domingo, 25 de abril de 2010

"A Ilustre Casa de Ramires" (Eça de Queiroz) - O Encontro de José Casco com o Fidalgo da Torre

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NOTA PRÉVIA
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Neste famoso romance do português Eça de Queiroz, o jovem Gonçalo Mendes Ramires, Fidalgo da Torre, é o representante de uma velha e renomada nobreza.
Orgulhoso das glórias dos antepassados, que imagina personificar no presente, ele passa algum do seu tempo na biblioteca da mansão em que habita, na aldeia de Santa Ireneia, escrevendo uma novela épica sobre as remotas façanhas daqueles.
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Gonçalo, infelizmente, vive em permanentes aflições financeiras. Certa ocasião, visitado pelo lavrador José Casco dos Bravais, decide arrendar-lhe a Quinta da Torre por novecentos e cinquenta mil-réis anuais, compromisso solenemente celebrado com um aperto de mão e um farto copo de vinho.
Todavia, quando lhe aparece outro lavrador, o Pereira, a tentá-lo com mais cem mil-réis, Gonçalo – que é tão generoso como arrebatado e pusilânime – logo esquece o negócio fechado com o Casco para aceitar alvoroçadamente a nova oferta. E não pensa mais no assunto.
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Até que, decorrido um tempo, seguindo ele ligeiro e desprevenido por um atalho dos pinheirais, dá subitamente de caras com o lavrador enganado, o digno José Casco dos Bravais.
O relato desse memorável e inesperado encontro é apenas um dos exemplos da genialidade de Eça de Queiroz.
Confirmem a seguir.
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"(…) O Fidalgo da Torre chegara à esquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da mata.
Do portão nobre, que outrora se erguera nesse recanto com lavores e brasão de armas, restavam apenas os dois umbrais de granito, amarelados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancela de tábuas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos anos.
E nesse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregado de mato, um carro de bois, que uma linda boieirinha guiava.
— Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes!
— Boas-tardes, florzinha!
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O carro lento passou. E logo atrás surgiu um homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao ombro o cajado, de onde pendia um molho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravais. E seguia, como desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as silvas floridas do valado. O outro, porém, estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silêncio do arvoredo e da tarde, o nome do Fidalgo.
Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, forçando um sorriso afável:
— Olá! É você, José! Então que temos?
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O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no chão pela choupa:
— Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que depois me faltasse à palavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e custosa — como se levantasse uma maça de ferro:
— Que está você a dizer, Casco? Faltar à palavra! Em que lhe faltei eu à palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa é nova! Então houve por acaso escritura assinada entre nós? Você não voltou, não apareceu...
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O Casco emudecera, assombrado.
Depois, com uma cólera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos cabeludas, fincadas ao cabo do varapau:
— Se houvesse papel assinado, o Fidalgo não podia recuar!... Mas era como se houvesse, para gente de bem!... Até V. S.ª disse, quando eu aceitei: «viva! está tratado!...» O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, aparentou a paciência dum senhor benévolo:
— Escute, José Casco. Aqui não é lugar, na estrada. Se quer conversar comigo, apareça na Torre. Eu lá estou sempre, como você sabe, de manhã... Vá amanhã, não me incomoda.
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E endireitava para o pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha — quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou diante, atravessando o cajado:
— O Fidalgo há-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A mim não se me fazem dessas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!
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Gonçalo relanceou esgazeadamente em redor, na ânsia dum socorro.
Só o cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se adensava sombra e névoa.
Então, estarrecido, Gonçalo tentou um refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços ressequidos e trémulos:
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— Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a gritar. Pode haver desgosto, aparecer o regedor. Depois é o tribunal, e a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu motivo para se queixar, vá à Torre, conversamos. Pacatamente tudo se esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a enxovia...
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Então de repente o Casco cresceu todo, no solitário caminho, negro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quase sangrentos:
— Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!... Pois ainda por cima de me fazer a maroteira, me ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos! Primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...
Erguera o cajado... — Mas, num lampejo de razão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer para trás, através dos dentes cerrados:
— Fuja, Fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!
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Gonçalo Mendes Ramires correu à cancela entalada nos velhos umbrais de granito, pulou por sobre as tábuas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro, numa carreira furiosa de lebre acossada!
Ao fim da vinha, junto aos milheirais, uma figueira-brava, densa em folha, alastrara dentro dum espigueiro de granito destelhado e desusado.
Nesse esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando.
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O crepúsculo descera sobre os campos — e com ele uma serenidade em que adormeciam frondes e relvas.
Afoitado pelo silêncio, pelo sossego, Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a correr, num correr manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão mole das chuvadas, até ao muro da Mãe-d'água.
De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever, longe, à orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas de camisa, atirou um berro ansioso:
— «Oh! Ricardo! Oh! Manuel! Eh lá! alguém! Vai ai alguém?...»
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A mancha indecisa fundira na indecisa folhagem.
Uma rã pinchou num regueiro.
Estremecendo, Gonçalo retomou a carreira até ao canto do pomar — onde encontrou fechada uma porta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou contra ela os ombros, que o terror enrijara como trancas.
Duas tábuas cederam, ele furou através, esgaçando a quinzena num prego. E respirou enfim no agasalho do pomar murado, diante das varandas da casa abertas à frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra de mil anos, mais negra e como mais carregada de anos contra a macia claridade da Lua Nova que subia.
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Com o chapéu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, costeou o feijoal. E agora subitamente sentia uma cólera amarga pelo desamparo em que se encontrara, numa quinta tão povoada, enxameando de gentes e dependentes!
Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando ele gritara, tão aflito, da borda da Mãe-d'água!
De cinco criados, nenhum acudira, — e ele perdido, ali, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois homens corressem com paus ou enxadas — e ainda colhiam o Casco na estrada, o malhavam como uma espiga.
Ao pé do galinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou o pátio para a porta alumiada da cozinha.
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Dois moços da horta e a filha da Crispola, Rosa, tagarelavam, regaladamente sentados num banco de pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume estralejava — e a panela do caldo, fervendo, rescendia. Toda a cólera do Fidalgo rompeu:
— Então, que sarau é este? Vocês não me ouviram chamar?... Pois encontrei lá em baixo, ao pé do pinheiral, um bêbedo, que me não conheceu, veio para mim com uma foice!... Felizmente levava a bengala. E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que suceda, todos para a rua... E quem resmungar, a cacete!
A sua face chamejava, alta e valente. A pequena da Crispola logo se escapulira, encolhida, para o recanto da cozinha, para trás da masseira.
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Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento. E enquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentações sobre «desgraças que assim se armam!», Gonçalo, deleitado pela submissão dos dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos varapaus encostados à parede, amansava:
— Realmente! Sois todos surdos, nesta pobre casa!... Além disso a porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurrão. Ficou em pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com um queixo de cavalo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco cuidada, coçou a cabeça, numa desculpa:
— Pois, com perdão do Fidalgo!... Mas já depois da saída do Relho se lhe pôs uma travessa e fechadura nova... E valente!
— Qual fechadura! — gritou o Fidalgo soberbamente. — Despedacei a fechadura, despedacei a travessa... Tudo em estilhas!
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O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, para agradar:
— Santo nome de Deus!... Então, é que o Fidalgo lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando o queixo enorme:
— Mas que força! A matar! Que a porta era rija... E fechadura nova, já depois do Relho!
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A certeza da sua força, louvada por aqueles fortes, reconfortou inteiramente o Fidalgo da Torre, já brando, quase paternal:
— Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesmo nova, não me falta força. O que eu não podia, por decência, era arrastar aí por essas estradas um bêbedo com uma foice até casa do Regedor... Foi para isso que chamei, que gritei. Para que vocês o agarrassem, o levassem ao Regedor!... Bem, acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho... A ver se para a outra vez se afoitam, se aparecem...
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Era agora como um antigo senhor, um Ramires de outros séculos, justo e avisado, que repreende uma fraqueza dos seus solarengos — e logo perdoa, por conta e amor das façanhas próximas.
Depois, com a bengala ao ombro, como uma lança, subiu pela lôbrega escada da cozinha. E em cima, no quarto, apenas o Bento entrara para o vestir, recomeçou a sua epopeia, mais carregada, mais terrífica — assombrando o sensível homem, estacado rente da cómoda, sem mesmo pousar a infusa de água quente, as botas envernizadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam...
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O Casco! O José Casco dos Bravais, bêbedo, rompendo para ele, sem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar — «Morra, que é marrão!...»
E ele na estrada, diante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de pinheiro... Então arremete desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manuel, como se ambos o escoltassem — e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a cambalear, a grunhir...
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— Hem, que te parece? Se não é a minha audácia, o homem positivamente me ferra um tiro de espingarda!
O Bento, que quase se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou, confuso, mais atónito:
— Mas o sr. Doutor disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente:
— Correu para mim com uma foice. Mas vinha atrás do carro... E no carro trazia uma espingarda. O Casco é caçador, anda sempre de espingarda... Enfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E também porque, felizmente, nestes casos, não me falta decisão!
E apressou o Bento — porque, com o abalo, o esforço, positivamente lhe tremiam as pernas de cansaço e de fome... Além da sede!
— Sobretudo sede! Esse vinho que venha bem fresco... Do verde e do alvarelhão, para misturar. (…)”
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A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz - Portugal (1845-1900)
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