quinta-feira, 22 de julho de 2010

Destruição (Carlos Drummond de Andrade - Brasil)

.
.
Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto
não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são?
Dois inimigos.
.
Amantes
são meninos estragados
pelo mimo de amar:
e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo
volve a nada.
.
Nada.
Ninguém.
Amor, puro fantasma
que os passeia de leve,
assim a cobra se imprime
na lembrança de seu trilho.
.
E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir,
mas o existido
continua a doer
eternamente.
.

2 comentários:

marpaci disse...

Carlos, sempre Carlos. Sua grandeza enaltece a alma e purifica a mente. João que amava Maria que amava José...

Cavaleiro da Torre disse...

Sem dúvida, Marpaci, independentemente de saborearmos o genial Carlos aqui em Lisboa ou aí, em paragens paulistas. Isto apesar de sabermos que Joaquim amava Lili que não amava ninguém... Um abraço e volte sempre.