sábado, 2 de outubro de 2010

Sakineh Ashtiani - Um Rosto nas Trevas

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"Sabíamos que iam matá-la.
Quando o Irão anunciou que tinha suspendido a lapidação, a prémio Nobel Shirin Ebadi disse: «Não confio. Matá-la-ão». E o regime assim o confirmou: não haverá lapidação, “só” enforcamento.
Tendo em conta que Sakineh Ashtiani havia pedido que não a lapidassem diante dos seus filhos, a sentença é um “avanço”. Evidentemente o regime armou todo um corpo legal para considerá-la culpada, mas a crónica da sua tragédia dá-nos a medida da tortuosa perversidade desta tirania.
Sakineh é uma azeri do Azerbaijão iraniano que quase não fala persa. Quando a sentenciaram à morte, nem sequer entendeu a palavra árabe utilizada no código penal iraniano para lapidação: rajam. Foram os seus carcereiros que lhe disseram que havia sido condenada a morrer apedrejada.
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Durante todo o processo o seu advogado foi perseguido, impedido de estar com Sakineh e, finalmente, depois de ameaças à sua família, fugiu do Irão. Cinco horas a pé pelas montanhas e o resto a cavalo, até chegar à Turquia, onde a Amnistia Internacional o ajudou a conseguir asilo na Noruega. Numa entrevista a Bernard-Henry Lévy, Mohammad Mostafaei, o advogado, definiu assim Sakineh: «Uma mulher simples».
O tribunal que a condenou à morte não encontrou uma única prova, mas, dos cinco juízes, três eram clérigos radicais que a condenaram baseados na sua “íntima convicção” de que era uma adúltera.
Como disse a própria Sakineh: «Matar-me-ão por ser mulher num país que acredita que pode fazer o que quiser com as mulheres».
Depois da campanha internacional para salvar-lhe a vida, o regime armou outra acusação contra ela, obrigou-a a auto-inculpar-se de homicídio e o resto é conhecido. A forca será o seu destino.
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Na prisão de Tabriz, duas outras mulheres esperam ser lapidadas. Azar Bagheri tem 24 anos e há 10 que está na prisão. Casada com 14, acusaram-na de adultério e desde então espera ser lapidada. Para se divertirem, os seus carcereiros fizeram-lhe dois simulacros de apedrejamento.
Maryam Ghorbanzadeh, de 25 anos, apenas deseja que a enforquem em lugar de lapidá-la. Estava grávida e forçaram-na a abortar aos seis meses.
No Irão as mulheres são consideradas sexualmente maduras a partir dos 9 anos, a idade com que podem casar-se e ser adúlteras. Ninguém sabe quantas foram lapidadas sem que o facto se tenha tornado público. A dissidência iraniana fala de muitas.
Sei que este meu desabafo não tem nenhum efeito: é só um grito. Mas ao menos serve para recordar que nem todos somos cúmplices do silêncio no qual o Irão ampara os seus crimes."  (*)
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(*) - Rui Herbon – Grito por uma Mulher – em “Jugular” (1-Outubro-2010)
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