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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Elegiazinha (Nelson Ascher - Brasil)

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Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.
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Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem:
sua fictícia morte não passa
de uma forma mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem:
rumo a um nível mais alto
é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.
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Gatos não morrem:
- se somem -
mais preciso é dizer
que foram rasgar sofás no paraíso
.
e dormirão lá,
depois do ônus de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.


……………………..


Nelson Ascher - São Paulo - Brasil

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Canção do Exílio (Gonçalves Dias - Brasil)

Sabiá

O poeta maranhense Gonçalves Dias (1823-1864) expressa nesta obra todo o seu amor pelos pequenos e intensos valores naturais brasileiros.
No ano em que a compôs (1843) achava-se muito longe do Brasil, embora vivesse entre gente que (embora com sotaque distinto...) falava a mesma língua que ele falava: era estudante em Coimbra, Portugal.
Os seus versos transformaram-se no mais forte poema nacionalista do Brasil.

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Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;

Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

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Gonçalves Dias


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O Triunfo da Audácia...



... surpreendentemente protagonizado, como podem ver no filme abaixo, por um cachorro franzino e coxo. Mas às vezes a coragem não tem limites e irrompe de onde menos se espera - sendo essa, ao fim e ao cabo, através dos tempos, a genuína essência dos heróis.
Quanto ao poderoso e arrogante casalinho de leões, parece não ter percebido, até à data, o que lhe aconteceu. Diz-se por aí que continuam ambos com as cabeçorras inundadas de pontos de interrogação...

Transpondo isto para o domínio dos humanos, dir-se-ia que é assim que começam as triunfantes revoluções que fazem progredir o mundo. Exactamente quando aqueles a quem se impõem - e dos quais se esperam - submissões cabisbaixas e eternas decidem rebelar-se contra o poder infame dos grandes abusadores e os levam à derrota. Passando por cima de todas as prudências, de todos os medos e de todas as repressões…


"Estão a falar de mim?"

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Fábula dos dois leões (Stanislaw Ponte Preta - Brasil)







Diz que eram dois leões que fugiram do Jardim Zoológico. Na hora da fuga cada um tomou um rumo, para despistar os perseguidores. Um dos leões foi para as matas da Tijuca e outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões de todo jeito mas ninguém encontrou. Tinham sumido, que nem o leite.
Vai daí, depois de uma semana, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o que fugira para as matas da Tijuca.
Voltou magro, faminto e alquebrado. Foi preciso pedir a um deputado do PTB que arranjasse vaga para ele no Jardim Zoológico outra vez, porque ninguém via vantagem em reintegrar um leão tão carcomido assim. E, como deputado do PTB arranja sempre colocação para quem não interessa colocar, o leão foi reconduzido à sua jaula.

Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrava do leão que fugira para o centro da cidade, quando, um dia, o bruto foi recapturado.
Voltou para o Jardim Zoológico gordo, sadio, vendendo saúde. Apresentava aquele ar próspero do Augusto Frederico Schmidt que, para certas coisas, também é leão.
Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para as florestas da Tijuca disse pro coleguinha:
– Puxa, rapaz, como é que você conseguiu ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com essa saúde? Eu, que fugi para as matas da Tijuca, tive que pedir esmola, porque quase não encontrava o que comer, como é então que você… vá, diz como foi.

O outro leão então explicou:
– Eu meti os peitos e fui me esconder numa repartição pública. Cada dia eu comia um funcionário e ninguém dava por falta dele.
– E por que voltou pra cá? Tinham acabado os funcionários?
– Nada disso. O que não acaba no Brasil é funcionário público. É que eu cometi um erro gravíssimo.
Comi o diretor, idem um chefe de seção, funcionários diversos, ninguém dava por falta. No dia em que eu comi o cara que servia o cafezinho… me apanharam.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Um conto exemplar do povo Cuanhama (Sul de Angola)

Angola, com as suas províncias.
O povo Cuanhama, que pertence ao grupo Ambó, vive no sul do país (na província do Cunene, que faz fronteira com a Namíbia).

O conto que abaixo se transcreve pertence a uma recolha efectuada pelo missionário espiritano Carlos Estermann, distinto etnólogo que dedicou a maior parte da sua vida ao estudo dos povos do Sul e, particularmente, do Sudoeste angolano.
Estermann, nascido alemão (na Alsácia, em 1896), chegou a Angola em 1924 e aqui faleceu em 1976.
Deixou uma obra vastíssima, ainda hoje indispensável referencial para qualquer investigador do tema. E ganhou com ela o direito de emparceirar com os mais ilustres espiritanos que o antecederam no Sul de Angola.

Quanto aos contos que apresenta na sua obra, ele faz esta importante prevenção:

O conto popular, tirado do seu ambiente natural (que é o de ser contado e ouvido), perde muito da sua espontaneidade e frescura. Isto é duplamente verdade quando se trata do conto africano. O seu ambiente é a noite, quando, depois do jantar, os habitantes da aldeia se reúnem em conversa amena em volta da fogueira.
Para narrar o conto, destaca-se um indivíduo que, em geral, fala de pé. Pouco a pouco, ele vai-se animando, modula a voz segundo os vários actores que intervêm na história e intercala interjeições - ora lamentosas ora explosivamente admirativas. Gesticula, não só com os braços, mas, conforme as exigências da narrativa, com o corpo todo.
O auditório toma parte activa, ficando às vezes como que electrizado. Manifesta de onde a onde, ruidosamente, a sua aprovação ou desaprovação, sublinha as partes hilariantes com risos estrepitosos e reage entendidamente às frases sarcásticas (…).


Recriado, deste modo, o "ambiente natural" do conto africano, estamos prontos para ouvir a seguinte história cuanhama:

 
O Leão e o Chacal
 
O leão tinha um bode.
O chacal possuía uma cabra.
O chacal foi ao leão e disse:
- Majestade, empresta-me o teu bode para fazer criação com a minha cabra. Quando esta tiver parido, eu virei trazer-te o bode com o respectivo pagamento.
O leão concordou.
Depois de ter ficado coberta, a cabra pariu dois cabritinhos: uma fêmea e um macho. Então, o chacal agarrou o bode e a pequena fêmea e levou-os ao leão, dizendo:
- Cá tens o teu bode e também o pagamento.
O leão perguntou ao chacal: Nasceu só esta cabrita?
- Nasceram dois - respondeu o chacal.
- Então, onde deixaste o outro?
- Um deles, o pequeno macho, ficou para mim, para fazer criação com a mãe.
O rei da floresta, quando ouviu isto, ficou zangado e disse:
- Vai já, já, procurar o outro cabrito, para mo entregares. Tu queres roubar-me? Se o meu bode não tivesse fecundado a tua cabra, teria ela, porventura, tido cabritos? Os dois cabritos são meus, pois o meu bode é que os gerou!
O chacal disse: - Isso não pode ser de maneira nenhuma! Tu queres roubar-me porque és rei! Vamos chamar todos os bichos da floresta para fazer um julgamento e vermos se sou eu que quero roubar-te ou se és tu que me queres roubar a mim.
Disse então o rei da floresta: - O animais da floresta vou mandá-los vir amanhã de manhã cedo. Mas, se eu tiver razão, hei-de acabar com toda a tua raça! 


Quando o chacal se separou do leão, foi à procura do cágado e disse-lhe:
- Amigo cágado, amanhã tenho um julgamento com o senhor da floresta. Vem defender-me. Pedi-lhe emprestado um bode para fecundar a minha cabra. Agora que esta pariu, diz o leão que ambos os cabritos são dele, porque foi o bode que os teve.
- Está bem - respondeu o cágado. - Encontrar-nos-emos amanhã na residência do rei, mas não deixes começar o julgamento sem eu estar presente. 

Na manhã seguinte, todos os animais se dirigiram ao local da reunião. Perguntou então o rei da floresta:
- Estão cá todos?
- Sim, viemos todos.
- Então vamos ao julgamento, para ver se chegamos a uma conclusão - disse o leão.
Disse o chacal: Não, senhor, não pode ser! Ainda falta chegar um.
- Quem é que falta?
- É o cágado.
Ficaram os bichos à espera, até que o sol se ergueu a prumo. O cágado não havia meio de chegar. Alguns impacientaram-se e disseram:
- Façamos o julgamento. Porque ficar à espera de um só? Será ele porventura mais inteligente do que nós?

Ainda não tinham acabado de falar quando o cágado se apresentou. Assim que ele chegou, disse a hiena:
- Ah! Sim! Foi este fedelho que fez de nós seus criados! É este bichinho de casca que pretende ser mais inteligente do que todos nós. Toda a manhã estivemos à tua espera, com o rei da floresta. O que andavas a fazer então? Todos os teus companheiros já vieram muito cedo. Tu és muito malcriado!
- Está calada e não me ralhes - disse o cágado. - Eu tive que fazer em casa porque o meu pai deu à luz!
Os bichos ficaram muito admirados com esta desculpa e perguntaram uns aos outros: - Todos vós que estais aqui presentes: quem é que viu um macho que desse à luz?
Ninguém sabia o que havia de responder ao cágado, ficaram todos embaraçados e disseram: - Nunca vimos um macho que parisse; são só as fêmeas que dão à luz. O teu pai deve ser o único a dar à luz nesta terra!
- Ah, sim? - disse o cágado. - Só o meu pai é que teve filhos? Então a causa do julgamento por que estais reunidos, qual é? Não sois vós que dizeis que o bode teve dois cabritos?
Então os bichos puseram-se de pé, resmungaram e disseram: - Aqui não há uma causa justa!
E assim o leão foi declarado vencido por todos os bichos e o chacal ficou com ambos os cabritos.

………

Nota do padre Carlos Estermann:

O sentido desta fábula é tão claro e a narrativa tão bem encadeada, que dispensa quaisquer comentários. Celebra ela o direito eterno e inviolável dos fracos contra os fortes e, por este lado, apesar da ingenuidade da exposição, emparceira com as obras mais sublimes da literatura mundial. Lembra-nos a "Antígona", de Sófocles, onde se proclamam os direitos não escritos e imutáveis que nenhum tirano poderá impunemente esmagar.


Fonte: Carlos Estermann, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro), Vol. 2, p. 290-291.
Publicado pelo Instituto de Investigação Científica Tropical
Lisboa - 1983

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Historinhas com Moral - "O Rei dos Animais"





"Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas.
Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar.

Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses.




Assim, o Leão encontrou o Macaco e perguntou: Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?
O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: Claro que é você, Leão, claro que é você!








Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?
E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: Currupaco… Não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?.





Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: "Coruja, não sou eu o maioral da mata?
Sim, és tu, disse a coruja.
Mas disse de sábia, não de crente.
E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça.









Encontrou o tigre.
Tigre - disse em voz de estentor -, eu sou o rei da floresta. Certo?
O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: Sim.
E rugiu ainda mais mal-humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.





Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante.
Perguntou: Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?

O elefante pegou-o com a tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro.

O Leão caiu no chão, tonto e ensanguentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado.

Moral:

Cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende. (*)


Millôr Fernandes



(*) Texto da autoria de Millôr Fernandes (Brasil, 1923-2012). Consta do seu livro "Fábulas Fabulosas".

Fonte: PROJETO RELEITURAS, de Arnaldo Nogueira Jr.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

PENSÃO FAMILIAR



Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar as boninas
que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.
E as dálias,
rechonchudas,
plebéias,
dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita: —
É a única criatura fina
na pensãozinha burguesa.
 
Autor : Manuel Bandeira - Brasil (n. 1886 - f. 1968)
Nota: Tiririca – planta herbácea do Brasil