sábado, 16 de abril de 2011

Aos que não voltam

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"A que se reduz afinal a vida? A um momento de ternura e mais nada...
De tudo o que se passou comigo só conservo a memória intacta de dois ou três rápidos minutos. Esses, sim! Teimam, reluzem lá no fundo e inebriam-me, como um pouco de água fria embacia o copo.
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Só de pequeno retenho impressões tão nítidas como na primeira hora: ouço hoje como ontem os passos de meu pai quando chegava a casa; vejo sempre diante dos meus olhos a mancha azul-ferrete das hidrângeas que enchiam o canteiro da parede. O resto esvai-se como fumo.
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Até as figuras dos mortos, por mais esforços que eu faça, cada vez se afastam mais de mim… Algumas sensações, ternura, cor, e pouco mais. Tinta. Pequenas coisas frívolas, o calor do ninho, e sempre dois traços na retina, o cabedelo de oiro, a outra banda verde…
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Passou depois por mim o tropel da vida e da morte, assisti a muitos factos históricos, e essas impressões vão-se desvanecidas. Ao contrário, este facto trivial ainda hoje o recordo com a mesma vibração: a morte daquela laranjeira que, de velha e tonta, deu flor no inverno em que secou.
O resto usa-se hora a hora e todos os dias se apaga.
Todos os dias morre.
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Lá está a velha casa abandonada, e as árvores que minha mãe, por sua mão, dispôs: a bica deita a mesma água indiferente, o mesmo barco arcaico sobe o rio, guiado à espadela pelo mesmo homem do Douro, de pé sobre a gaiola de pinheiro.
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Só os mortos não voltam.
Dava tudo no mundo para os tornar a ver, e não há lágrimas no mundo que os façam ressuscitar." (*)
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(*) - Raul Brandão - Portugal (1867-1930).
Memórias - 1.º vol. - Editado por "Renascença Portuguesa," Porto, 1919
(Prefácio, pág. 10-12 ).
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