domingo, 14 de junho de 2015

Elaine Sanceau - A senhora inglesa que se apaixonou pela história dos Portugueses

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Elaine Sanceau nasceu em Craydon (Inglaterra) em 1896 e faleceu em Leça do Balio (Porto, Portugal) a 23 de Dezembro de 1978.
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Tendo feito os seus estudos em Montreux, na Suíça, daí partiu na companhia da família para o Brasil, país onde se manteve até 1931.
Foi aí, em Terras de Vera Cruz, que Elaine Sanceau contactou, pela primeira vez, com a História de Portugal e, muito particularmente, com o período quinhentista que desde logo lhe aguçou o interesse e lhe despertou o espírito de investigação.
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Fixando residência em Portugal - primeiro no Porto e, mais tarde, em Leça do Balio -, logo se lançou na senda da investigação histórica sobre o período que tanto a atraía. 
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Em 1939 saía a lume o seu primeiro grande estudo: Indies Adventures. The Amazing Career of Afonso de Albuquerque, que, na tradução portuguesa, tomou o título de Afonso de Albuquerque - O Sonho da Índia.
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Foi a Livraria Civilização (Porto, Portugal) a editora desta primeira obra da historiógrafa, cuja carreira meritoriamente viria a acompanhar de início a final, abrindo ao público de língua portuguesa o contacto com os estudos da notável investigadora.
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Com O Sonho da Índia, nascia uma escritora que aliava uma extrema dedicação a uma seriedade e honestidade de métodos de trabalho que lhe não permitiam falsear as verdades, nem mesmo para incensar o seu país de escolha: Portugal.
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À incansável pena de Elaine Sanceau ficamos a dever nada menos do que trinta e oito vultosos estudos, dos quais vinte e oito sobre o século dezasseis.
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Todos os livros de Elaine Sanceau foram, primeiramente, redigidos na sua língua materna, mas os seus excelentes conhecimentos de português falado e escrito tornaram-na uma severa crítica das traduções que as suas obras recebiam dos colaboradores portugueses.
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Nunca escreveu uma palavra, ou uma frase, sobre um monarca, um príncipe, um vice-rei, um marinheiro, um mercador, um soldado ou um capitão sem que um prévio e exaustivo trabalho de investigação, de estudo e de análise se realizasse nos arquivos portugueses - especialmente na Torre do Tombo e no Arquivo Histórico Ultramarino - com a ajuda de dedicados paleógrafos que punham o seu saber e conhecimento das letras quinhentistas e seiscentistas ao serviço da escritora.
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Deste notável labor resultaram obras que aliam uma extrema simplicidade de linguagem a um rigor histórico que as tornam fontes de informação da maior confiança.
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Oficialmente reconhecida como um dos expoentes da historiografia portuguesa, Elaine Sanceau viu os seus méritos galardoados com o "Prémio Camões", pela obra Em Demanda do Preste João, publicada em 1944, e com as condecorações das Ordens de Santiago de Espada (1953) e do Infante D. Henrique (1961).
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Foi também eleita como membro do Instituto de Coimbra, da Academia Internacional da Cultura Portuguesa e do Centro de Estudos Ultramarinos.
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Também o Porto lhe patenteou o seu reconhecimento ao conferir-lhe, em 1968, a Medalha de Ouro da Cidade. 
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Cerca de trinta e sete anos passados sobre o falecimento de Elaine Sanceau, a Torre da História Ibérica associa-se a estas homenagens, começando por evocar, no texto acima, o que sobre a grande historiógrafa disseram os seus editores da Livraria Civilização, em Dezembro de 1979 (na abertura da obra Mulheres Portuguesas no Ultramar).
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A homenagem da Torre, extensiva à prestigiosa Livraria Civilização, do Porto, prolonga-se nos breves excertos das obras de Elaine Sanceau que abaixo se podem ler.
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"Situado no extremo do continente europeu, voltado à África, ao sul, e ao vasto espaço ocidental, Portugal era uma estreita plataforma debruçada sobre o Atlântico. Serras cobertas de pinheiros a envolverem vales pedregosos, que, na estação própria, se enchiam das flores douradas do tojo ou roxas das urzes, corriam até às dunas batidas dos ventos, iluminadas pelas cabeças cintilantes dos orvalhos - toda a situação do país o afastava do continente e o empurrava para o mar.
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Embalado em tal ambiente, separado do convívio, do lado da fronteira terrestre, por terras selváticas e penedias, não é de estranhar que uma nação se desenvolvesse predestinada para a vida marítima e para chegar até às remotas regiões da Terra.
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Era duma raça vigorosa e heterogénea: Fenícios, Celtas e Latinos já haviam fundido o seu sangue antes de Visigodos e Sarracenos terem combatido nestas montanhas, ou os Normandos vagabundos deixarem as suas povoações junto da costa.
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De todos esses elementos brotou um povo, de tipo diverso e de temperamento discordante, irrequieto, aventureiro e até, muitas vezes, conflituoso entre si, mas, desde longa data, pronto a fazer frente ao inimigo ou a tomar parte num empreendimento comum.
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A sua terra foi uma das primeiras da Europa a completar a unidade interna e as fronteiras permanentes.
Havendo expulsado o último mouro do Algarve, tendo firmado a sua independência com a vitória sobre Castela, os Portugueses estavam preparados e prontos, no fim do século XIV, para iniciarem a sua missão histórica."
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Elaine Sanceau - O Caminho da Índia - Livraria Civilização Editora - Porto - Portugal - 1958 - págs. 39-40.
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"D. João II de Portugal não tinha nada de místico contemplativo. Correr atrás de quimeras não era coisa que atraísse esse monarca vivo e maquiavélico. Se enviou emissários para o desconhecido, era porque estava quase certo de que haviam de encontrar coisa substancial ao cabo da viagem.
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Os seus exploradores havia tempo que andavam a reunir informes. Os homens que desafiavam os terrores do mar profundo não se deixavam intimidar pela floresta equatorial.
Internaram-se nela e exploraram-na.
Descobriram-se estranhos reinos negros sob aquelas sombras vaporosas, reinos de adoradores de feitiços, mas até nessas profundezas da noite pagã se recolheram indícios de mais alguma coisa para além.
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A vinte luas de jornada para o Sol nascente, declaravam os homens encarapinhados de Benim, reinava o grande rei Ogané. Os chefes de Benim encaravam este Ogané com veneração quase religiosa, como um ser muito superior.
Nenhum deles o tinha visto - enviavam-lhe embaixadores quando subiam ao trono, e nada mais. Nem sequer os embaixadores viam Ogané, pois esta augusta personagem estava sempre oculta, por cortinados, aos olhos dos profanos.
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Tudo quanto os enviados de Benim viam dele era apenas um pé, patenteado uma vez só, para que eles deliciassem os olhos antes de abalarem.
Nesta mesma feliz ocasião, Ogané entregava aos seus visitantes um elmo luzidio de latão para o seu rei, e uma cruz do mesmo metal para ele trazer ao pescoço.
Sem estas insígnias nenhum rei de Benim podia reinar legitimamente.
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Uma viagem de vinte luas para o Oriente queria dizer duzentas e cinquenta léguas mais ou menos, deduziam os Portugueses do que sabiam do progresso indígena através do mato.
D. João II convocou os especialistas e, mandando vir as suas cartas, estudou, com eles, a questão.
O país de Ogané ficava ao sul do Egipto, e Ogané era, certamente, o Preste João!
D. João II resolveu desencantar esta misteriosa e inacessível personagem do seu esplêndido isolamento e trazê-la ao contacto do pequeno reino do Ocidente."
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Elaine Sanceau - Em Demanda do Preste João - Livraria Civilização Editora - Porto - Portugal - 1983 - págs. 19-20.
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 (Do achamento do Brasil pelos navios de Pedro Álvares Cabral - Abril de 1500)
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"O Sol declinava lá para os lados da floresta distante. Para o sul, levantava-se uma longa cordilheira, negra na escuridão que descia. A noite cobria rapidamente com o seu manto um continente desconhecido e toldava o mar cor de opala, cujas ondas apagavam com seu marulho os ruídos da floresta.
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A escuridão estendia-se por milhas sem conta, cobrindo a terra. Das profundezas do mar ondulavam, ora subindo ora descendo, as luzes trémulas de treze navios. Os mastros e as vergas, cujas velas haviam sido colhidas, balouçavam, negros, ocultando o Cruzeiro do Sul. Nos elevados castelos da proa e da popa apinhavam-se os homens, com olhos sôfregos a interrogarem a noite.
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(...) Inesperada ou não, era uma terra encantadora que se revelou no outro dia, ao amanhecer, quando os navios desferraram as velas para se aproximarem da costa. Todas de verde brilhante, árvores enormes erguiam seus topes para o azul-ferrete do céu; o mar, também azul-ferrete, desfazia-se em ondas translúcidas sobre a fina areia da praia, e o vento, fresco e rescendente, era como uma carícia.
A Pêro Vaz de Caminha lembrava-lhe a brisa do Verão no seu Entre Douro e Minho.
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A armada lançou ferro na foz dum rio que corria por entre as sombras verdes. Os capitães reuniram-se na nau capitaina e discutiram os seus planos com os pilotos.
Não era esta uma reunião de personalidades banais a que presidia Pedro Álvares Cabral.
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Os veteranos da África e do Oriente discutiram acerca desta terra ocidental - ilha ou continente, que podia ela ser?
Suspeitavam que continente.
O comandante achou que devia chamar-se Terra da Vera Cruz, e monte Pascoal seria a montanha elevada e arredondada que se via para além da floresta, por ser na semana da Páscoa que ele a avistara.
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Então Nicolau Coelho, o irrequieto pioneiro de muitos desembarques em costas desconhecidas, foi mandado num pequeno barco até à foz do rio.
Junto da praia via-se um grupo de homens - bronzeados e de cabelos pretos e corredios, nus como Adão no Paraíso. Brandindo arcos e flechas, corriam para a beira da água, olhando espantados para o barco que conduzia os estranhos homens brancos."
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 Elaine Sanceau - Capitães do Brasil - Livraria Civilização Editora - Porto - Portugal - 1975 - págs. 7-10.
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