domingo, 10 de janeiro de 2010

Aberturas de Grandes Livros - "Portugal Amordaçado" (Mário Soares - Portugal)

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“Este livro tem uma história.
Começou a ser escrito em São Tomé, quando me encontrava deportado, sem prévio julgamento e por tempo indefinido, nessa pequena ilha equatorial.
Precisamente, a ideia surgiu-me quando tive conhecimento pela rádio, única fonte das notícias do dia, de que Salazar tinha sido operado a um hematoma craniano.
Nesse momento, compreendi que uma época da história portuguesa tinha terminado. E que era justo – e necessário – fazer o ponto de todo esse tão longo e doloroso período histórico.
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Em vida de Salazar, um livro como o meu era, em sentido rigoroso, inconcebível. Esta simples verificação diz muito sobre a dureza dos tempos que nos tem sido dado viver, em Portugal, e explica por que razão este é o primeiro depoimento sobre a era salazarista. Outros se lhe seguirão, espero – enriquecidos com a visão de outros ângulos da realidade e mais bem elaborados.
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É importante e urgente que assim aconteça, para que daí resulte um melhor conhecimento do período da história pátria que se encerrou com o desaparecimento de Salazar e que tanto tem pesado sobre nós. É importante, sobretudo, como contributo essencial para a reflexão que colectivamente todos temos de fazer sobre o nosso futuro.
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Tendo-me colocado numa posição de combate clara e fortemente empenhada, não se pode pretender que o meu depoimento tenha a fria objectividade de um observador exterior aos factos. Não procurei fazer história, nem escrever capítulos esparsos de memórias, com o desprendimento de quem fala de um passado morto e encerrado, ou compõe, à sua maneira, os factos em que participou, para ilustração dos vindouros.
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O meu objectivo foi outro: dar singelamente testemunho de um longo combate desigual, a que assisti e em que estive interessado, mas preocupando-me essencialmente com a preparação do futuro.
Entretanto, procurei redigir as páginas que se seguem com escrupulosa verdade (…)”.
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Portugal Amordaçado - Mário Soares (n. 1924) - Publicado por Editora Arcádia - Lisboa - Portugal - 1974.
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Mário Soares foi Presidente da República de Portugal de 1986 a 1996.
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8 comentários:

ascendens disse...

Este senhor devia estar na cadeia, pois por algum motivo andou fugido antes de regressar a Portugal para, promovido pela maçonaria, devolver Portugal à mesema força internacional que o tinha roubado.

Cavaleiro da Torre disse...

Coitado do Dr. Mário Soares, Ascendens!... É óbvio que a sua opinião é respeitável, mas sinto-me na obrigação de lhe lembrar que muita gente andou "fugida" sem quaisquer razões sólidas que o justificassem (para além das decorrentes do abuso da força ou do poder tendencialmente arbitrário). Mas o Dr. Mário Soares não andou assim tanto tempo "fugido"... Enfrentou a polícia política, esteve preso, foi deportado,teve a família desmantelada, sofreu o exílio, arriscou a vida por aquilo em que acreditava. Isso é coisa rara, acho eu. O povo português, que vc. noutro ponto deste blogue considera "católico e monárquico", pelos vistos também achou, correndo a eleger por duas vezes para Presidente este Republicano dos quatro costados. E, de uma das vezes, por uma maioria esmagadora... Mas é claro que vc. está no seu pleníssimo direito de não gostar dele. Hoje já não se corre qualquer tipo de perigo por esse tipo de sentimentos. Obrigado pelo comentário. Volte sempre.

ascendens disse...

Caro Cavaleiro,

1 - "muita gente andou "fugida" sem quaisquer razões sólidas que o justificassem (para além das decorrentes do abuso da força ou do poder tendencialmente arbitrário)." A existência de esses casos não validam ou invalidam o caso de Mario Soares. Mas arrisco a dizer que há um problema grave na avaliação do que é legítimo neste caso, pois como o Cavaleiro afirma mais adiante, foi o povo que votou depois em Mário Soares, e é o Cavaleiro que agora o defende neste caso. Portanto alegar que houve ou não motivos em OUTROS casos é indiferente. O que já é mais significativo é chegarmos ao ponto de fazermos do estado novo o criminosos e fazermos da "república maçónica", a anterior, uma não existente. A maçonaria e a carbonária (que acabam por coincidir com duas vocações hoje assumidas politicamente e socialmente por PS e PC), subverteram o sistema, ocuparam o poder, dizimaram Portugal. O Portugal católico, como o Cavaleiro reconheceu, tem por certo que a maçonaria e a carbonária são inimigas do bem comum, da Igreja, de Deus e, portanto, da pátria.

ascendens disse...

Como podemos não ter o Dr. Mário Soares como um inimigo da nação? As crenças do Dr. Mário Soares eram, e são, contra a nação, por isso não aceitou ficar na cadeia... por isso fugiu, e fugiu para França porque, como ele disse publicamente, fez parte da loja francesa. Criminoso seria o Presidente conivente com a maçonaria e que não protegesse os portugueses das desgraças da anterior "república maçónica". Por isso existiu o golpe de estado...
A famosa PIDE passou a existir quando os métodos secretistas desses senhores começaram a aflorar e a preocupar um governo que passara agora a ter de lidar com um "sub mundo". Logicamente a maçonaria, que é uma organização policromática e global, soube como preparar a retoma do poder em Portugal.

ascendens disse...

2 - "Enfrentou a polícia política, esteve preso, foi deportado,teve a família desmantelada, sofreu o exílio, arriscou a vida por aquilo em que acreditava. Isso é coisa rara, acho eu." Não é o esforço do criminoso nem a sua inteligência que validam o seu objectivo. Não entendo como hoje as pessoas continuam a deixar-se levar pelo "bom selvagem" ou pelos filmes americanos que têm sempre uma qualidade de crimes cometidos pelo herói principal que "coitadinho" sofreu, fez esforço, e tem coração. Essa exploração do sentimentalismo sobre o mal é terrível. O bem é objectivo caro Cavaleiro, Deus objectivo,e o subjectivismo, o relativismo, o modernismo e todos esses "ismos" que ocultam a cara da Verdade não podem continuar a ser vendidos como a VERDADE. Não o são. Tudo o que não é verdade e existe é mentira, é um "não é". Se Mário Soares sofreu por defender falsos valores é um drama, sim, mas não é por alguém defender algo com muita força que isso passa a ser algo bom ou legítimo. E pobre daquele que luta pelo erro, e pobres daqueles que seguem o erro pensando que é verdade, pois uma mentira tem SEMPRE que ter algo de verdade para poder existir... Mas qual é a legitimidade da luta de Mário Soares? Qual o bem?

ascendens disse...

3 - "O povo português, que vc. noutro ponto deste blogue considera "católico e monárquico", pelos vistos também achou, correndo a eleger por duas vezes para Presidente este Republicano dos quatro costados." Por essa ordem de ideias, para si,é bom tudo o que a maioria escolhe. Ou seja, não é como em Portugal: em Portugal e na catolicidade a Verdade determina as acções, mas para o Cavaleiro a Verdade deve ser substituída pela maioria. Ora como disse S. Paulo "a verdade vos fará livres", portanto a Verdade engendra a liberdade. Ora o que temos é subversivo e tentador para quem tem poder de influenciar: não não, agora é a maioria que determina a acção independentemente da Verade. Ora os portugueses sempre acreditaram que realidade é independente daquilo que cada um possa pensar, e que pensar contra a realidade é errar, logo devemos fazer esforço para ajustar a acção e o pensar à realidade. O seu argumento de que a maioria votou significa então que: independentemente de Mário Soares ser ou não ser um criminoso político a maioria decidiu que ele devia ser ministro ou presidente. Certo, foi isso que passou, mas, como bem viu, não deu nenhum argumento em favor de Mário Soares até agora. Eu arrisco a dizer qual o motivo: não há argumentos!

ascendens disse...

Mas, queria agora aproveitar para dizer que é justamente essa máquina de voto a forma de legitimar aquilo que pode não ser bom e que pode até ser tido como bom pela maioria. Normalmente a maioria até está errada, são mais os estúpidos que os esclarecidos e está é a forma de deixar os estupidificados gostarem de apertar o botão de ignição depois de formados para terem como mau apertarem o outro botão... Enfim... Um sistema.

Não posso deixar de mencionar o tal trabalho da maçonaria internacional que preparou a reconquista do "trono" de Portugal. Portanto não culpe os portugueses de terem sido orientados estrategicamente. A propaganda da "revolução do povo" por algum motivo foi querida fazer-se passar por "do povo" sem o ser. A campanha de publicidade de rebelião contra a autoridade em em favor do povo foi um truque que já tinha resultado várias vezes antes. As experiências comunistas e socialistas sabiam-no bem. E já não há motivos para hoje pensar ingenuamente que o 25 de Abril foi uma revolução popular. Mas muitos acreditaram que sim, a emoção de ter poder, de ser "povo unido", o sentimentalismo popular explorado que hoje em algumas donas de casa se manifesta no "tragar novelas"... tudo isso vez o voto da maioria sobretudo nas zonas onde os comunistas já tinham voltado os trabalhadores contra os patrões (para desgraça daqueles, como se viu)...

ascendens disse...

"Mas é claro que vc. está no seu pleníssimo direito de não gostar dele. Hoje já não se corre qualquer tipo de perigo por esse tipo de sentimentos." Não tenho direito algum sem dever algum. Minguem tem direito ao mal. Portanto se eu estou errado corrija-me por favor, porque tenho obrigação ao bem, sou católico. Se eu não estou errado não espero rotulem a minha posição de "gosto". A verdade não se compadece com o "gosto", pois o erro do gosto é o "mau gosto". Quem tem esse "mau gosto", gosto deformado, porque prefere subjugar da verdade ao sentir, tem vicio. E o vício subjuga o homem, torna-o escravo. A liberdade, verdadeiramente, é um produto desta conformidade da vontade com o bem, não ao contrário.

Não é por gosto meu caro Cavaleiro, mas quero gostar da verdade, é pela verdade que quero gostar. Se tenho erros, e para que os meus sentidos não se colem a eles pensando que não são o que são, por favor, corrija-me.

Como vê há mais perigo hoje pelo que se pensa, e consequentemente pelo que se diz e faz, porque podemos influenciar os outros ao erro e ao mal, do que em tempos que o mal era punido e não devia ser transmitido para dano de outros.

Preferia ser preso pela verdade do que não ser pela mentira.