sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Parábola das Tristes Décadas (Baptista-Bastos)

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Há trinta e cinco anos que vocês nos manipulam,
nos dominam, nos mentem, nos omitem, nos desprezam.
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Há trinta e cinco anos que nos roubam,
não só os bens imediatos de que carecemos,
como a esperança que alimenta as almas
e favorece os sonhos.
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Há trinta e cinco anos que cometem o pior dos pecados,
aquele que consiste na imolação da nossa vida
em favor da vossa gordura.
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Há trinta e cinco anos que traem a Deus e aos homens,
sem que a vossa boca se encha da lama da mentira.
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Há trinta e cinco anos que criam legiões e legiões
de desempregados,
de desesperados,
de açoitados pelo azorrague da vossa indignidade.
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Há trinta e cinco anos que tripudiam
sobre o que de mais sagrado existe em nós.
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Há trinta e cinco anos que embalam as dores
de duas gerações de jovens,
e atiram-nos para as drogas, para o álcool,
para uma existência sem rumo, sem direcção e sem sentido.
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Há trinta e cinco anos que caminham,
altaneiros e desprezíveis,
pelo lado oposto ao das coisas justas.
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Há trinta e cinco anos que são desonrados,
torpes, vergonhosos e impróprios.
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Há trinta e cinco anos que, nas vossas luras e covis,
se acoitam os mais indecentes dos canalhas.
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Há trinta e cinco anos que se alternam no mando,
e o mando é a distribuição de benesses,
prebendas, privilégios
entre vocês.
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Há trinta e cinco anos que fazem subir as escarpas
da miséria e da fome
milhões de pessoas que em vocês melancolicamente
continuam a acreditar.
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Há trinta e cinco anos que se protegem uns aos outros,
que se não incriminam, que se resguardam,
que se enriquecem,
que não permitem que uns e outros sejam presos
por crimes inomináveis.
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Há trinta e cinco anos que vocês são sempre os mesmos,
embora com rostos diferentes.
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Há trinta e cinco anos que os mesmos jornais,
sendo outros,
e os mesmos jornalistas de outra configuração,
sendo a mesma,
disfarçam as vossas infâmias,
ocultam as vossas ignomínias,
dissimulam a dimensão imensa dos vossos crimes.
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Há trinta e cinco anos
sem vergonha,
sem pudor,
sem escrúpulo
e sem remorso.
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Há trinta e cinco anos que não estão dispostos
a defender coisa alguma
que concilie o respeito mútuo com a dimensão colectiva.
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Há trinta e cinco anos que praticam o desacato moral
contra a grandeza da justiça e a elevação do humano.
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Há trinta e cinco anos que, com minúcia e zelo,
construíram um país só para vocês.
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Há trinta e cinco anos que moldaram a exclusão social,
que esculpiram as várias faces da miséria e, agora,
sem recato e sem pejo,
um de vocês faz o discurso da indignação.
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Há trinta e cinco anos começaram a edificar o medo,
e o medo está em todo o lado:
nas oficinas, nos escritórios,
nos entreolhares, nas frases murmuradas,
na cidade, na rua.
O medo está vigilante.
E está aqui mesmo, ao nosso lado.
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Há trinta e cinco anos encenaram e negociaram,
conforme a situação,
o modo de criar novas submissões
e impor o registo das variantes que vos interessavam.
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Há trinta e cinco anos engendraram,
sobre as nossas esperanças confusas,
uma outra história natural da pulhice.
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Há trinta e cinco anos que traíram os testamentos legados,
que traíram os vossos mortos,
que traíram os vossos mártires.
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Há trinta e cinco anos que asfixiam
o pensamento construtivo;
que liquidaram as referências norteadoras;
que escarneceram da nossa pessoal identidade;
que a vossa ascensão não corresponde ao vosso mérito;
que ignoram a conciliação entre semelhança e diferença;
que condenam a norma imperativa do equilíbrio social.
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Riam-se, riam-se.
Vocês são uma gente que não presta para nada;
que não vale nada.
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Malditos sejam!
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Baptista-Bastos
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(Jornal de Negócios - Lisboa - Portugal - 23-Dez-2010)
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