domingo, 29 de março de 2015

A Paixão da Dona Felicidade pelo Conselheiro Acácio

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"Aos domingos à noite havia em casa de Jorge e Luísa uma pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho candeeiro de porcelana cor-de-rosa.
Vinham apenas os íntimos - o Julião Zuzarte, a Dona Felicidade de Noronha e o conselheiro Acácio" (já aqui apresentado - cf. 22-Março-2015).
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Foi ao correr desses serões mansos que floriram e se desenvolveram os amores da Dona Felicidade pelo conselheiro.
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Eça de Queiroz conta-nos como sucedeu:
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"Ás nove horas, ordinariamente, entrava Dona Felicidade de Noronha. Vinha logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado.
Tinha cinquenta anos, era muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam.
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Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e húmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pêlos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina.
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Fora a íntima amiga da mãe de Luísa, e tomara aquele hábito de vir ver a pequena aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas de Redondela, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da Encarnação.
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Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luísa, perguntava-lhe baixo, com inquietação:
- Vem?
- O conselheiro? Vem. (...)
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Havia cinco anos que Dona Felicidade o amava.
Em casa de Jorge riam-se um pouco com aquela chama. Luísa dizia: Ora! É uma caturrice dela!
Viam-na corada e nutrida, e não suspeitavam que aquele sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silêncio, a ia devastando como uma doença e desmoralizando como um vício.
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Todos os seus ardores até aí tinham sido inutilizados.
Amara um oficial de lanceiros que morrera, e apenas conservava o seu daguerreótipo.
Depois apaixonara-se muito ocultamente por um rapaz padeiro, da vizinhança, e vira-o casar.
Dera-se então toda a um cão, o Bilro; uma criada despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o Bilro rebentou, e tinha-o agora empalhado na sala de jantar.
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A pessoa do conselheiro viera de repente, um dia, pegar fogo àqueles desejos, sobrepostos como combustíveis antigos.
Acácio tornara-se a sua mania: admirava a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua eloquência, achava-o numa "linda posição".
O conselheiro era a sua ambição e o seu vício!
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Havia sobretudo nele uma beleza, cuja contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva.
Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos homens, e aquele apetite insatisfeito inflamara-se com a idade.
Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, polida, brilhante às luzes, uma transpiração ansiosa humedecia-lhe as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, ávida, de lhe deitar as mãos, palpá-la, sentir-lhe as formas, amassá-la, penetrar-se dela!
Mas disfarçava, punha-se a falar alto com um sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gotejava-lhe nas roscas anafadas do pescoço.
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Ia para casa rezar estações, impunha-se penitências de muitas coroas à Virgem; mas apenas as orações findavam, começava o temperamento a latejar.
E a boa, a pobre Dona Felicidade tinha agora pesadelos lascivos, e as melancolias do histerismo velho!
A indiferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum suspiro, nenhuma revelação amorosa o comovia! Era para com ela glacial e polido.
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Tinham-se às vezes encontrado a sós, à parte, no vão favorável duma janela, no isolamento mal alumiado dum canto do sofá -, mas apenas ela fazia uma demonstração sentimental, ele erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico.
Um dia ela julgara perceber que, por trás das suas lunetas escuras, o conselheiro lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundância do seio; fora mais clara, mais urgente, falara em paixão, disse-lhe baixo: Acácio!
Mas ele, com um gesto, gelou-a - e de pé, grave:
 
- Minha senhora,
 
.................... As neves que na fronte se acumulam
.................... Terminam por cair no coração...
 
- é inútil, minha senhora!
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O martírio de Dona Felicidade era muito oculto, muito disfarçado; ninguém o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, ignoravam-lhe as torturas do desejo.
E um dia Luísa ficou atónita, sentindo Dona Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão húmida, e dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro:
 
- Que regalo de homem!"
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Eça de Queiroz, O Primo Bazilio, Livraria Internacional, 2.ª edição, Porto, 1878, págs. 41-44.
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(Actualização ortográfica da responsabilidade da Torre)
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Ao cimo: foto (autor desconhecido) da estátua de Eça de Queiroz no Largo Barão de Quintela, em Lisboa.
Trata-se da réplica, em bronze, da estátua de pedra executada por Teixeira Lopes e inaugurada em 1903.
O original, alvo de constantes actos de vandalismo, encontra-se desde 2001 no Museu da Cidade, ao Campo Grande, ano em que, por iniciativa camarária, foi inaugurada a réplica no referido Largo (informação da Câmara Municipal de Lisboa).
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