domingo, 17 de janeiro de 2010

O Homem Que Tinha Vergonha do Pai (em: "O Conde d'Abranhos" - Eça de Queiroz)

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“(…) Logo que o Conde entrou na Câmara, fez o seu casamento tão rico e se estabeleceu em Lisboa, pensou sem demora em elevar paralelamente a situação social de seu pai.
Encontrou nele, porém, exigências tais que tornaram impossível a realização dos seus desejos.
As negociações foram longas, muito delicadas, muito secretas.
Tenho nas mãos toda essa correspondência, e posso dizer que nela o Conde mostra um tacto, uma prudência, uma previdência geniais.
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Seu pai, ao princípio, desejou que o Conde lhe fornecesse meios de abrir em Lisboa um grande estabelecimento de alfaiate.
Isto era naturalmente inaceitável.
Como o Conde me disse muita vez, não podia passar, com o correio de ministro atrás, pela rua onde reluzisse a tabuleta Abranhos, Alfaiate.
Como conseguiria ele, na Câmara, aniquilar um adversário que lhe poderia responder: - Tudo isso é muito bonito, mas o pior é que o senhor seu pai me estragou inteiramente este par de calças e roubou-me na fazenda!
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Era impossível esta permanente tortura moral.
E o pai do Conde tanto o compreendeu, que escreveu (não cito textualmente, pois que nem a sua ortografia, nem a sua gramática poderiam ter lugar num livro correcto): - Se não queres que eu possua um estabelecimento do ofício em que me criei, que é honrado e me tem ajudado a viver, e à tua mãe, então o melhor é que eu vá para a tua companhia, para tua casa, onde tua mãe, que é tão económica e tão hábil nos arranjos, pode ser uma governanta útil e poupar a tua mulher todos os incómodos “dos azeites e dos vinagres” (esta expressão é dele).
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O Conde recusou com indignação.
Realmente a exigência era curiosa.
Virem aquele homem e aquela mulher de Penafiel, com os hábitos, os modos, as figuras, a fala de dois trabalhadores de Penafiel, viver numa casa onde se recebia a fidalguia de Lisboa, os representantes dos Reis estrangeiros, a flor da literatura, a Maioria!
Absurdo!
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Se o Conde, como ele dizia, não fosse um homem público, poderia sacrificar-se a essa companhia plebeia.
Mas como Estadista, a presença na sua casa daquele pai de feição reles, a comer o arroz com a faca, a escabichar os dentes com as unhas, a perguntar às senhoras – então como vai essa bizarria? -, com o seu catarro, cuja expectoração perpétua era repulsiva, só serviria para diminuir a autoridade moral do Conde e o prestígio do seu talento.
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Em nome dos interesses superiores do Estado, devia repelir aquela proposta.
Se um dia tivesse a jantar o Ministro de Inglaterra ou de França, no momento de uma negociação delicada e de alto interesse para Portugal, como poderia impressionar os diplomatas estrangeiros, com o pai, ao lado, a tirar cera dos ouvidos?
Foi por isso que ele informou o pai de que só o receberia em sua casa com a condição de nunca aparecer aos jantares ou às soirées.
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O velho, decerto mal aconselhado por intrigantes políticos, respondeu com uma carta (que, pelas razões dadas, não cito textualmente) em que lhe diz que, desde que o filho se envergonha de seu pai, todos os arranjos são inúteis, e que cada um siga o seu caminho; eu (diz ele) não posso, aos 55 anos, mudar os meus hábitos e o meu catarro: sou como sou; não tenho as maneiras de um elegante, mas tenho a minha honra e os meus sentimentos.
Que meu filho jante na sala e me faça jantar na cozinha, não!
Continua a ser Abranhos deputado, que eu continuarei a ser Abranhos alfaiate.
Mas nem por isso deixo de ser tão homem de bem como tu (…)” (*)

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(*) – Eça de Queiroz (1845-1900) – “O Conde d'Abranhos” – Publicado por Lello & Irmão, Editores – Porto – Portugal – 1973.
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