sexta-feira, 30 de março de 2012

Infância

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Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
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No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da sanzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café,
café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
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Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... não acorde o menino,
para o berço onde pousou um mosquito
e dava um suspiro... que fundo!
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Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
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(Carlos Drummond de Andrade)
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terça-feira, 6 de março de 2012

Chamam-lhe Democracia...

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“Estamos a viver um golpe de Estado à escala europeia.
Não é apenas o assalto aos dinheiros públicos e o ataque aos direitos sociais.
A democracia representativa transformou-se numa encenação sem qualquer valor real.
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Vários Estados europeus são governados por burocratas sem legitimidade democrática e ao sabor dos humores de um único governo.
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Nos países em crise os governos impõem a austeridade de forma expedita e a violência é, para quem se manifesta e para quem reprime, a única forma de diálogo que sobra.
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A liberdade de imprensa é desprezada sem que ninguém se incomode.
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Não é apenas meio século de bem-estar e paz social que está em causa.
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É a democracia.
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Os irresponsáveis que governam este continente em desagregação têm de voltar aos livros para aprenderem com os anos 30.
As sementes de violência e da intolerância já estão lançadas.
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Agora é esperar que floresçam candidatos a tiranetes que prometam aos povos mão firme, o resgate da sua independência e o fim da miséria e do caos.” (*)
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(*) Daniel Oliveira - “Sementes de Violência” – Expresso, Lisboa, 25-Fev-2012.
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