terça-feira, 2 de março de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Morreram pela Pátria" (Mikail Cholokov - Rússia)

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“Ao alvorecer, um vento de Primavera, forte e morno, vindo do sul, açoitou o vale.
Pelos caminhos, os charcos petrificados pela geada nocturna cobriram-se de gotinhas. A última neve, uma neve esponjosa que a noite gelara à superfície, acumulava-se a ranger nas ravinas. Repelido para o norte, o negro velário das nuvens desfilava, desdobrando-se, baixo, num céu de tinta, e resistindo ao vento, lento cortejo majestoso que ultrapassava, com silvos de chamariz, fendendo o ar húmido num tumulto alegre, os inúmeros bandos de patos, marrecos e gansos, que se precipitavam para o local secular das suas migrações para o calor.
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Nicolau Streltsov, agrónomo-chefe da M. T. S. de Chernoiarsk, despertou muito antes de ser dia. As gelosias gemiam nas janelas. No fogão, o vento cantava um lamento frouxo. Uma placa de zinco despregada chocalhava no tecto.
Deitado de costas, com as mãos cruzadas sob a nuca, o cérebro vazio de pensamentos, Streltsov contemplava o azul crepuscular do amanhecer, aplicando o ouvido às rajadas de vento que batiam nas paredes e ao respirar igual, tranquilo, quase infantil, de sua mulher, adormecida a seu lado.
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Gotas de chuva tamborilaram no tecto. O vento pareceu amainar. Ouvia-se a água sussurrar, golfar, gorgolejar voluptuosamente na madeira nova e depois cair, pesada e mole, na terra húmida.
O sono não vinha. Streltsov levantou-se e, descalço, andando com precaução sobre as tábuas movediças, foi até à mesa, acendeu o candeeiro, sentou-se e fumou.
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Uma corrente de ar acre soprava pelos interstícios do soalho ajustado à matroca. O homem encolheu as pernas musculosas, procurou uma posição mais cómoda e pôs-se de novo a ouvir: a chuva continuava; caía até cada vez com mais força.
Muito bem; isto vai dar humidade”, verificou, satisfeito.
Decidiu imediatamente partir para a inspecção da manhã, a fim de ver como estavam os trigos de Inverno da granja O Caminho do Socialismo e lançar uma vista de olhos às sementeiras do Outono precedente. (…)”
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Mikail Cholokov
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Mikail Cholokov - Rússia (1905-1984) - Morreram pela Pátria - Publicado por Portugália Editora - Lisboa - Portugal - 1966.
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