sábado, 8 de maio de 2010

D. João V, rei de Portugal (1689-1750) - Majestoso, Esbanjador e Freirático

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D. João V


D. João V foi o 24.º rei de Portugal.
Nasceu em 22 de Outubro de 1689 e faleceu em 31 de Julho de 1750.
Aclamado rei no dia 1 de Janeiro de 1707.
O seu nome completo: João Francisco António José Bento Bernardo de Bragança.

Filho de D. Pedro II, foi pai do rei D. José (que teve o célebre Marquês de Pombal como primeiro-ministro); avô de D. Maria I (que enlouqueceu); bisavô de D. João VI, o rei que se refugiaria a partir de 1808 em terras brasileiras para se furtar à ameaça napoleónica (facto que acabaria por ter influência decisiva na futura declaração de independência do Brasil em relação a Portugal – ano de 1822).

Casou em 1708 com D. Maria Ana Josefa, arquiduquesa de Áustria, filha do Sacro Imperador Germânico, Leopoldo I, e da condessa Leonor Madalena de Neuburg.
A rainha foi irmã dos Sacro Imperadores José I e Carlos VI.

Muito culta, conhecia e falava alemão, francês, italiano, espanhol e latim. Resignou-se rapidamente ao abandono a que D. João V a votava. Muito devota, entregava-se com frequência a práticas piedosas. Interessava-se por coisas do mar, passeava ao longo do rio Tejo com a Família Real e a Corte, assistindo frequentemente a festas e serenatas no rio e a lançamentos de navios ao mar.
Apaixonada por música, assistia sempre aos concertos e aos serões de ópera da Corte.


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Convento de Odivelas, onde viveu a famosa Madre Paula
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Chamaram a D. João V O Magnânimo ou O Rei-Sol Português, em virtude do luxo de que se revestiu o seu reinado; alguns historiadores recordam-no também como O Freirático, devido à sua conhecida apetência sexual por freiras.
A mais famosa de todas foi a Madre Paula, enclausurada no convento de Odivelas, Lisboa.
Esta Madre Paula, que se fez poderosa e influente pelo domínio que exercia sobre o seu régio amante, foi mãe de um dos filhos ilegítimos de D. João V, os chamados Meninos de Palhavã.

Estes amores freiráticos eram de resto generalizados entre os nobres portugueses do tempo, a tal ponto que, em 1724, alguns deles foram convocados à Secretaria de Estado para assinarem um termo em que se comprometiam a não mais visitarem as freiras nos conventos, a deixarem de lhes escrever e a não lhes fazerem acenos da rua.
É claro que o rei D. João V se considerava à partida isento de tais limitações.

Segundo Veríssimo Serrão, D. João V «era senhor de uma vasta cultura, bebida na infância com os padres jesuítas. Falava línguas, conhecia os autores clássicos e modernos, tinha boa cultura literária e científica e amava a música. Para a sua educação teria contribuído sua mãe (Maria Sofia, condessa de Neuburg), que o educou, e aos irmãos, nas práticas religiosas e no pendor literário.»
E a seguir: «Logo na cerimónia da aclamação se viu o pendor régio para a magnificência.”

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A rainha D. Maria Ana Josefa, esposa de D. João V
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Oliveira Martins, o historiador português, escreveu sobre D. João V, e o seu reinado, palavras muito duras:


“(…) Um facto fortuito, alheio aos elementos naturais, tinha vindo pelos fins do século XVII influir poderosamente nos destinos da nação.
Despovoado e inculto o reino, miseráveis e nuas as povoações, sem riqueza nem trabalho – as minas de ouro do Brasil deram ao rei e ao povo uma fortuna que o país lhes negava.
Lisboa era mais a metrópole de um vasto império ultramarino do que a capital de um reino europeu.
Agora, as minas americanas (do Brasil) chamam todas as ambições e todas as forças para a cidade onde se encontra a vida inteira da nação.

Foi sobre o ouro e os diamantes do Brasil que se ergueu o trono absoluto de D. Pedro II; foi com eles que D. João V, e todo o reino, puderam entregar-se ao entusiasmo desvairado dessa ópera ao divino em que desperdiçaram os tesouros americanos.

O acaso concedeu a um tonto o uso de armas perigosas, abrindo-lhe de par em par as portas dos arsenais; e D. João V, enfatuado, corrompeu e gastou, pervertendo-se também a si e desbaratando toda a riqueza da nação. Tal foi o rei.
O povo, beato e devasso, pastoreado pelos jesuítas, arreava-se agora de pompas, para assistir como convinha à festa solene do desbarato dos rendimentos do Brasil.



Terreiro do Paço - Lisboa
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Essa soma quase incalculável de riquezas não bastou para encher a voragem do luxo e da devoção do espaventoso e beato monarca.
O Inglês sentava-se com ele à mesa e aplaudia os desperdícios, porque todo o ouro do Brasil apenas passava por Portugal, indo fundear em Inglaterra para pagamento da farinha e dos géneros fabris com que ela nos alimentava e nos vestia.
As indústrias nacionais eram as óperas e as devoções: todo o comércio externo estava nas mãos dos ingleses, principalmente, e também de italianos.

Por isso, nem todo o ouro do Brasil chegou, a dívida nacional cresceu, e se Lisboa quis deixar de morrer à sede teve de pagar com um imposto especial a construção do seu Aqueduto.
Os dinheiros do Brasil tinham outro e melhor destino.
Iam para Roma custear o preço de concessões valiosas.

Era a elevação da capela do rei a Patriarcado – um arremedo do Vaticano.
Eram as insistências (sem resultado) para que se definisse o dogma da Imaculada Conceição de Maria, antiga teima dos reis Braganças.
Era a licença para os padres dizerem três missas em Dia de Finados. Eram os lausperenes, as relíquias, as canonizações, as indulgências.
D. João V tinha o amor das cerimónias, e sabia todos os pontos da etiqueta do paço e da igreja. Era mestre em liturgia. Queria bem a todos os santos, mas tinha um fraco particular por S. José e por S. Francisco de Assis.


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D. João V
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A Patriarcal era para D. João V o reino, a corte.
Essa ópera contava quase quatrocentos figurantes.
Afora o patriarca, tinha vinte e quatro principais, setenta e dois prelados, vinte cónegos, setenta e três beneficiados, mais de trinta mestres-de-cerimónias, acólitos, capelães.

Custavam todos trezentos contos ao ano.
E, além disso, cento e trinta cantores e músicos, por trinta e oito contos.
E, por cima, as rendas principescas do patriarca.
E mais ainda o preço incalculável das festas magníficas, com o cenário deslumbrante de ouro, pedrarias, veludos, rendas, luzes, em nuvens de incenso despedidas pelos turíbulos cinzelados.

D. João V não regateava o preço das coisas; antes, como rei brasileiro, rico sem saber como, punha a honra na despesa, imaginando espantar o mundo com o modo perdulário com que dissipava.
Mais de duzentos milhões de cruzados foram para Roma; não tem conta o que deu pelo reino às igrejas, aos conventos de frades e freiras, e, na sua fúria de ser esmoler-mor do catolicismo, lembrava-se de todos derramando por toda a parte o ouro do Brasil.
Alexandre de Gusmão, atónito, apertava a cabeça com ambas as mãos, exclamando:
A fradaria absorve-nos, a fradaria suga tudo, a fradaria arruína-nos!

O rei não pensava em tal. E, emproado, soberano, a peruca majestosa, o pulso em fofas rendas, com a mão sobre a bengala, risonho de si, passeava os olhos pela ópera faustosa.
Vestia-se de Paris.
Era, deveras, um grandíssimo rei!
E os mitrados de púrpura, os tonsurados, de rastos, humildes, batendo nos peitos, louvavam e adoravam o Grande Lama do extremo ocidente.



Convento de Mafra - Portugal
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Mas não estava satisfeito ainda o grande rei.
Queria também monumentos, e traçou uma basílica maior do que o reino.
O convento de Mafra devorou, em dinheiro e gente, mais do que Portugal valia.
Por fim o rei conseguira o cúmulo da sua ambição; e a mania dos monumentos, que lavrara em França com Luís XIV, transportada para cá, erguia de uma só vez, num lugar único, uma montanha fria de pedra.

Mafra, vasto abrigo mortuário, povoado de frades negros, era ao mesmo tempo o palácio do moderno Salomão.
50 000 homens andaram nessa obra, como escravos; e ao lado a forca ameaçava os que protestassem.
As oficinas de Roma e de Veneza, de Milão e de Génova, da Flandres e da França tinham fornecido as alfaias preciosas, os lustres e candelabros, os cancelos de bronze arrendado, as lâmpadas e tocheiros, os relógios e carrilhões.
Nunca se vira ópera tão estrondosa de músicas, tão brilhante de ouros, pedrarias, luzes, púrpuras, rendas, sedas!.

D João V
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No meio da comédia burlesca da devoção, a desordem, a corrupção eram enormes.
Tudo se consegue com quaisquer quatro bolsas, aplicadas decentemente a qualquer bonzo, dizia Alexandre de Gusmão, que via as coisas de dentro.
Os fidalgos ocupavam-se de troças brutais, promovendo tumultos e desordens, em que havia mortos.
O próprio irmão do rei, o infante D. Francisco, divertia-se nessas aventuras e raptos nocturnos que ensanguentavam as ruas da capital.
A antiga valentia portuguesa aparecia transformada em uma brutalidade grosseira.

A orgia sanguinária e lúbrica era o fundo real do quadro da devoção e da majestade burlesca.
O conde de Tarouca, tão piedoso, vivia amancebado com a Rocha, furtada por ele ao pai e casada com um criado seu; a Rocha fugiu-lhe com o padre Soares.
O conde de Valadares, que matara a filha com crueldades devotas, ia disfarçado de mulher, de manto e touca, falar à criada em Santa Clara, e dormia no convento com ela.
O prior de S. Jorge tinha 65 anos e um serralho de beatas suas confessadas. A Inquisição interveio, condenando-o a degredo; mas o velho defendia-se dizendo que o amor é caridade, resumo de toda a lei.

A abadessa do convento de Santa Ana de Lisboa fugia para a Holanda com um frade capucho.
A Quaresma e a Semana Santa eram a época desejada das aventuras piedosas.
Dizia-se que o rei ia disfarçado de andrajos de pobre para junto do andor do Senhor dos Passos da Graça beliscar as fidalgas quando beijavam o pé da imagem..
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É verdade que D. João V perdia a cabeça por todas as mulheres.
Mas a sua verdadeira paixão estava em Odivelas, o ninho da Madre Paula.
Madre Paula e a irmã Maria da Luz viviam juntas nesse fofo recinto preparado para todas as voluptuosidades. Todo o luxo da época se acumulara no palacete misterioso e maravilhoso: as talhas douradas, os mosaicos de Itália, os charões da Índia, os móveis de ébano embutidos de marfim, os espelhos de Veneza, os cristais, as cambraias, as rendas, as pratas e ouros, as franjas pesadas, os estofos de melania (a fazenda da moda) e as sedas adamascadas que revestiam as paredes.

As duas irmãs dormiam no mesmo quarto, e entre as duas camas tinham duas pias de prata, com água benta, para se persignarem.
O rei entrava e saía, sem se esconder, sem recear que o vissem. Todo o convento o conhecia e lhe beijava, reverentemente, a mão. Perto do palácio, ao Arco dos Pregos, o Cucolim, ao contar as idas para Odivelas dizia: Ali perde a vergonha!

O voluptuoso monarca era verdadeiramente rei, porque o seu povo – a nobreza, o clero, a burguesia rica – ardia nas mesmas paixões.
A perversão dos instintos, o vazio das inteligências, a maldade imbecil e a carolice piegas e lúbrica retratavam a primor o estado caduco do corpo da nação amortalhada num sudário de brocados de sacristia.
Portugal era um cenário de ópera armado numa igreja.
Não somos nós, com as nossas críticas, quem o diz: confessam-no os contemporâneos. Leia-se o que escreveu o Cavaleiro de Oliveira, leia-se Alexandre de Gusmão, leia-se o Testamento Político de D. Luís da Cunha.
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Nada há a esperar do rei: é a impressão que sai do texto deste último documento.
Foi a este porto, leitor amigo, que nos conduziu a educação que os jesuítas começaram a dar-nos no XVI século.
Não se investe debalde contra a natureza, seja em nome de quem for.
E os padres, secando em nós todas as fontes da vida real e justa, deram-nos em troca um sistema de tresvarios e fraquezas, para nos salvarem.

Quando estávamos a bom caminho do fim final, o (rei) Bragança lembrou-se de nos remir, e as minas do Brasil vieram jorrar um dilúvio de ouro nos bolsos de uma gente perdida de corpo e alma.
Das loucuras que isso deu, fiquem estas páginas por documento.
A história interrompe-se, mas não termina aqui.
Se alguém pensa que um povo não podia descer mais, engana-se: em breve se convencerá da verdade". (*)
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(*) - História de Portugal - Oliveira Martins (adaptações e ordenação da Torre da História Ibérica)
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