sábado, 16 de janeiro de 2010

Ode ao Gato (Pablo Neruda)

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Os animais nasceram imperfeitos,
compridos de rabo,
tristes de cabeça.
Pouco a pouco se foram compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas,
graça
voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho
e sabe o que quer.
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O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo o gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até aos seus olhos de ouro.
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Não há unidade como ele,

não têm nem a lua nem a flor tal contextura:
é uma coisa só,
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha
em seu contorno firme e subtil
é como a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só ranhura
para jogar as moedas da noite .
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Oh pequeno imperador sem orbe,

conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão,
nupcial sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor na intempérie reclamas,
quando passas e pousas
quatro pés delicados no solo,
cheirando,
desconfiando de todo o terrestre,
porque tudo é imundo
para o imaculado pé do gato.
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Oh fera independente da casa,

arrogante vestígio da noite,
preguiçoso,
ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta dos quartos,
insígnia de um desaparecido veludo,
certamente não há enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti
e pertences ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários,
tios do gato,
companheiros,
colegas,
discípulos
ou amigos do seu gato.
.
Eu não.

Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei,
a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica o gineceu
com os seus extravios,
o mais e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.
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Pablo Neruda - Chile (1904-1973)
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Nas imagens: Rex, um aristogato.
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