sábado, 19 de fevereiro de 2011

Homens e mulheres na corte do rei D. João V de Portugal (1707-1750)

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"D. João V, esse rapazola «un peu fou», como dizia Mathieu Marais no seu Journal, trouxe à corte sorna e beata do princípio do século XVIII uma verdadeira convulsão.
Revolucionou tudo, transformou tudo.
Com o avô D. João IV, o paço fora uma capela; com o tio Afonso VI, uma cavalariça; com o pai Pedro II, um mosteiro.
D. João V sacudiu dos seus manguitos de renda toda a poeira do passado — e acabou com o mosteiro, com a cavalariça e com a capela.
Pois quê? Os seus vinte anos haviam de deixar-se abafar naquela corte sem mocidade e sem mulheres, por cujos corredores soturnos, em silêncio, não passavam senão velhos e frades?
Não.
O sonho de Versailles, que ele nunca vira, deslumbrava-o, acenava-lhe de longe.
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Uma corte não podia ser uma sacristia, nem um picadeiro, nem um claustro.
Uma corte como ele a entendia, como ele a sentia — ele, afilhado do Rei-Sol — devia ser alguma coisa de vivaz, de brilhante, de luminoso, de magnífico, um gineceu doirado por onde o galo real passeasse, rufiando a asa e encrespando a crista, com a Jarreteira no joelho, a impertinência no olhar e o Tosão de Oiro ao pescoço.
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No Paço da Ribeira só havia salas bafientas, escuras, monásticas, com tectos de tumba e chão de tijolo? Que importava! Faziam-se outras.
As mulheres fechavam-se, embiocavam-se, aferrolhavam-se à mourisca nas suas câmaras, com medo de que os homens as comessem?
Pois bem: o rei era ele, a moda era ele.
Haviam de vir dançar com os homens, falar com os homens, conviver com os homens — fazer cintilar, naquela Versailles saloia do Arco dos Pregos, à luz de quinhentas velas acesas, a sua nobreza e a sua graça, a sua mocidade e as suas jóias.
Iam murmurar os Catões do Paço?
Que importavam os Catões velhos à juventude insolente de D. João V!
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Mariana de Áustria chegou, com os seus jesuítas, os seus cães, a sua fealdade, os seus cravos holandeses. O rei casou-se.
E da sombra do velho Paço do século XVII, da capela de D. João IV, da cavalariça de Afonso VI, do mosteiro de Pedro II, jorrando luz, faúlhando talhas, sacudindo polvilhos, revoando pinturas, enchendo, dum topo a outro, a nova Sala dos Embaixadores, entre leques e espadins, púrpuras de cardeal e casacas de seda, cabeleiras de França e músicos de Itália, acanhada ainda, hesitante ainda, tonta de liberdade e de claridade — a corte de D. João V surgiu.
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Sem luta?
Não.
Não se afastam séculos de tradição, ligeiramente, com o tacão vermelho dum sapato.
O «Portugal novo» aplaudiu; mas o «Portugal velho», tudo quanto havia de anacrónico, de conservador na nobreza palatina, não duvidou protestar, respeitosamente embora, contra hábitos estrangeiros de licença e de escândalo que vinham perturbar a serenidade patriarcal da corte portuguesa.
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Formaram-se dois partidos: o da «moda nova», capitaneado pelo conde da Ericeira, D. Francisco, homem elegante, desempoeirado, jovial; e o da «moda velha», pelo conde de Vimioso, espécie de duque de Saint-Simon, azedo e formalista, taciturno e devoto, para quem o lar era um mosteiro, a virtude uma clausura, e uma mulher — o diabo.
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O primeiro tinha por si o rei.
O segundo tinha por si a tradição.
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«Fui ao Paço (conta o desembargador Brochado para Londres, em carta ao conde de Viana) a perturbar com a minha beca a alegria de tão espaçosas salas, onde me dizem que há grandes disputas entre os cavalheiros para a constituição da nova corte; porque uns querem que as senhoras se deixem ver e venham conversar com eles nas antecâmaras; que joguem e bailem sem distinção de sexo e de idade; outros, pelo contrário, pregam retiro, silêncio e recato, e detestam o comércio de damas e cavalheiros».
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Não era fácil encontrar uma fórmula de conciliação entre a observância da Cartuxa e as festas do Grand Trianon.
Venceu quem tinha de vencer: o partido da «moda nova», o partido do conde da Ericeira — o partido do rei.
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No dia 4 de Novembro de 1708, dia de S. Carlos, as salas dos Tudescos, dos Embaixadores, dos Leões, abriram-se, inundaram-se de luz, armaram-se de panos de Arras; damas acanhadas, deslumbradas, salpicadas de jóias, entraram aos bandos, tímidas, escorregando, escondendo-se, encostando-se umas às outras como ovelhas medrosas;
pela primeira vez, desde os bons tempos de D. Manuel, homens e mulheres encontraram-se, conheceram-se, cortejaram-se nas salas do Paço; a rainha tocou cravo; a infanta D. Francisca, muito gorda, muito corada, muito empoada, dançou;
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os moralistas de bioco do Portugal velho cuidaram que se tinha acabado o mundo e a vergonha — e Luís Manuel da Câmara, alarmado, apreensivo, contava para a Holanda, seis dias depois, em carta a D. Luís da Cunha: «houve um baile no dia de S. Carlos, em que dançaram e cantaram as damas do paço na presença de damas e fidalgos; el-Rei está teimoso em estrangeirar o nosso país, e não sei até onde chegará...»
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Desde esse dia produziu-se — era inevitável— uma profunda modificação nos costumes e na moral da corte.
A sedução nasceu.
A graça revelou-se.
Cultivou-se a elegância.
Balbuciou a intriga.
Surgiu o amor.
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A nobreza portuguesa do princípio do século XVIII, carrancuda e beata, sorna e patriarcal, que mandava casar as filhas sem elas saberem com quem, teve de contar, daí por diante, com um elemento novo.
A menina fidalga, a frança do Paço, requestada, galanteada, perseguida — pôde amar e escolher. Escolhendo — dignificou-se.
Dignificando-se — dominou.
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O motivo sentimental começou a intervir nos casamentos da corte.
As mulheres das grandes casas fidalgas continuavam a viver reclusas como cónegas, a sete chaves, de pernas encruzadas sobre a sua esteira?
D. João V trouxe-as ao Paço — e insensivelmente, inconscientemente, foi fazendo desse Paço uma escola de convivência e de galanteria, que as poliu, que as sociabilizou, que as libertou, que as revelou a si mesmas, que as educou na arte subtil de conversar, de perturbar, de seduzir.
É por isso que, a partir D. João V, o culto da mulher ganha em interesse, em curiosidade, em volúpia." (*)
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(*) Fonte - Júlio Dantas - O Amor em Portugal no Século XVIII
Livraria Chardron de Lello&Irmão
Porto - Portugal (1916)
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