sábado, 13 de março de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Arquipélago de Gulag" (Alexandre Soljenitsine - Rússia)

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“Como se chega a esse misterioso Arquipélago?
A todas as horas para lá voam aviões, navegam barcos e marcham comboios, sem que neles se veja uma só inscrição que indique o lugar de destino.
Os empregados das bilheteiras e os agentes da Sovturista e da Inturista ficarão surpreendidos se você lhes pedir uma passagem para lá. Nem do Arquipélago, no seu conjunto, nem de nenhum dos seus incontáveis ilhéus eles têm conhecimento.
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Aqueles que vão dirigir o Arquipélago chegam lá por intermédio da Escola do Ministério do Interior (M. V. D.).
Aqueles que vão ser guardas no Arquipélago são convocados por intermédio de secções militares.
Aqueles que vão lá morrer, como você e eu, leitor, esses devem passar infalível e exclusivamente através da detenção.
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Detenção!!!!
Será necessário dizer que isso representa uma viragem brusca em toda a sua vida?
Que é como a queda a pique de um corisco sobre a sua cabeça?
Que é uma comoção espiritual insuportável, a que nem todas as pessoas podem adaptar-se, e que frequentemente leva à loucura?
O universo tem tantos centros quantos os seres vivos que nele existem.
Cada um de nós é o centro do mundo e do universo, e ele desmorona-se quando alguém nos sussurra ao ouvido: “Está preso!” (…)
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(…) A detenção nocturna, do tipo descrito, é a preferida, pois apresenta as maiores vantagens.
Todos os habitantes do apartamento ficam encolhidos pelo terror, desde a primeira pancada na porta.
O preso é arrancado ao calor da cama, todo ele reduzido à impotência do sono, com a mente confusa.
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Na detenção nocturna, os agentes têm superioridade de forças: vários homens armados contra um que não chegou sequer a abotoar as calças; durante os preparativos e a revista à casa, por certo que não se junta à entrada nenhum grupo de possíveis partidários da vítima. (…)
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As detenções nocturnas têm ainda a vantagem de que nem os inquilinos do prédio, nem os transeuntes das ruas da cidade vêem quantos levaram durante a noite. Se assusta os vizinhos mais próximos, o acontecimento não existirá para os mais distantes. É como se nada tivesse acontecido.
Pela mesma calçada em que transitaram os carros da polícia durante a noite, desfila durante o dia um magote de jovens com bandeiras e flores, entoando alegres canções. (…)”
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Alexandre Soljenitsine (1908-2008)
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Arquipélago de Gulag – Alexandre Soljenitsine - Rússia (Livraria Bertrand - Lisboa - Portugal - 1975)
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