sábado, 21 de agosto de 2010

O Terramoto de Lisboa (1755) e o Marquês de Pombal

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De repente deu-se uma catástrofe que esmagou o reino e, acidentalmente, firmou o poderio do marquês de Pombal por vinte e dois anos.
Foi essa catástrofe o grande terramoto de Lisboa em 1755.
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Na límpida manhã de 1 de Novembro, quando todas as igrejas se encontravam cheias devido à festa de Todos-os-Santos, sentiu-se um forte abalo no subsolo da cidade.
Esse primeiro abalo durou seis minutos e consistiu numa série de violentas vibrações.
Ao mesmo tempo, relata um inglês, testemunha ocular, ouviu-se um barulho subterrâneo, estranho e horroroso, semelhante ao ribombar, cavo e longínquo, do trovão.
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A seguir mudou a natureza do abalo, sendo as casas sacudidas de um lado para o outro com um movimento análogo ao de uma carroça arrastada com violência por cima de pedras irregulares.
Um capitão de navios, cuja embarcação se encontrava ancorada no Tejo, disse ter visto a cidade a andar para trás e para diante, como uma seara a ondular com o vento.
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As igrejas desabaram em cima dos fiéis. Padres houve que ficaram debaixo dos destroços dos altares. Fidalgos foram esmagados dentro das suas carruagens. Ruas inteiras ficaram arruinadas. O céu obscureceu-se com as enormes nuvens de pó e de cal que subiam das ruínas.
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Houve, então, um intervalo de cinco minutos, durante o qual os sobreviventes, tomados de pânico, correram pelas ruas, muitos caindo de joelhos, levantando para o céu imagens sagradas.
A este intervalo seguiu-se outro sacão, muito mais violento do que o primeiro. Durou três minutos e foi acompanhado por uma sucessão de gigantescas ondas do Tejo, que inundaram as ruas da parte baixa. Todos os grandes edifícios que tinham resistido ao primeiro abalo, mas que por ele haviam sido sacudidos, desabaram então, caindo sobre a multidão que enchia as vielas apertadas.
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Foi durante o segundo abalo que o novo cais de D. João, em frente do Paço, inteiramente construído de mármore e dispendiosíssimo, se subverteu por completo com toda a gente que lá se encontrava. Ao mesmo tempo, grande número de barcos e de pequenos navios ancorados ali perto, todos cheios de fugitivos, eram engolidos como por um turbilhão.
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Parece que a força do tremor de terra foi tão extraordinária sob o leito do rio como por baixo da própria cidade, atirando as âncoras dos navios acima da superfície da água. Em certa ocasião, o rio ergueu-se até quase vinte pés e a seguir desceu, deixando os navios em seco.
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Mais de duas terças partes de Lisboa caíram em ruínas. O magnífico palácio da Patriarcal, construído por D. João V, o arsenal, a livraria de D. João, com cinquenta mil volumes e manuscritos, o histórico Palácio Real e o Paço da Inquisição, a Bolsa do Trigo e a velha Casa da Índia, com os seus preciosíssimos relatos dos grandes navegadores, trinta mosteiros e vinte conventos – tudo ficou destruído.
Os palácios de quarenta e dois fidalgos ficaram reduzidos a escombros. Mas todas as classes sofreram. Igrejas, palácios, casas de negócio e choupanas eram agora montões de ruínas informes.
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Toda esta destruição levara apenas quinze minutos a consumar-se. No entanto, os horrores do 1.º de Novembro não tinham ainda acabado.
Quando começou a escurecer, viu-se a cidade a arder em mais de cem pontos diferentes. Como o dia de Todos-os-Santos era uma festa religiosa de grande importância, os altares das igrejas e capelas encontravam-se iluminados desde muito cedo com inumeráveis velas de cera, que lançaram o fogo às tapeçarias e às madeiras.
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O incêndio, ao alastrar, juntou-se ao fogo das fornalhas das cozinhas. É impossível chegar a qualquer resultado concreto quanto ao número de vítimas, por não haver nenhum censo da população exacto e a maior parte dos registos paroquiais se terem perdido. Os números avançados pelos historiadores contemporâneos vão até oitenta mil vítimas, mas é impossível saber ao certo.
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O incêndio durou três dias, e a capital caiu na mais completa anarquia. A maior parte dos sobreviventes fugiram aterrorizados para os montes vizinhos, acampando em cabanas e tendas, enquanto alguns elementos da população, juntamente com criminosos fugidos das prisões, correram a saquear as ruínas fumegantes e a roubar os cadáveres que se encontravam pelas ruas. Os mortos jaziam aos montes, especialmente à porta das igrejas, muitas delas também em ruínas.
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Em alguns lugares – escreveu um inglês, que arriscou a vida em busca de um amigo – havia coches com os donos, os cavalos e os cavaleiros quase feitos em bocados; aqui eram mães com os filhos nos braços; ali eram damas ricamente vestidas, padres, frades, cavalheiros, operários; uns com a espinha e as pernas partidas; outros com enormes pedras em cima do peito; outros ainda quase sepultados no meio do entulho…
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A praça fronteira à patriarcal encontrava-se cheia de coches, carros, cadeirinhas, cavalos e mulas, abandonados pelos boleeiros e pelos ajudantes.
Os nobres e o clero, que assistiam ao serviço divino quando começou o terramoto, fugiram com toda a precipitação, cada um deles para onde o pavor o levava. Isto, porém, não me impressionou tanto como o terror dos pobres animais, que pareciam ter a noção da sua triste sorte. Alguns tinham morrido, outros estavam feridos, mas a maioria, que havia ficado ilesa, ficou ali a morrer de fome.
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No meio da crise houve apenas um homem que não perdeu a cabeça.
Foi o marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, 1.º ministro do rei D. José, o político que governava o País com mão de ferro.
A sua casa fora poupada no meio da destruição geral. Saiu então na sua carruagem e correu ao palácio de Belém, onde a família real se achava reunida, presa do maior desespero.
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O rei estava irresoluto e desvairado, a Corte banhada em lágrimas. A cada passo chegavam notícias com pormenores do desastre ainda mais horríveis. Os gritos de dor misturavam-se com as invocações desesperadas aos santos.
No meio da confusão geral, anunciaram a chegada do marquês de Pombal, que logo se dirigiu à presença do rei. Conta-se que se terá então travado o seguinte diálogo:
- Que se há-de fazer? – perguntou o rei. Que se há-de fazer para aplacar este castigo da Justiça Divina?
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Pombal terá retorquido com o dito mais célebre que lhe é atribuído:
- Senhor! Enterrar os mortos e cuidar dos vivos!
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O rei, a partir de então, passou a olhar para Pombal com uma espécie de pasmo. A educação de D. José e as tradições próprias do ambiente haviam-lhe dado uma tendência para a superstição, que o fez considerar sinal particular da Divindade o facto de a casa de Pombal ter sido poupada pelo terramoto.
Desde esse momento, o rei viu nele um instrumento mandado pela Providência na hora da necessidade.
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O marquês de Pombal despediu-se do rei com autorização para tomar todas as medidas que entendesse. Dirigiu-se imediatamente para o centro da catástrofe, penetrando no meio das ruínas. Durante vários dias viveu na sua carruagem, redigindo éditos e ordens, despachando e recebendo correios, animando a população e exortando-a a trabalhar na obra de salvação.
Ao longo de cada dia apenas bebia uma tigela de caldo, que lhe era levada pela esposa, a qual tinha de abrir caminho até à sua carruagem por cima dos escombros das ruas.
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O 1.º ministro seleccionou três assuntos de urgência imediata: o restabelecimento da ordem, o fornecimento de géneros alimentícios e o enterro dos mortos.
Expediu ordens ao marquês de Abrantes, comandante supremo das tropas, para que mobilizasse todas as que pudesse.
Grupos de soldados foram mandados extinguir os incêndios, enquanto outros faziam guarda aos edifícios que se sabia conterem riquezas.
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Nomearam-se doze magistrados para os doze bairros da cidade, com ordens para reunirem todos os homens válidos, os quais deviam abrir caminho pelo meio dos escombros, retirando os cadáveres e salvando os feridos.
Tinham de arranjar também em cada bairro um lugar seguro, convenientemente guardado, para a recolha de objectos de valor; construir fornos e cozinhas; receber instruções do cardeal patriarca para sepultar os mortos de acordo com um plano a estabelecer.
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Os fugitivos da cidade arruinada tinham sido em número tal, que se tornava difícil arranjar quem trabalhasse. Os magistrados foram então autorizados a prender todos os desocupados a que pudessem lançar mão, obrigando-os a trabalhar acorrentados na limpeza das ruas.
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Convocando com rapidez as tropas da província, o marquês de Pombal mandou-as cercar a cidade a 6 de Novembro. Depois fê-las avançar concertadamente para o centro da mesma, prendendo todos os malfeitores e vagabundos que encontraram pelo caminho.
Quanto aos ladrões apanhados em flagrante, esses foram imediatamente enforcados.
Um decreto do mesmo dia determinava que as forcas se construíssem o mais altas possível para melhor servirem de exemplo…
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O Marquês de Pombal, 1.º ministro de Portugal, com Lisboa reconstruída a seus pés
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Estas foram somente algumas das muitas providências assumidas pelo 1.º ministro.
Os decretos que as estabeleciam saíam em nome do rei, mas eram ditados ou até escritos apenas pelo Marquês de Pombal.
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A palavra “génio” perdeu hoje muito do seu sentido. Mas a actividade quase sobre-humana demonstrada por Sebastião José na ocasião do terramoto pode justificar que se lhe chame “génio”, na verdadeira acepção da palavra.
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A sua acção durante a crise gravou-se para sempre no espírito dos seus compatriotas.
Depois do auge do desastre, começou a reconstrução da cidade. E ainda hoje, passados dois séculos e meio, a parte ribeirinha de Lisboa continua a exibir, na traça dos edifícios e no risco geométrico e desafogado das artérias, a marca forte do marquês de Pombal.
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Por isso se lhe chama a Baixa Pombalina - justíssima homenagem a um invulgar governante de Portugal…
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Adaptado de: Marcus Cheke - O Ditador de Portugal (Marquês de Pombal) - Livraria Civilização Editora – Porto – Portugal – 1946.
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