sábado, 4 de setembro de 2010

Ano de 1580 - Filipe de Espanha e de Portugal - Patriotismos e Honras de Ontem e de Hoje

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Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal)
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Filipe II de Espanha, filho do imperador Carlos V e da portuguesa D. Isabel, tornou-se no ano de 1580 rei de Portugal (onde ficou registado como Filipe I).
Tal sucedeu dois anos depois do trágico fim, sem herdeiros directos, do rei português D. Sebastião, em Marrocos, no campo de batalha de Alcácer-Quibir [se quiser relembrar, veja este mesmo blogue em 16-Dez-2007]
Este domínio de Portugal por parte da Espanha prolongar-se-ia por sessenta anos, tendo terminado, por obra de uma revolta independentista, em 1640.
.O que sucedeu no tempo de Filipe II poderia muito bem ter acontecido nas décadas anteriores.
A verdade é que a política matrimonial de ambas as casas reinantes (a de Portugal e a de Espanha) apontava claramente para um desfecho semelhante a este. Não foi certamente por acaso que ao longo de gerações se misturaram por casamento os régios parentes de um e do outro lado da fronteira.
Pelo contrário, tudo foi sempre pesado, medido, projectado com esse fim, que ninguém sabia quando poderia ocorrer.
Foi apenas uma questão de tempo…
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Rei D. Sebastião de Portugal - Morto em Alcácer-Quibir (1578)
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Reis portugueses como D. Afonso V, D. João II, D. Manuel I, prosseguiram pacientemente o objectivo da junção ibérica.
Tal como ocorria do outro lado da fronteira, com os Reis Católicos (Isabel e Fernando), Carlos V, Filipe II…
O que mais parecia preocupar qualquer uma das casas reinantes era que a união se desse sob a sua égide, isto é, que a mesma se produzisse com preponderância da sua estirpe.
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Por exemplo, quando D. Afonso V invadiu Castela em 1475-1476, a sua intenção (que se desfez na batalha de Toro) era apenas e só a de se tornar rei simultâneo de Portugal e de Castela. Invocava, para isso, direitos de sucessão decorrentes dos vínculos familiares que mantinha com a monarquia vizinha.
Da mesma forma que veio a ocorrer, em 1580, com Filipe II, juridicamente reconhecido como sucessor legítimo dos últimos reis lusitanos.
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Embora se trate de outros contos, bastante mais largos, a verdade é que a vontade popular parece não ter correspondido, nem nesta nem em outras ocasiões, àquilo que pensavam, planeavam e praticavam os seus maiores.
O que nos conduz à interessante conclusão de que a ideia de “pátria”, quando finalmente se foi definindo e instalando com o correr dos tempos, teve sobretudo uma raiz popular.
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A rejeição do “outro”, isto é, daquele que está para lá da fronteira e que cobiça “o que é nosso”, foi sempre mais genuína – até na violência das suas manifestações – entre as classes mais desprovidas de recursos.
Os primeiros e mais sólidos “patriotas” portugueses (numa altura em que “pátria” era ainda um vocábulo estranho, distante do sentido que hoje lhe damos) foram, essencialmente, “patriotas pelo coração e pelo instinto”.
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A ideia de “pátria portuguesa” – um sentimento difuso de pertença a um pedaço de terra e a uma comunidade cultural, afectiva e de interesses não confundível com nenhuma outra – germinou e desenvolveu-se, há séculos, nos mais modestos e deserdados de todos nós…
É certo que em ocasiões cruciais, como nos tempos da revolução de 1383-1385, marcados por invasões castelhanas, as multidões populares tiveram do seu lado, ou ao comando dos seus movimentos, alguns notáveis fidalgos portugueses.
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Mas estes não passavam de gente de segunda linha. Eram por regra filhos bastardos de reis ou de grandes senhores (o mestre de Avis, Nuno Álvares Pereira…), com futuros muito problemáticos pela frente se a ordem natural das coisas se cumprisse.
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Quando Juan I de Castela invadiu Portugal e se apresentou em Aljubarrota disposto a esmagar a resistência lusitana (Agosto de 1385), quem vinha com ele, marchando altivamente ao lado dos grandes de Espanha, eram ... os maiores fidalgos de Portugal.
Os outros, os pequenos fidalgos de futuro incerto, estavam do outro lado. Com o povo.
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É a propósito disto que António José Saraiva, grande pensador português (1917-1993), escreveu em “As Crónicas de Fernão Lopes”:
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"A ideia de defender uma terra porque é a terra pátria, onde a pessoa nasceu, se criou e trabalha e há-de ser enterrada junto dos ossos dos pais e dos filhos, era coisa que não passava pela cabeça de um fidalgo.
A verdadeira terra do fidalgo era a casa do seu senhor, onde quer que ele estivesse, em Portugal, Castela, França ou Aragança."
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.Para esses grandes nobres lusitanos, que com Juan I cavalgavam para uma derrota esmagadora, o seu senhor era o rei castelhano, não era Portugal…
.São lembranças que a História nos transmite e que convirá porventura ter presentes nos tempos conturbados que se vão vivendo.
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Nestes tempos em que, segundo alguns bem pensantes e bem colocados (os fidalgos modernos?) "tudo tem um preço … menos a honra".
.O que será, para eles, a honra?
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