domingo, 4 de abril de 2010

Portugal Antigo Visto por Estrangeiros (Janeiro de 1730)

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"(...) Os portugueses, de uma maneira geral, são excessivamente vaidosos e vãos, gostando de ostentar magnificência. É frequente encontrarem-se simples artífices vestidos como grandes senhores. (…)
Mas não só na magnificência e no trajo se manifesta a sua vaidade; revela-se também na mania de passarem por sábios, embora, na realidade, sejam ignorantes completos.
Nunca tive notícia de um português que houvesse adquirido reputação pelo seu saber, desde há muito tempo para cá, pelo menos.
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Os eclesiásticos, os jurisconsultos, os médicos e muitos outros desejam aparentar de estudiosos.
Para produzir tal efeito usam todos, seja qual for a idade que tenham, um grande par de lunetas encavalitadas no nariz e que nunca tiram, quer vão a pé, a cavalo ou de coche, quer estejam à mesa ou em simples conversa.
Pretendem fazer crer que enfraqueceram a vista a estudar.
É esta uma mania divertida, para não dizer ridícula, porque é grande extravagância que um rapaz de vinte anos passeie gravemente pelas ruas, e até algumas vezes a cavalo, armado com um grande par de lunetas no nariz.
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Se os portugueses apenas tivessem os vícios de serem impostores e vaidosos seria agradável vê-los e conviver com eles, porque, na sua maioria, possuem espírito, ardor vivacidade. Mas são também extraordinariamente altivos, orgulhosos e arrogantes. Neste particular parecem-se com os espanhóis. (…)
Todos estes defeitos fazem com que os ingleses e os franceses aqui estabelecidos como comerciantes quase não convivam com os portugueses ou tenham pouco trato com eles, excepto no que se refere a negócios, e mesmo assim com cuidado, para não serem enganados.
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As portuguesas são bastante amáveis, espirituosas e muito vivas.
Não são tidas como ariscas, mas poucas ocasiões se lhes oferecem para o provarem, porque quer os pais quer os maridos ou mesmo os irmãos são invulgarmente zelosos, exercendo sobre elas uma fiscalização aturada. De casa só saem para ir à igreja ou para fazer visitas.
Tive ensejo de ver algumas que me pareceram muito bonitas. No geral, não são alvas como as inglesas, mas, pelo contrário, um pouco morenas.
Têm um ar picante que lhes vai a matar.
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Eis como se ataviam: desprezando os toucados, usam habitualmente os cabelos frisados aos lados e enfeitados com flores, travessões ou pedrarias.
Apartam o cabelo pela nuca em três, quatro ou cinco tranças, conforme lhes dá na fantasia, havendo algumas que as deixam caídas pelas costas e outras que as enrolam em carrapitos ou as metem em coifas de cordão de seda ou de veludo brocado de ouro ou de prata. Estas bolsas são bastante estreitas e compridas, pois chegam até à cintura.
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Quando em trajos menores usam as mulheres portuguesas uma saia, uma camisola ou colete muito justo no corpo e nas mangas, e sobre os ombros um mantelete ou xaile curto de seda, veludo ou tecido rico. Para a rua usam cobrir-se com uma capa comprida de pano preto, que vai da cabeça aos pés, de forma que apenas fica visível uma parte do rosto.
A rainha, as princesas e as damas da corte usam trajos à moda da corte de França, tão decotados no peito e nas costas que mostram totalmente os ombros e quase todo o colo.(…)
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Os portugueses são, em geral, muito devotos; melhor direi se os classificar de muito supersticiosos.
O seu zelo religioso revela-se no respeito extraordinário que manifestam pelos eclesiásticos e pelos frades. Quando encontram um frade no seu caminho, em vez de o cumprimentarem, como é costume para com pessoas de outra condição, beijam respeitosamente a manga direita do sujo e repugnante hábito, a qual o frade lhes oferece logo arrogantemente.
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O zelo dos portugueses pelos serviços divinos revela-se na pontualidade com que os frequentam, pela pompa e brilho com que os celebram e pela riqueza com que ornamentam as suas igrejas.
São particularmente devotos da Virgem Santa e dos Santos, e pode até afirmar-se que quase só a eles prestam culto. O do Deus verdadeiro não é aqui muito praticado.
Com frequência se encontram nas esquinas das ruas, ou ao longo delas, nichos com pequenas imagens ornamentadas com grande luxo. Diante deles numerosas pessoas de todas as classes e de ambos os sexos rendem culto manifestamente idólatra.
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Mais de uma vez vi eu senhoras distintas mandarem parar as suas carruagens, descerem e ajoelharem em adoração diante destas imagens.
Isto impressionou-me extremamente, porque julgava que em todos os países católicos se havia estabelecido o culto das imagens apenas no intuito de alimentar a devoção do povo e dos ignorantes.
Estou persuadido de que, pelo menos em França, as pessoas de uma certa categoria, aquelas que são suficientemente esclarecidas e se guiam pelas luzes da razão e do bom senso, não caem em idolatria tão grosseira. (…)"

Carta escrita em Lisboa, 28 de Janeiro de 1730 (*)
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(*) – Voyage de Monsieur César de Saussure en PortugalLettres de Lisbonne – Édité par le Vicomte de Faria – Milan, 1909.
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Nota – César de Saussure nasceu em Lausanne, Suíça, em 1705, e faleceu na mesma cidade em 1783.
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1 comentário:

Anónimo disse...

Retrato com certos traços de actualidade, embora já tenham passado quase três séculos sobre ele... A vigilância das mulheres decorreria da influência moura no território?