domingo, 21 de fevereiro de 2010

Madeira - Portugal

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O que aconteceu ontem é simples de dizer e doloroso: aconteceu uma tragédia a Portugal.
Morreram portugueses.
Campos nossos foram arrasados.
Pequenas vilas ficaram isoladas.
Uma nossa cidade, por sinal a mais bela cidade de Portugal, foi invadida por lama.
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Janelas debruadas como há séculos os portugueses sabem fazer e espalham pelo mundo fora (Lubango, São Luís do Maranhão, Honolulu...) - e quem mais as espalhou foram os filhos desta cidade, e fizeram delas uma marca de Portugal -, janelas dessas, foram afogadas pelas enxurradas.
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Nessa nossa cidade de telhados vermelhos, paredes brancas e persianas verdes, ontem era tudo cinzento e castanho, da montanha ao mar.
As torres-vigias que em tantas casas se erguem para espreitar o mar, de onde chegavam os corsários e por onde partiam os mais cosmopolitas de nós, surpreenderam-se, porque, ontem, o que acontecia vinha do lado contrário.
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Esse nosso pedaço de Portugal é pequeno e aos seus rios chama ribeiras, nome dramaticamente irónico, ontem, tal a força das águas revoltas que carregaram automóveis até à baía.
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Aquele nosso Portugal tem nome próprio, aqueles nossos portugueses têm um nome particular, uma fala particular, aquela nossa bela cidade tem nome - mas hoje só me apetece dizer o essencial: estou a falar de nós.
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Ferreira Fernandes - Diário de Notícias - Lisboa (21 de Fevereiro de 2010)
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