sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quando Se Deve Demitir um Primeiro-Ministro

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“(…) A demissão de um primeiro-ministro é algo de muito sério.

Não se exige por desfastio, ao não lhe irmos com a cara ou as ideias, mas só e apenas,

Quando se torna claro que é incapaz e indigno.

Quando fica evidente que chegou ao poder através de um colossal e calculado embuste, negando o que tencionava fazer (Catroga, um dos autores do programa do PSD, revelou agora que o aumento de impostos foi rasurado do documento).

Quando anuncia medidas incendiárias num dia para as retirar semana e meia depois.

Quando todas as suas previsões - todas, sem exceção - falham sem que sequer o admita ("tenho noção da realidade", escandaliza-se ele).

Quando aumenta brutalmente os impostos e, perante o que todos menos ele e o seu Gaspar previam - a queda da receita fiscal - fala de "surpresa orçamental", para a seguir voltar a fazer o mesmo, em pior.

Quando toma medidas inconstitucionais e a seguir se queixa do tribunal que lho diz e o culpa por ter de tomar mais - e mais inconstitucionais.

Quando se recusa a aproveitar a aberta da Grécia e a renegociar o acordo com a troika, mas não se incomoda em rasgar todos os compromissos assumidos com os eleitores e se prepara para, após anunciar a venda ao desbarato de todos os ativos nacionais, trucidar até o pacto social que funda o regime.

Demite-se um primeiro-ministro quando é mais danoso para o País mantê-lo no lugar que arriscar outra solução, por fraca e incerta que pareça.

Quando cada dia que permanece no lugar para o qual foi eleito cria perigo para a comunidade.

Demite-se um primeiro-ministro
quando é preciso.

É preciso."
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Fernanda Câncio – Obviamente, in Diário de Notícias, Lisboa , Portugal, 30-Novembro-2012.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Acordai, Portugueses!

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Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raiz
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Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
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Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
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(Acordai - Poema de José Gomes Ferreira - Portugal)

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pembe, Angola - Foi há 108 anos...

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Relembrar aqui:
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Na imagem, capa do n.º 367 do "Mundo de Aventuras", publicado em 23 de Agosto de 1956 pela Agência Portuguesa de Revistas (Lisboa).
Com desenhos de Carlos Alberto Santos e o título O Combate do Pembe, este semanário de banda desenhada publicou, do n.º 367 ao n.º 382, uma emocionante evocação do desastre militar português no Sul de Angola.
Para o autor, a figura central do drama foi a de João Roby (cf. capa acima).
Foi há 108 anos...
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domingo, 22 de julho de 2012

"Rumo às Terras do Fim do Mundo" - Uma Aventura em Angola

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No quadro do protocolo há anos existente entre o Governo da Província do Kwanza-Sul (Angola) e a Câmara Municipal de Almada (Portugal), teve lugar, de 9 a 22 de Junho de 2012, o 6.º Raid Kwanza-Sul, que levou algumas dezenas de participantes angolanos e portugueses a percorrerem, em caravana automóvel, as províncias do Cunene e do Cuando-Cubango (as chamadas “Terras do Fim do Mundo”, no canto sudeste do País).
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Nos cinco raids anteriores tinham já sido percorridas as outras 16 províncias. Trata-se de uma iniciativa que, muito para além das componentes lúdica e turística, tem como objectivo a aproximação e o aprofundamento de laços entre dois povos, o angolano e o português, que continuarão para sempre irmãos, apesar das – por vezes infelizes – vicissitudes políticas.
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À semelhança do que sucedeu nos três últimos raids, a organização fez agora editar um livro (“Rumo às Terras do Fim do Mundo” – ver capa na 1.ª foto) relacionado com o itinerário da caravana.

Nesta magnífica publicação de 184 páginas, com belíssimas e por vezes surpreendentes ilustrações, um grupo de autores convidados dá a conhecer, em artigos específicos, a história, a geografia, a cultura e os mais relevantes aspectos das regiões percorridas.

A edição é da PANGEIA (Lisboa) e a coordenação geral da obra pertenceu a Miguel Anacoreta Correia. A operacionalização mais directa, com um competente e sugestivo tratamento da informação, coube a Eleutéria Ornelas.

É um livro de leitura altamente recomendada, sobretudo para aqueles que se interessam pela História de Angola e de Portugal. (Preço: € 20).

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Segue uma visita guiada pelos 15 artigos da obra:

1 – De Luanda ao Bié Autora: Eleutéria Ornelas (Descreve-se a parte inicial do percurso, entre a capital, Luanda, e o Bié, no coração de Angola. Abundantes referências à realidade actual e à história das regiões percorridas).

2 – Bié. O centro de Angola e centro das bacias hidrográficas Autor: Ilídio do Amaral (A terra, a flora, os rios e a história do referido coração de Angola).

3 – O Cuando-Cubango. Como se ligou a Angola - Autores: Nuno Costa e Jorge Maceirinha (A forma como Portugal conseguiu, não obstante a poderosa e perigosa concorrência das grandes potências europeias, juntar ao território angolano a imensa região do sudeste que dá hoje corpo à província do Cuando-Cubango).
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4 – O caminho-de-ferro de Moçâmedes – Autor: Dolbeth e Costa (Epopeia da construção da difícil ferrovia que liga Moçâmedes - actual Namibe - ao interior - Lubango, Menongue… -, no Sudoeste de Angola).

5 – Menongue – Autor: João Loureiro (Como e por que razão nasceu Menongue, a antiga Serpa Pinto, de riquíssima e movimentada história).

6 – As batalhas do Cuito-Cuanavale – Autor: Jaime Nogueira Pinto (Descrição dos mortíferos combates da guerra civil angolana na região atravessada, com participação de forças locais – MPLA e UNITA – e estrangeiras – Cuba e África do Sul).




7 – Os Khoisan – Autor: Reinaldo Ribeiro, com adaptação de Manuel Vaz para este livro (Vida de um povo de fantásticos sobreviventes caçadores-recolectores, que se espalha pelo Sul de Angola, Namíbia, Botswana e áreas adjacentes).

8 – A travessia de Serpa Pinto – Autor: Manuel Vaz (Descrição da travessia que o mítico explorador português realizou, no século XIX, entre Angola e a África do Sul).

9 – A questão do Barotze – Autor: Francisco Gaspar (Mais uma árdua disputa de Portugal, no século XIX, para aumentar a sueste o território angolano, numa região que compreende hoje uma província da Zâmbia, Barotseland).




10 – Fronteira Leste - Raia d’África – Autor: José Carvalheira (Sobre a definição das fronteiras angolanas a leste, com mil e uma peripécias históricas e a acção relevante de Gago Coutinho, entre outros).

11 – Organização Social dos Cuanhamas – Autor: J. Lino da Silva (já falecido), com adaptação de José Bento Duarte para este livro (Sobre o habitat, a organização e a vida do povo Cuanhama, antigamente a mais poderosa tribo do grupo étnico dos Ambós).

12 – Mandume – Autor: José Bento Duarte (Vida e morte de Mandume, último rei independente dos Cuanhamas, no Sul de Angola, que o general português Pereira de Eça teve de enfrentar em terríveis combates no ano de 1915. Acabaria morto pelos Sul-Africanos em 1917 e é hoje um herói venerado pelo povo angolano).




13 – Área Transfronteiriça Okavango-Zambeze – Autora: Amélia Cazalma (Minuciosa descrição de um importante projecto sócio-económico, actualmente em curso, que integra cinco países da região – Angola, Botswana, Namíbia, Zâmbia e Zimbabwe).

14 – Raids 1, 2, 3, 4, 5, 6 – Autor: Manuel Larangeira (Análise da importância deste e dos cinco raids anteriores para o turismo de Angola).

15 – A Finalizar – Autor: Miguel Anacoreta Correia (O coordenador do livro faz o encerramento do mesmo – e sintetiza: “estamos a contribuir para o amor a Angola, porque só se ama o que se conhece”)



Nota Final  – A obra abre com as mensagens do Governador da Província do Kwanza-Sul (Serafim Maria do Prado) e da Presidente da Câmara Municipal de Almada (Maria Emília Neto de Sousa).

É enriquecida por alguns poemas, da autoria de:

Carlos Aniceto Vieira Dias ( poema Muxima);
Luandino Vieira (Estrada);
Namibiano Ferreira (Saudação Matinal).



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quarta-feira, 9 de maio de 2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Infância

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Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho, menino entre mangueiras
lia história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.
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No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da sanzala - e nunca se esqueceu
chamava para o café,
café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
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Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... não acorde o menino,
para o berço onde pousou um mosquito
e dava um suspiro... que fundo!
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Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
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(Carlos Drummond de Andrade)
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terça-feira, 6 de março de 2012

Chamam-lhe Democracia...

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“Estamos a viver um golpe de Estado à escala europeia.
Não é apenas o assalto aos dinheiros públicos e o ataque aos direitos sociais.
A democracia representativa transformou-se numa encenação sem qualquer valor real.
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Vários Estados europeus são governados por burocratas sem legitimidade democrática e ao sabor dos humores de um único governo.
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Nos países em crise os governos impõem a austeridade de forma expedita e a violência é, para quem se manifesta e para quem reprime, a única forma de diálogo que sobra.
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A liberdade de imprensa é desprezada sem que ninguém se incomode.
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Não é apenas meio século de bem-estar e paz social que está em causa.
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É a democracia.
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Os irresponsáveis que governam este continente em desagregação têm de voltar aos livros para aprenderem com os anos 30.
As sementes de violência e da intolerância já estão lançadas.
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Agora é esperar que floresçam candidatos a tiranetes que prometam aos povos mão firme, o resgate da sua independência e o fim da miséria e do caos.” (*)
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(*) Daniel Oliveira - “Sementes de Violência” – Expresso, Lisboa, 25-Fev-2012.
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