos maiores poetas brasileiros. Nasceu em 1920 e faleceu em 1999.
Neste longo poema (sua obra-prima), de que se apresentam acima apenas os primeiros versos, ele aborda a situação do retirante (migrante), sua morte social e miséria.
Morte e Vida Severina retrata a trajetória de Severino, que deixa o sertão nordestino em direção ao litoral, buscando melhores condições de vida.
Severino encontra no caminho outros nordestinos que, como ele, passam pelas privações impostas ao sertão.
Entre outros factos dramáticos, ele testemunha o enterro de um homem assassinado a mando de latifundiários.
Assiste a muitas mortes e, de tanto vaguear, termina descobrindo que é justamente ela, a morte, a maior empregadora do sertão. É a ela que devem os empregos, do médico ao coveiro, da rezadeira ao farmacêutico… (adaptado daqui).