domingo, 6 de julho de 2014

Palavras de Ontem - Rachel de Queiroz (Brasil)

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Na edição de 7 de Maio de 1960, na revista brasileira O Cruzeiro (capa acima), a grande jornalista Rachel de Queiroz publicou a seguinte crónica (respeita-se a grafia original):
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O drama da África do Sul
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Já tenho ouvido de muito brasileiro ingênuo ou mal-aprendido o comentário de que foi uma pena não se terem os flamengos fixado definitivamente no Brasil. Ah, outro galo nos cantara! Teríamos progresso, futuro e não êsse descalabro ibérico que nos legou a colonização portuguêsa...
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Pois isso que agora acontece na África do Sul é uma amostra do que seria de nós se a insurreição pernambucana não houvesse pôsto fora do Nordeste o invasor holandês. Flamengo pode ser muito bom na terra dêle. (Não posso dizer a frase corriqueira - que êles podem ser bons para as negras dêles, porque é para as negras dêles, evidentemente, que êles são péssimos,...).
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Flamengo tem altas virtudes, mas é um fato que sua atuação colonial durante mais de três séculos e em vários continentes demonstrou que êle não sabe conviver em harmonia com povos de origem racial diferente da sua. E eis por que tenho um certo mêdo dessas colônias holandesas que ora se estabelecem no Brasil. Muito boas, muito limpas, muito trabalhadeiras - mas não se estará formando em cada uma delas um quisto racial insolúvel, uma minoria intolerante e inassimilável?
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Ontem alguém perguntava: que é que faz com que um povo aparentemente instruído, polìticamente adiantado, acredite estùpidamente que nasceu para senhor, que a côr da sua pele e a conformação do seu nariz o fadam a desprezar e escravizar outros homens que têm pele e nariz diferentes?
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A resposta é simples: um dos aspectos mais invariáveis da natureza humana é a capacidade de acreditar sinceramente e até mesmo fanàticamente, naquilo que lhe convém. Se eu preciso de um negro para trabalhar no meu roçado ou na minha mina, imediatamente me convenço que o bem e o destino do negro não é vaguear à toa nos matos, mas plantar a minha cana ou cavar a minha mina. Para a mina ou para o eito é que Deus o pôs no mundo, não para uma inútil liberdade.
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Graças a êsse mecanismo da mente humana, as maiores monstruosidades se praticam - e sinceramente - em nome do bem. Êsse horrendo Hendrik Verwoerd, com as suas duas balas encravadas no rosto, provàvelmente se considera o mártir de uma causa santa. Todos sofremos a necessidade instintiva de praticar coisas certas, ou pelo menos de receber a aprovação da demais Humanidade, ante o que praticamos.
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Assim, se eu exerço um ato de violência contra outro ser humano, a minha censura, a minha consciência, o meu anjo-da-guarda, seja lá o que fôr, imediatamente me acusa pelo crime cometido. E eu, então, que não quero renunciar às vantagens da minha violência, mas também não quero ser chamado criminoso, invento para minha justificativa um motivo irretorquível, retumbante, se possível de caráter religioso, e portanto irrespondível, sob pena de sacrilégio.
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No caso do negro, falado acima: em vez de reconhecer que o escravizo, convenço-me de que o negro é um irresponsável, incapaz de viver sem a minha ajuda; o trabalho a que o forço é a disciplina indispensável ao seu próprio bem; sôlto, êle ficaria entregue à miséria, à bebida, ao pecado. No fim acabo me proclamando a benfeitoria do negro, destinada por Deus à sua salvação... Uma vez convencida disso, torno-me invulnerável. Crio mesmo um dogma em tôrno daquela convicção. Se sou govêrno, crio lei a respeito e faço ampla catequização. E todos os que se beneficiam do meu regime passam também a acreditar fanàticamente, e, o que é pior, sinceramente, na honestidade dos nossos postulados.
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Se não fôsse artifício da mente humana, muito mistério social não teria explicação. Êsses brancos da África do Sul, que friamente fazem massacrar negros desarmados, provàvelmente não são assassinos contumazes; talvez até sejam bons pais de famílias e tementes do que êles consideram a lei de Deus. O Sr. Jânio Quadros, comentando outro dia o drama da África do Sul, disse numa frase generosa que não compreendia como é que naquela terra havia igrejas. A mim parece que a explicação é esta: êles se convenceram do seu direito divino sôbre os negros, convenceram-se de que a Providência os destinou a oprimir e explorar aquela raça nascida para serva dos brancos. E, em vista disso, sentem-se em paz consigo, e ainda pedem trôco a Deus pelas suas boas obras.
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Fenômeno idêntico explica por que o Sr. Salazar, homem de rígida formação religiosa e celebrada moral privada, chefia uma ditadura de opressão e impostoria; é que Salazar se convenceu de que é o desejado, o Messias da gene portuguêsa. E quem se revolta contra a pessoa ou os privilégios do salvador é culpado não de oposição a um homem fanático e mau, mas de atentado contra a própria nacionalidade. Assim se justificaria Hitler nos paroxismos da sua loucura assassina; assim se justificam os brancos racistas dos Estados Unidos. Isso explica por que nas guerras ambos os beligerantes estão certos de que Deus está do seu lado.
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Aliás, assim também se justifica qualquer criminoso.
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Todos têm a sua alegação perfeita. Ninguém diz que matou ou roubou porque é mau, degenerado ou louco. O sujeito que isso confessasse a si mesmo, provàvelmente se suicidaria: dentro de tal evidência ser-lhe-ia impossível continuar a viver consigo próprio.
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Foi o que aconteceu com Judas, entre outros.
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Rachel de Queiroz (1910-2003)
 
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