sábado, 11 de abril de 2015

Portugal Antigo Visto Por Estrangeiros (Maria Rattazzi, os Portugueses e os Espanhóis)

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“O povo português, além da bondade de coração, da brandura de costumes, da alegria, da lealdade e do bom humor, possui ainda duas outras qualidades: a docilidade e a paciência. Não é possível que exista gente mais tranquila, mais dócil, mais resignada. Medidas arbitrárias, actos violentos, deixam-na fria, não perturbando de maneira alguma a sua inalterável placidez. É o estoicismo e o fanatismo combinados e elevados ao mais subido grau.
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A natureza do povo pode traduzir-se e entender-se mediante duas locuções que lhe são familiares.
Alude-se às misérias, aos vexames, aos abusos - eis a resposta invariável: Tenha paciência!
Diz-se-lhe que é preciso tomar uma resolução, testemunhar actividade, defender os seus direitos - resposta insubstituível: Amanhã.
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Tenha paciência e amanhã são as duas fórmulas inseparáveis da língua portuguesa, que servem para tudo e que o povo emprega a propósito de tudo.
Se morre de fome, “tenha paciência”; se se lhe oferece trabalho, “amanhã”.
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O povo português é muito cortês, muito condescendente, muito hospitaleiro, muito obsequiador e muito impressionável. Tudo isto provém, naturalmente, da bondade nativa a que me refiro.
É incontestavelmente dotado das mais belas qualidades morais; o sangue gira-lhe nas veias impetuosamente; a sua reputação de coragem e bravura não é contestada, nem pelos seus inimigos. (...) Provou-o largamente em sucessivas revoluções e na enérgica resistência que opôs ao seu vizinho.
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O rancor também não é para ele um sentimento desconhecido. Para nos convencermos desta afirmação basta ouvi-lo discretear acerca dos espanhóis. O tempo não modificou esta velha animosidade; ao contrário, agravou-a.
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Diz-se que em certas partes da Oceânia as tribos devoram os inimigos que aprisionam, condimentando-os com vários adubos. O português é “hispanófago”, e se de tempos a tempos não trinca, sob a forma de costeleta, o espanhol que lhe cai nas unhas, é simplesmente por timidez e não porque lhe escasseie o apetite.
Chamai idiota a um português, e perdoar-vos-á, talvez; mas se lhe disserdes que se parece com um espanhol, assassinar-vos-á. (…).
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Uma anedota dará uma ideia aproximada do grau de intimidade que reina entre os dois povos vizinhos:
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Certo dia, um espanhol e um português encontraram-se numa ponte estreitíssima que ligava as margens de uma torrente profunda. O português escorregou e caiu na água. (Note-se que eu não disse que o espanhol esteve na origem da queda.)
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O português, não sabendo nadar, debateu-se, mergulhou, depois voltou à superfície; foi então que, lutando contra a corrente e antes de desaparecer pela última vez, avistou o espanhol, encostado tranquilamente à balaustrada da ponte, vendo-o afogar-se indiferentemente,  com inaudita impassibilidade e sem a menor ideia de o socorrer.
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À vista disto, o português, chegando ao paroxismo do furor, fez um supremo esforço e, mostrando o punho cerrado ao espanhol, gritou-lhe: Tira-me daqui, canalha de espanhol, e poupar-te-ei a vida!
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Este ódio do português contra o vizinho explica muitíssimas coisas (…).”
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Autora do texto: Maria Rattazzi, in Portugal de Relance (Tradução portuguesa do livro "Portugal à vol d'oiseau"), Lisboa, 1882, págs. 68-70.
Maria Rattazzi nasceu em Waterford (Irlanda), em 1831, e faleceu em França (Paris) no ano de 1902.
Mulher de letras (poetisa, romancista, cronista, dramaturga, tradutora).
Espírito observador e analítico, servido por um sentido de humor apuradíssimo - e às vezes verrinoso.
Polemista temível.
Indispôs alguns dos intelectuais portugueses do seu tempo, com destaque para Camilo Castelo Branco, que a procurou diminuir num texto entre o furioso e o sarcástico.
Ela respondeu-lhe, com elegante e bem humorado desprendimento, no prefácio da tradução portuguesa do seu livro Portugal à vol d'oiseau (de onde se extraiu o texto acima).
Foi sobrinha-neta de Napoleão I.
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Quadro de abertura: José Malhoa, Portugal.
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