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quinta-feira, 22 de maio de 2008

Baptista-Bastos - Onde Está o Lado Certo?

"(...) Vivemos, desde a década de 80, um novo período de sufocação, que se manifesta em vários sectores: desemprego, emigração, esvaziamento ideológico e ausência da política, economia, justiça, cultura, educação.
Há, hoje, dificuldade em escolher o que se julga ser o lado certo onde se deve estar.
E essa dificuldade serve de pretexto para as mais vis renúncias, e de condescendência para com sórdidas traições.

Inculcaram-nos a ideia de que Portugal é inviável e de que somos um povo de madraços.
Como já poucos lêem o que deve ser lido, a afirmação fez fé.
Mas não corresponde à verdade.

Recomendo aos meus dilectos alguns autores antagonistas da absurda tese: Vitorino de Magalhães Godinho, José Mattoso, Luís de Albuquerque, António Borges Coelho e, até, António José Saraiva.
Todos interpelam o País, criticam-no porque o amam, e ensinam-nos que o passado altera-se de todas as vezes que o lemos e interrogamos.
O lado certo está, creio-o bem, quando recusamos a indiferença e não admitimos a resignação."

(Excerto de uma crónica de Baptista-Bastos no "Diário de Notícias", Lisboa, de 21 de Maio de 2008)
(Foto de Alba Luna)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Portugal - Pátria Mestiça


"Cada vez há mais estrangeiros a pedir a nacionalidade portuguesa.
Brancos, pretos, amarelos, castanhos, entre o loiro e o germânico, entre o glabro e o felpudo, eis uma sublevação de cores e de fácies; um bulício de idiomas que noivam o nosso idioma para exprimir a dor e o riso, a infância e a paixão, a lembrança e o sonho.
Tocaram no batente da casa comum à procura, afinal, do que comum é ao homem: um pouco de felicidade.
E deitam-se no mesmo leito onde, outrora, suevos e visigodos, fenícios e romanos, árabes e celtas procriaram os miscigenados que todos nós somos.

A sintaxe da nossa ascendência possui qualquer coisa de genial.
Não foi, somente, a delimitação do território que construiu uma pátria e moldou uma língua.
Também não foi, apenas, o ferro do montante que marcou uma identidade.
O que definiu o nosso destino foi a argila de um particular nativismo, nascido na cama do amor, no suor dos corpos, na festa do sexo.
Nascemos do prazer.

Saímos portugueses desse almofariz de raças, no entreacto de guerras e de confrontos políticos.
A negação da nossa mestiçagem configurará o assassínio da nossa identidade, e atribui a quem a pratica o estofo de um canalha.
Assim como o ódio exposto, arrogantemente, em placard, demonstra algo de doentio.
Somos uma nação de heterónimos, cheios de coragens e de cobardias, de mares e de corpos, de credos e de superstições.
Um pisar de caminhos antigos puxa-nos as pernas para o imponderável.
Fluxos de muitos sangues fazem pulsar o modo de como aqui estamos.

Há um relatório, "Inter Lusitanos", endereçado a Nero por Políbio Garbus, poeta e procônsul romano, o qual nos retrata como gente estranha, imputando fraqueza de espírito a uma nossa particularidade: a indiferenciação fundamental dos indivíduos.
E adianta: o desdém pelas regras criou nos Lusitanos uma relativa igualdade de raças.
Para um patrício, educado numa sociedade extremamente hierarquizada, este modelo estava desprovido de lógica social, política e filosófica.
As coisas prosseguiram séculos atrás de séculos.

Quando D. Manuel I manda proceder à matança de judeus, num domingo de Pascoela, a 19 de Abril de 1506, liquida a cultura de afectos e de livre partilha dos saberes até então simplificada no reconhecimento da alteridade.
Mas a História não pára o tempo que dentro de si acalenta.
Foi-nos legado um bragal aberto ao mundo, entre intimidades, solidões, angústias e despedidas.
Eis porque precisamos de todos os que nos procuram, porque sempre procurámos todos aqueles de que precisamos."

(Baptista-Bastos - Diário de Notícias - Edição de 17 de Abril de 2007)

sábado, 17 de novembro de 2007

Agressores e Agredidos

 
"A globalização abriu uma excepção cultural que tende a aniquilar o mais nobre dos direitos humanos: o direito ao trabalho.
Um pouco por todo o lado, esse direito é espezinhado ou, simplesmente, não existe.
Criaram-se leis que parecem constituir uma fuga dilatória de qualquer discussão sobre o assunto, como se este permanecesse definitivamente encerrado.
Não será de mais insistir na interiorização do princípio de igualdade, recomendado na Carta dos Direitos Humanos.
O direito ao trabalho concentra, em si mesmo, o conceito de liberdade e de justiça social, numa compreensão das razões do outro que deve tornar-se num compromisso político e ético.

No mesmo dia em que, no Público, Francisco Sarsfield Cabral, abandonando o estilo pungente que o torna no espírito mais mortificado dos "colunistas" portugueses, dava com o sarrafo nos protestatários antiglobalização, - nesse mesmo dia [11. Junho p.p.], no Diário de Notícias, Céu Neves assinava a segunda parte de uma notável reportagem, sobre os "prestígios" do mercado, através de experiência pessoal na Holanda.
E, à noite, no Prós e Contras, da RTP, os depoimentos sobre os escravos do século XXI atingiram níveis de dramática tensão, sobretudo com as corajosas declarações de António Esteves Martins.

Entre a urgência em se combater os novos códigos sociais, impostos por uma ordem económica cuja selvajaria é constantemente omitida, e os que invocam e ratificam o inverso dos princípios - creio não haver hesitação na escolha.
Sarsfield Cabral estabelece confusos paralelismos entre "acesso aos mercados dos países desenvolvidos" e o que entende ser "folclore mediático".
O G8 não estabelece novas relações de civilidade, nem a natureza da sua estrutura é de bonomia. A agressividade está-lhe na índole; o coração gelado é a sua profissão de fé.

Como num contraponto, o impressionante requisitório de Céu Neves fornece-nos amplos motivos de reflexão. Durante duas semanas ela foi operária numa fábrica de tomates.
Ganhou 200 euros e experimentou a brutalidade do trabalho escravo.
Muitos outros portugueses, por essa Europa fora, são submetidos a leis atrozes, reveladoras de um sistema monstruoso, apregoado como "melhorável", embora "inevitável".

Em Portugal as condições de trabalho dos imigrados são semelhantes.
Os novos protagonistas dos grandes desesperos nacionais andam de um para outro lado, em busca do pão e da equidade que lhes negam.
É esta Europa "globalizada" que desejamos - criadora de sociedades a funcionar segundo regras tão implacáveis quanto desumanas?
E como devemos qualificar os seus panegiristas?"

(Baptista-Bastos - Diário de Notícias - 13 de Junho de 2007)