sábado, 15 de janeiro de 2011

A Invencível Armada Espanhola (1588)

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Em 1588, Filipe II (1527-1598) era rei de Espanha, de Nápoles, da Sicília e dos Países Baixos. E, também, de Portugal, país que a Espanha dominou no período compreendido entre 1580 e 1640, como consequência do desastre militar lusitano em Alcácer Quibir, Norte de África, em 1578 (ver, neste blogue, 16-Dezembro-2007).
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Nesse ano de 1588, Felipe II estava à beira de tornar o seu reino o maior império de que havia memória. Do seu lado tinha um poder absoluto, uma ideologia de pendor universal (o catolicismo militante da época, com propósitos de expansão da fé contra a heresia protestante), um exército e marinha temíveis e aliados poderosos como a Santa Liga e o Papa Sisto V.
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Como pretextos de acção imediata, Filipe II invocava os ataques dos corsários ingleses aos seus navios e portos e o suplício da rainha católica Maria Stuart, da Escócia, que fora mandada executar por sua prima, a rainha Isabel I da Inglaterra (1533-1603).

No caminho expansionista dos Espanhóis atravessava-se precisamente esta Inglaterra de Isabel I, a grande campeã herética contra o mundo católico, que constituía também uma ameaça devido ao desenvolvimento agressivo do seu comércio e aos ataques constantes às possessões ultramarinas da Espanha e de Portugal.

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Grandes forças terrestres, sob o comando do general espanhol Alexandre Farnésio, duque de Parma, preparavam-se nos Países Baixos para invadir a Inglaterra, logo que fosse eliminado o domínio inglês no canal da Mancha.
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Para isso, Filipe II encarregou o seu mais famoso almirante, Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz, de organizar uma armada capaz de derrotar a inglesa. O marquês iniciou os preparativos, mas morreria em Fevereiro de 1588, pelo que o rei de Espanha tratou de nomear novo almirante, desta vez Alonso Pérez de Guzmán, duque de Medina Sidónia.
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Em carta ao rei, o duque de Medina Sidónia alertou para a sua completa ignorância das coisas do mar e para a sua inexperiência em assuntos de guerra. Mas o projecto foi avante. E assim se reuniram no rio Tejo, em Lisboa (Portugal), cerca de 200 velas e um exército de 20 000 homens – a mais grandiosa esquadra da Idade Moderna, considerada “invencível” pelo rei espanhol, e que, por tal motivo, ficaria conhecida nas páginas de história pela designação de La Grande y Felicísima Armada, ou Armada Invencible ou, ainda, Armada Española.
Eram portugueses muitos dos navios, tal como uma parte considerável das tripulações.

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No dia 9 de Maio de 1588, a Invencível largou de Belém para a barra, que só conseguiu ultrapassar a 28. A 19 de de Junho arribava à Corunha (Galiza, Norte de Espanha), apresentando-se dispersa, com água aberta nalguns navios, provisões apodrecidas e infestada de doenças.
Novas cartas então dirigidas a Filipe II só tiveram por resposta a ordem de apressar a partida, que se deu a 21 de Julho, chegando a Invencível à costa sudoeste de Inglaterra no dia 29.
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Entre as suas instruções minuciosas, Filipe II chamava a atenção para a superioridade dos navios ingleses – mais apefeiçoados em casco e armação e dotados de muito maior velocidade de marcha e de manobra; dispunham ainda de peças de artilharia superiores em número e em alcance de tiro. Por isso, dizia o rei, eles deveriam ser atacados por barlavento e a pequena distância.
Como é que isso se poderia fazer é que ele não explicava.
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De 29 de Julho a 6 de Agosto de 1588, a Armada Invencible seguiu de perto a costa inglesa (ver mapa). Embora revelasse uma precisão de manobra impressionante, para além de elevada disciplina e invulnerabilidade da sua formação em crescente, não conseguiu jamais forçar os Ingleses a uma batalha generalizada, nem, muito menos, obrigá-los ao combate próximo ou a manobras de abordagem.
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Os Ingleses, por seu turno, verificando que não conseguiam dispersar a temível formação em crescente, passaram a fustigar de longe com a sua artilharia, quase impunemente, os navios inimigos, obrigando a que estes, nas suas tentativas de resposta, fossem gastando inutilmente a maioria das 123 790 balas de canhão com que tinham sido abastecidos.
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No dia 6 de Agosto, a Invencible, às portas do perigoso mar do Norte, com necessidade inadiável de reabastecimentos, fundeou em frente do porto de Calais. O ânimo das tripulações era péssimo e o optimismo inicial desaparecera por completo.
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Nessa mesma noite, os Ingleses lançaram um ataque com navios incendiários, o que fez dispersar a Armada pela primeira vez.
A perseguição que logo se seguiu, e à qual os navios da Invencible mal podiam ripostar, causou as primeiras perdas sensíveis.
No dia 8 de Agosto os navios lograram voltar à formação, mas, apesar dos sacrifícios heróicos de alguns deles para forçarem as abordagens com os inimigos, só restaram como alternativas a fuga ou o aniquilamento total.
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Uma mudança de vento providencial ainda salvou a Invencible dos baixios de Dunquerque.
Medina Sidónia deu então ordem para que os navios regressassem a Espanha, contornando a Escócia e a Irlanda (cf. mapa).
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Foi uma viagem de pesadelo, em que a sede, a fome, o esgotamento, as doenças, o mau estado dos navios e violentas tempestades desfalcaram brutalmente a Armada. Mesmo assim, ainda se salvaram alguns navios (há divergências sobre o seu número, havendo autores que apontam para 53 embarcações regressadas a Espanha).
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Isabel I de Inglaterra recebe as suas tropas em Tilbury
 Convém rectificar algumas lendas  e inexactidões formadas desde então, especialmente no tocante à propalada inépcia do duque de Medina Sidónia, que comandou a Invencible. Hoje, já se lhe vai fazendo justiça e não terá sido ele o maior culpado do desastre.
Face às instruções que levava e às circunstâncias com que deparou, poucas decisões suas representam erros incontestáveis.
Mostrou-se modesto, sensato, corajoso, empenhado numa tarefa provavelmente irrealizável com os meios de que dispôs. Erros semelhantes aos seus foram cometidos pelas chefias inglesas, só que estas tiveram por si a vitória.
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Filipe II de Espanha recebe a notícia do desastre de La Invencible Armada
Consumado o desastre espanhol e o triunfo inglês, ambas as partes invocaram, à sua maneira, a intervenção divina.
Os católicos espanhóis lamentaram-se: “Não foram os homens que nos venceram, foi Deus!”.
Os protestantes ingleses, por sua vez, vangloriaram-se: A nossa causa é justa, Deus está connosco!
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De qualquer modo, a ambição de Filipe II saldou-se num rude golpe para o seu prestígio, ao passo que a Inglaterra viu aumentar a sua importância como potência marítima, abrindo-se-lhe mares antes vedados e podendo atacar de futuro, com diferentes perspectivas de êxito, os domínios ultramarinos espanhóis e portugueses.
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Quanto a Portugal, particularmente, faltando ainda 52 anos para recuperar a sua independência, o que aconteceu constituiu um gravíssimo desaire. Como se disse, muitos dos navios da Invencible eram portugueses, como o eram também centenas de marinheiros e soldados. O País sofreu as consequências de uma catástrofe que não havia provocado.
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Adaptado de:
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Rodrigo Machado – Armada Invencível – Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura – Vol. 2 - Editorial Verbo – Lisboa – Portugal.
Joaquim Veríssimo Serrão – Armada Invencível – Dicionário de História de Portugal – Vol. 1 – Livraria Figueirinhas – Porto – Portugal.
Antonio Ballesteros Beretta – Sintesis de Historia de España – Salvat Editores – Barcelona-Madrid – Espanha – 1952.
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