domingo, 28 de março de 2010

Eça de Queiroz e a Revolta na Índia Portuguesa (1871)

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História Pitoresca da Revolta da Índia (Setembro – 1871)
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"Andávamos inteiramente esquecidos da Índia!
Uma clara manhã, ela aparece violentamente no meio de nós, envolta num telegrama do sr. Visconde de S. Januário.
Por essa ocasião, muito bom português se admirou que a Índia ainda fosse nossa!
Ela tinha saído, havia muito, das pompas solenes dos artigos de fundo.
Ela quase não aparecia nos orçamentos.
Obscura, velha, arruinada, estéril, dobrada sobre si mesma, comia, nas brumas distantes, o seu arroz!
A sua reaparição surpreendeu!
A notícia de que ela ainda tinha vitalidade bastante para se revoltar – espantou!
A certeza de que ainda ali havia soldados, cidadãos, fortes, interesses e telégrafos – sobressaltou!
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Uma vez que a gloriosa Índia ainda existia, era necessário que existisse o correspondente “brio patriótico”: sacudiu-se o velho “brio patriótico” do pó e da caliça – e cada um vestiu o “velho brio patriótico”.
Começou então o movimento.
A Baixa (de Lisboa) teve os seus alvitres.
Os jornais perfilaram de novo, em parada, as frases solenes de perruca e rabicho, que celebram num ritmo dormente o alto amor da pátria.
Meteu-se na mão do sr. infante D. Augusto uma espada – condicional.
A própria Estefânia comoveu-se, venceu os nervos, o chic, a preguiça, e partiu, cheia de mobília e de brio, a salvar o mapa das possessões…
Nós, entretanto, ríamos.
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Oh Santo Deus!, não era cepticismo, não.
Como outros quaisquer, mais que outros quaisquer, nós amamos a terra do nosso berço, a pátria, o velho Portugal, etc.
Mas nós sabemos, meus dignos senhores, que uma revolta na Índia é alguma coisa tão extremamente insignificante, efémera e nula como um meeting civil no reino. (…)
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O grosso do exército da Índia é composto de indígenas - mouros, canarins, banianos e gentios.
Estes nomes melodiosos designam castas; e as castas na Índia conservam ainda todo o seu velho e irreconciliável separatismo.
As castas desprezam-se, guerreiam-se, e nunca absolutamente se fundem. Quase não se comunicam.
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Se um baniano toca a púcara de barro poroso de um canarim, o canarim espedaça num cunhal a púcara desventurada!
Estas hostilidades, nada as dissipa: nem as promiscuidades inevitáveis da caserna, nem os rigores igualitários da disciplina.
De sorte que o exército, formado destes elementos antipáticos, que se não unem, que se amaldiçoam, e onde apenas há o contacto material dos ombros na fileira - não tem unidade nem coesão.
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Além disto, todas as castas têm hábitos fatais, horas impreteríveis.
Está o soldado gentio de guarda: se chega a hora do seu arroz e não lho trazem - ele pousa tranquilamente a espingarda, cruza as mãos atrás das costas, e vai ao quartel ladrar contra o rancheiro; se chega a hora da ablução, atira a arma para um canto, e corre, aos pulos, a acocorar-se à beira do mar!
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E não há severidades, não há castigos, que alterem estes hábitos orientalmente fatais.
A oficialidade deste exército compõe-se pela maior parte de portugueses nascidos na índia – mestiços, castiços ou descendentes.
São os filhos de antigos degredados, de velhos bastardos da fidalguia indiana, de oficiais expedicionários, etc.
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Além destes oficiais nativos, há os oficiais europeus, mandados do continente, os expedicionários.
Estes, por altos motivos que só os grandes homens de Estado - como o Sr. Barros e Cunha - podem saber, têm um soldo maior que os oficiais índios.
Ora os oficiais índios, com um zelo pelas rupias extremamente compreensível, quereriam ter um soldo igual aos oficiais que vão de Portugal.
Por consequência, requerem.
Têm a ingenuidade asiática de requerer!
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Mas quando desesperam dos despachos da Pátria, permitem-se, como uma variedade mais ruidosa, uma certa porção de revolta!
Levam alguns batalhões para a rua e soltam o babadé.
O babadé é um ah! ah! ah! prolongado, uivado - cortado pela mão espalmada que bate rapidamente sobre a boca.
Tais são as revoltas da Índia, ó concidadãos timoratos!
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Para conter este elemento indígena e revoltoso, que meios tem o sr. governador-geral?
Diz-se que o sr. governador-geral, para defesa dos grandes interesses portugueses, dispõe da guarda municipal.
Essa guarda foi de todo o tempo composta de soldados portugueses, que os índios chamam paquelós.
Os portugueses que vão servir como funcionários são considerados aristocracia, e chamam-se fringuis.
Na Índia, o Sr. Melício seria um fringui!
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Esta guarda foi sempre segura, fiel e valente. Somente, hoje, tem a qualidade lamentável das legiões de Varo: - já não existe!
A Pátria distraída esqueceu-se de renovar os paquelós: e a Morte, com um desdém pelas nossas possessões que nunca lhe censuraremos bastante, foi-os levando, e paqueló após paqueló, destruiu na Índia todo o poder lusitano.
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Hoje, duas ou três companhias de mouros compõem a guarda fiel: estes pobres mouros arrastam na vadiagem os sapatos rotos, e estimulam o seu entranhado patriotismo com aguardente de banana, bebida alucinadora que leva à caquexia!
O que hoje há, pois, nessa Índia gloriosa e tradicional, para policiar e sustentar o poder português, é um bando de mouros sujos, idiotas, e bêbedos de aguardente!
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Pois bem! Ainda assim uma revolta na Índia não tem seriedade. E o motivo é que os oficiais, que, para terem maior número de rupias no seu soldo, tentaram uma revolta, vêem-se, realizada ela, singularmente embaraçados.
Vêem-se sós.
Em primeiro lugar, os soldados não vão por um impulso próprio.
Divididos em castas, fracos, ignorantes, odiando-se, sem terem interesse comum ou vontade comum - vão unicamente porque os seus oficiais, no primeiro momento, lhes mandaram que fossem.
É mesmo assim - como eles dizem.
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Se contra eles, porém, se apontar uma espingarda fiel - como estão ali, não em virtude da revolta sua, mas por obediência à revolta alheia - dispersam.
E, depois, os oficiais revoltados não têm rancho para lhes dar.
O povo conserva-se indiferente, sem adesão, sem simpatia.
Os que possuem alguma rupia, nesses dias enterram-na; os que têm arroz ensacado, escondem-no. Ninguém confia uma para a um oficial revoltado.
Ao segundo dia de desordem, quando chega a hora do rancho, os oficiais só têm a dar aos soldados - palavras de entusiasmo!
Os soldados (nunca podemos compreender por quê) preferem o arroz à retórica; e começam a debandar.
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Além disso, no exército índio não há pólvora, nem munições... Quase não há armas!
Por outro lado, à mais pequena insurreição, a disciplina, já famosamente diminuta, desaparece, sem pudor nenhum; e as diversas castas aproveitam os vagares da revolta para se espancarem com fervor.
Acrescente-se que os oficiais da Índia não têm instrução, nem táctica; não são capazes de ordenar uma marcha hábil, de formar um campo entrincheirado, de darem um apoio estratégico à revolta.
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Ao fim de dois dias de gritos e de babadé, acham-se nesta situação triunfante: sem ponto de apoio, sem adesões, sem rancho, sem munições, sem dinheiro, sem disciplina.
Se o governador-geral faz sair um bando que, ao som do tambor, propõe a amnistia, cada um solta um ah! de satisfação e de alívio, e volta para o seu quartel!
Ainda tendes medo, patriotas da Arcada?
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E não se deve esquecer ainda esta circunstância: o índio das nossas possessões é de uma debilidade gelatinosa.
Anémico, miudinho, assustadiço, consumido pelo sol, mal sustentado de arroz, o índio cai de bruços com uma carícia no rosto, e morre com uma palmada na espinha.
É uma fraqueza comprometedora.
As pessoas inexperientes e impacientes fazem um prodigioso consumo de índios.
Um empurrão, e o índio tomba - na eternidade.
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Não há talvez desembargador algum em Goa que não tenha, com a sua mão grave e jurídica, assassinado um índio!
Dá-se uma pancada leve no ombro do índio - ele cambaleia, suspira, nesse dia come pouco, no outro estende-se ao sol a gemer, começa a beber muita água, e morre.
Depois, o soldado índio, mal ouve o nome de paqueló - treme.
Aí vem o paqueló - foge!
Vê o paqueló - atira-se de bruços, já moribundo.
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Há tempos, em Mapuçá, um regimento de 400 praças revoltou-se.
Sai para a rua e vem fazer babadé para defronte da casa do comandante.
O comandante, à janela, em chinelas, tomava café, e entre os goles, vagarosamente sorvidos, exclamava para o regimento insurgido:
Ah! vocês revoltaram-se?
Depois para dentro, ao criado:
Mais açúcar!
E continuava:
Bem, eu já vos falo.
- (Uma colher! ) - Assim é que estais disciplinados, velhacos?
— (Dá cá o cachimbo! )- Ora deixai estar que os paquelós aí vêm! - (lume!)...
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O regimento hesitava.
Nisto aparece, numa pequena elevação, a distância, o tenente Bruno de Magalhães, que vinha, com 20 paquelós, bater os 400 revoltosos.
Os 400 revoltosos, só com ver ao longe os 20 paquelós, debandaram aos gritos.
Nem mesmo se chegou nunca a saber por que se tinham revoltado!
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Porém, ó homens de Estado, podeis dizer-nos:
Mas se a Inglaterra meter lenha para o forno?
Uff! A Inglaterra?!
No dia, meus senhores, em que a Inglaterra mandasse um soldado à fronteira da Índia Portuguesa - todo o território índio, mestiços, canarins, descendentes, todas as castas, todas as fraquezas se levantavam num ímpeto.
Povo e tropa na Índia tudo querem - menos o Inglês.
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O povo não quer o Inglês - porque no nosso regime ele vive na ociosidade, no desleixo, na sua imundície querida, na sua bem-amada traficância; e se fosse inglês, o cipaio viria obrigá-lo, a golpes de curbach, a ser policiado e a ser trabalhador.
E o soldado índio detesta o Inglês - porque, sob o nosso regime, ele pode subir os postos até major; e sob o regime inglês não subiria nem a cabo!
Aí está a razão por que uma revolta na Índia não tem valor, e por que foram tão supérfluos os vossos fervores patrióticos!
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No entanto, é indispensável que estes sustos acabem!
O País está débil e fraco, e estas comoções matam-no.
Há pouco Macau, agora a Índia!
Que as colónias nos deixem respirar!
Que se revoltem, sim, mas com intervalos, sem acumular.
Que se abra mesmo um registo no Ministério da Marinha. Em Setembro de 71 revoltou-se a Índia? - Pois bem, só em Setembro de 1872 será permitido que Timor se subleve.
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A Índia não nos serve senão para nos dar desgostos.
É um pedaço de terra tão escasso que se anda a cavalo num dia.
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As pequenas povoações caem em ruína e em imundície; não há nelas movimento, nem iniciativa; a única cultura é o arroz, que exportam a 5 para importar a 8;
a única indústria é fazer olas, que são uns encanastrados de palmeira com que se erguem os pacaris, alpendres coloridos e frescos que sombreiam as janelas;
não existe nenhum comércio;
os tributos esmagam;
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dois ou três homens ricos, Jossy e mais dois, que se vêem nos patins, descalços e encruzados, comendo o seu arroz com a mão, têm o dinheiro enterrado, e quando se lhes garante um forte juro, cavam e emprestam;
as escolas são uma ficção grotesca;
as estradas são a espessura do mato;
a higiene é feita pelos cães que lambem as imundícies na rua;
a polícia é feita por cada um com o seu bambu;
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uma intriga sórdida e rastejante agita indígenas e europeus;
o deboche tem o ardor do clima;
os soldados embebedam-se com aguardente;
e, no entanto, velhos pardieiros, que se esboroam às mordeduras do sol, esconderijos de corvos, lembram as nossas glórias e alastram o chão de caliça.
Tal é a Índia Portuguesa.
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Noutro número das Farpas lembrámos, a respeito das colónias, este grande melhoramento - vendê-las! Ocorre-nos outro ainda maior a respeito da Índia - dá-la!
E quanto a glórias nacionais, contentemo-nos com o barítono Lisboa e com o Sr. Arrobas - e é já glória bastante!
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A única coisa por que conservamos a Índia, é por ser uma glória do passado.
Oh! meus senhores, também D. João I é uma glória, e nós não nos conservamos abraçados à sua sepultura, soluçando e gemendo.
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O passado é belo e heróico - bem: quando o passado pretende antepor-se aos interesses do presente, o passado é caturra!
Seria verdadeiramente impertinente que uma rosa murcha tivesse a pretensão de andar na boutonnière da nossa sobrecasaca;
que uma pomada rançosa do ano passado ousasse querer anediar os nossos cabelos;
e que o esqueleto da mulher amada tentasse ainda dar-nos beijos!
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Se podemos vender a Índia aos Ingleses, vendamos a Índia, por Deus!
E quanto às glórias de Diu e de Damão, se elas se querem conservar na História e na pompa da epopeia, quietinhas e caladinhas, terão a nossa consideração.
Mas se, quando se tratar de negociar, elas se interpuserem com recordações importunas, dir-lhes-emos insolências, e desejaríamos dar-lhes coronhadas.
Fora daqui, caturras! voltai para o sepulcro e para o pó das crónicas!
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D. João de Castro, hoje, não serve senão para os rapazes de latinidade fazerem temas na província.
Tem paciência, glorioso varão! Sobre as tuas soberbas façanhas, o nosso tempo científico, positivo e racionalista, não tem senão a dizer-te:
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«Cumpriste sublimemente, meu velho D. João, os deveres do teu tempo segundo as ideias do teu tempo. Dorme agora quieto o teu grande dormir; e deixa que nós, segundo as ideias do nosso tempo, cumpramos os deveres do nosso tempo!» " (*)
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(*) - Eça de Queiroz - Portugal - (1845-1900)
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Fontes do Texto:
a) As Farpas - Setembro de 1871 - Typographia Universal, Rua dos Calafates, 110, Lisboa - Portugal.
b) Uma Campanha Alegre (As Farpas) - Lello & Irmão Editores - Porto - Portugal - 1979.
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Imagens:
Travel Pictures (Índia)
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