sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Parábola das Tristes Décadas (Baptista-Bastos)

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Há trinta e cinco anos que vocês nos manipulam,
nos dominam, nos mentem, nos omitem, nos desprezam.
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Há trinta e cinco anos que nos roubam,
não só os bens imediatos de que carecemos,
como a esperança que alimenta as almas
e favorece os sonhos.
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Há trinta e cinco anos que cometem o pior dos pecados,
aquele que consiste na imolação da nossa vida
em favor da vossa gordura.
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Há trinta e cinco anos que traem a Deus e aos homens,
sem que a vossa boca se encha da lama da mentira.
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Há trinta e cinco anos que criam legiões e legiões
de desempregados,
de desesperados,
de açoitados pelo azorrague da vossa indignidade.
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Há trinta e cinco anos que tripudiam
sobre o que de mais sagrado existe em nós.
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Há trinta e cinco anos que embalam as dores
de duas gerações de jovens,
e atiram-nos para as drogas, para o álcool,
para uma existência sem rumo, sem direcção e sem sentido.
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Há trinta e cinco anos que caminham,
altaneiros e desprezíveis,
pelo lado oposto ao das coisas justas.
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Há trinta e cinco anos que são desonrados,
torpes, vergonhosos e impróprios.
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Há trinta e cinco anos que, nas vossas luras e covis,
se acoitam os mais indecentes dos canalhas.
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Há trinta e cinco anos que se alternam no mando,
e o mando é a distribuição de benesses,
prebendas, privilégios
entre vocês.
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Há trinta e cinco anos que fazem subir as escarpas
da miséria e da fome
milhões de pessoas que em vocês melancolicamente
continuam a acreditar.
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Há trinta e cinco anos que se protegem uns aos outros,
que se não incriminam, que se resguardam,
que se enriquecem,
que não permitem que uns e outros sejam presos
por crimes inomináveis.
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Há trinta e cinco anos que vocês são sempre os mesmos,
embora com rostos diferentes.
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Há trinta e cinco anos que os mesmos jornais,
sendo outros,
e os mesmos jornalistas de outra configuração,
sendo a mesma,
disfarçam as vossas infâmias,
ocultam as vossas ignomínias,
dissimulam a dimensão imensa dos vossos crimes.
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Há trinta e cinco anos
sem vergonha,
sem pudor,
sem escrúpulo
e sem remorso.
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Há trinta e cinco anos que não estão dispostos
a defender coisa alguma
que concilie o respeito mútuo com a dimensão colectiva.
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Há trinta e cinco anos que praticam o desacato moral
contra a grandeza da justiça e a elevação do humano.
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Há trinta e cinco anos que, com minúcia e zelo,
construíram um país só para vocês.
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Há trinta e cinco anos que moldaram a exclusão social,
que esculpiram as várias faces da miséria e, agora,
sem recato e sem pejo,
um de vocês faz o discurso da indignação.
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Há trinta e cinco anos começaram a edificar o medo,
e o medo está em todo o lado:
nas oficinas, nos escritórios,
nos entreolhares, nas frases murmuradas,
na cidade, na rua.
O medo está vigilante.
E está aqui mesmo, ao nosso lado.
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Há trinta e cinco anos encenaram e negociaram,
conforme a situação,
o modo de criar novas submissões
e impor o registo das variantes que vos interessavam.
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Há trinta e cinco anos engendraram,
sobre as nossas esperanças confusas,
uma outra história natural da pulhice.
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Há trinta e cinco anos que traíram os testamentos legados,
que traíram os vossos mortos,
que traíram os vossos mártires.
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Há trinta e cinco anos que asfixiam
o pensamento construtivo;
que liquidaram as referências norteadoras;
que escarneceram da nossa pessoal identidade;
que a vossa ascensão não corresponde ao vosso mérito;
que ignoram a conciliação entre semelhança e diferença;
que condenam a norma imperativa do equilíbrio social.
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Riam-se, riam-se.
Vocês são uma gente que não presta para nada;
que não vale nada.
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Malditos sejam!
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Baptista-Bastos
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(Jornal de Negócios - Lisboa - Portugal - 23-Dez-2010)
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Grandes Quadros (Hendrick Avercamp - Holanda) (1585-1634)


.O Inverno e o Gelo
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(Clicar nas imagens para ampliar).
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Novo livro - Rainhas Medievais de Portugal

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Acaba de ser lançada em Portugal, por A Esfera dos Livros, mais uma obra de divulgação histórica, dentro do estilo a que a Editora nos tem vindo felizmente a habituar.
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Trata-se de “Rainhas Medievais de Portugal”, da autoria de Ana Rodrigues Oliveira (professora de História, com especialização na área de História Cultural e das Mentalidades).
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É-nos proposto um conjunto de biografias de 17 mulheres, que se estendem por duas dinastias e por quatro séculos de história.
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Na introdução, o livro aborda brevemente as origens e a estruturação do Condado Portucalense, de onde surgiria o Portugal de hoje. Opção com toda a razão de ser, uma vez que a primeira biografada é a condessa Dona Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal.
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Depois de Dona Teresa vêm, por ordem cronológica, as biografias de Mafalda de Sabóia (1125-1158) – Dulce de Aragão – Urraca Afonso de Castela – Mécia Lopez de Haro – Beatriz de Gusmão – Isabel de Aragão – Beatriz de Castela – Constança Manuel – Inês de Castro – Leonor Teles – D. Beatriz – Filipa de Lencastre – Leonor de Aragão – Isabel de Lencastre – Joana de Castela – Leonor de Lencastre (1458-1525).
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São, como se vê, com raríssimas excepções, mulheres ibéricas (da Galiza, de Aragão, de Castela, de Portugal), o que reflecte a estratégia matrimonial de aproximação entre as monarquias da época.
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Da apresentação da obra destacamos:
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Numa época em que as fontes escasseiam, os silêncios e as omissões são frequentes e em que as mulheres, mesmo sendo rainhas, eram vistas através, e em função, dos seus maridos, os reis, Ana Rodrigues Oliveira, baseada numa pesquisa exaustiva e numa investigação rigorosa, consegue trazer-nos as biografias destas mulheres, desvendando o seu papel, a sua acção, o seu sentir e a sua voz no fluir dos acontecimentos da família, da sua corte, dos seus reinos de nascimento e de casamento.
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Nesta obra original e única, ficamos a conhecer estas mulheres que deixaram marcas no imaginário dos Portugueses e, através delas, viajamos ao longo de quatro séculos de um período fascinante da História de Portugal.
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A obra tem 673 páginas, com 21 de referências bibliográficas
(PVP € 30,00).
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Fontes documentais utilizadas com rigor, estilo despretensioso, claro e atractivo.
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Leitura recomendada pela Torre.
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domingo, 26 de dezembro de 2010

O Amor em Portugal no Século XVIII (Os Bruxedos)

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“O século XVIII não se limitou a tomar a sério a bruxaria: converteu-a numa verdadeira obsessão. Sobretudo durante o tempo de D. João V, houve em Portugal o invencível terror da bruxa e do feitiço.
Não era só o povo obscuro que se enchia de "alambres brancos", de cruzes de S. Bento, de vinténs furados de S. Luís.
Era o alto clero, era o rei, era a corte, eram os próprios médicos, espíritos superiores alguns, os primeiros a reconhecer a existência do bruxedo e do malefício, a pretender determinar-lhes uma base científica e a instituir contra eles uma terapêutica rigorosa. (…)
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Seria interessante estudar e inventariar todos os feitiços que povoaram Lisboa durante o século XVIII. Aparecem a cada passo nos processos do Santo Ofício, nos livros de medicina, nas Pastorais do clero, nos versos dos poetas, nas drogas das farmacopeias, nas credências doiradas dos toucadores.
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A bruxa é a alma oculta do século.
Debruça-se sobre os leitos quando as crianças nascem; mete-se pelos anéis de núpcias quando as mulheres casam; senta-se sobre os gremiais de oiro, nos joelhos dos bispos; ladra como os cães nas alfurjas silenciosas; preside a todos os destinos humanos, brinca com todos os corações descuidados, espreita a todas as portas felizes.
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Nos actos mais graves, nos momentos mais sérios da vida, surgia a bruxa; era a bruxa o primeiro pensamento.
Nascia uma criança numa casa - queimavam-se logo solas de sapatos velhos para sacudir as bruxas. A criança definhava, adoecia - penduravam-lhe uma espada nua à cabeceira para afugentar as bruxas que lhe chupavam o sangue. A última filha era bruxa quando não havia filhos; o último filho era bruxo quando não havia filhas.
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Comunidades inteiras, de cruz alçada, atravessavam as ruas para exorcizar casas nobres.
Havia sítios em Lisboa, como o da Pampulha, que no século XVIII eram viveiros de bruxas: o peixe que as pampulheiras vendiam, sobretudo os safios, não se podia comprar por causa dos feitiços.
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Procuravam-se e pagavam-se a peso de oiro os filhos últimos, que tinham a singular virtude de curar alporcas e de ajudar as mulheres no trabalho do parto.
Uma lagartixa metida na couceira duma porta tornava estéreis todas as fêmeas que havia na casa.
Uma fava negra defumada pelas bruxas cegava a quem a comia.
Uns ossos de serpente dentro dum bizalho atado punham numa chaga o corpo dum homem.
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Mas foi designadamente no bruxedo de amor, no malefício amatório, na arte de "ligar" e de "desligar", que a liturgia do feitiço e do contra-feitiço, espécie de veneno e de contra-veneno, atingiu o delírio e o inverosímil.
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Chegaram até nós os nomes dos bruxos e bruxas mais frequentadas do tempo de D. João V: eram a Rastolha, muito querida de freiras e, em especial, das freiras de Sant'Ana e da amante do infante D. Francisco;
o Donato da Penha de França, bruxo-bobo que corria as ruas descalço, com o chicote coberto de verónicas, erguendo relicários;
Catarina do Espírito Santo, protegida do cardeal da Cunha, a quem o Cavalheiro de Oliveira se refere no Amusement Periodique;
a Isabel da Moita, que as franças da corte iam consultar a Alcácer do Sal;
Manuel de S. José, donato capucho, cujo céu-da-boca resplandecia e que foi penitenciado no auto-de-fé de 18 de Junho de 1741;
o Anão do Duque;
e, por fim, as mulatas Salemas, acusadas em 1736 de terem procurado, com certo feitiço feito com sangue, peitos de perdiz e pedaços de marmelada abocanhados por D. João V, substituir no coração e no leito do rei a madre Paula por certa freirinha bonita de Odivelas.
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Todos estes profissionais do bruxedo de amor usaram os mesmos processos — quer para fazer amar, quer para fazer aborrecer, quer ainda para tornar os homens “ligados", isto é, temporariamente incapazes, por inibição demoníaca, de coabitar ou de consumar matrimónio com determinadas mulheres.
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Boticários astutos, de capas negras pingadas e grandes fivelas de prata nos sapatos, enriqueceram vendendo às bruxas a "erva pombinha" defumada com dentes de defunto lançados sobre tijolos em brasa — estranho feitiço que despertava para o amor o organismo decrépito dos velhos e a frigidez desdenhosa dos moços.
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O erudito Bernardo Pereira, na sua Anacephaleosis Médico-Teológica publicada em 1734, esfalfa-se a aconselhar a todos os "ligados" pelas bruxas um remédio pelo menos tão singular como o das "palmilhas" de Curvo Semedo: urinar, num cemitério, pela argola da campa duma sepultura, ou, não sendo o malefício inveterado, urinar pelo anel da desposada.
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Perante o perigo crescente da bruxa, a medicina arma-se; os capelos amarelos cogitam; os cárceres da Inquisição transbordam. (…)
E as fogueiras rechinam; e a procissão amarela das mitras e das samarras segue a caminho do Campo da Lã.
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Agora, é o "Tio de Massarelos", bruxo insigne, cujos ossos assobiam e estalam na fogueira;
logo, é soror Inês de Jesus, freira de S. Francisco, açoitada e degredada para Angola por fazer feitiços de amor com as contas das camândulas;
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outro dia, é soror Mariana do Rosário, religiosa do Sacramento de Alcântara, que sai penitenciada no auto-de-fé de 20 de Outubro de 1748 por ter dado à luz sete gatos (Santo Ofício, processo n.º 3326) ;
são duas freiras de Sant'Ana possessas do demónio;
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é a bruxa "Dona Paula", que o Santo Tribunal relaxa em carne pelo feitiço amoroso de atrair os homens, derramando mãos cheias de sal e entoando uma oração diabólica capaz de perder Santo Antão eremita.
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E o cardeal D. Nuno da Cunha treme na sua púrpura; e o povo reza; e D. João V, embuçado no coche a caminho de Odivelas, leva às nobres freiras bernardas os processos dos penitenciados e lê, entre dois Magnificat tocados nas espinetas de xarão vermelho do convento, a oração célebre da bruxa “Dona Paula”, que já corre de boca em boca pela cidade, e que as freiras repetem, sorrindo, aplicada à pessoa do rei: “Esta mão cheia de sal eu deito por el-rei meu senhor, para que me venha buscar, me venha falar, e logo me venha amar, venha e não se detenha, para barrabás, para caifás, e estes sinais me hão-de dar cães a ladrar, bestas a passar, gatos a saltar...".
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A noite cai sobre a velha Lisboa do século XVIII.
As sombras povoam betesgas, vielas, calejas e praças; alastram ao longo dos arcos, dos botaréus e dos ressaltos flamengos; adelgaçam-se e estremecem na claridade vaga dos nichos e dos oratórios; enchem-se de uivos, de gemidos, de poças de sangue — e um pavor vago infiltra esse coração de Portugal, que afrontou no fim do século XV o Mar Tenebroso e que, cento e cinquenta anos depois, treme com medo das bruxas...”  (*)
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(*) Júlio Dantas – O Amor em Portugal no século XVIII
Livraria Chardron de Lello & Irmão – Porto – Portugal - Ano de 1916 (págs. 245-250).
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Júlio Dantas - Portugal
(1876-1962)
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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Infância Perdida (Ernesto Lara Filho - Angola)

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Nesse tempo, Edelfride,
com quatro macutas
a gente comprava
dois pacotes de ginguba
na loja do Guimarães.
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Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.
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Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia prás pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.
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Nesse tempo, Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.
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Era no tempo
em que o Saraiva Cambuta
batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.
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Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos de bimba
dos carrinhos de papelão.
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Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!
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Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre
e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias
do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande
e gostava dos meninos.
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Era no tempo dos doces de ginguba com açúcar.
Mais tarde
vieram os passeios noturnos
à Massangarala
e ao Bairro Benfica.
E o Bairro Benfica ao luar
O poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze e seu colar de missangas...)
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Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e o Lanterna Vermelha - o dancing do Quioche.
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Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia de chipipa da mafumeira.
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Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita
essa mulata...)
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Tu me ensinaste onde havia
a melhor quissângua de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.
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Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora
infância perdida
sonhos dos tempos de menino.
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Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varrer das cinzas
do velho Camalundo.
Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.
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Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.
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Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu
de dona Ema.
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Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.
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Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.
Diz-lhes. Diz-lhes
grita-lhes aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.
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Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.
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Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.
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Nesse tempo, Edelfride,
infância perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...
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Ernesto Lara Filho - Angola
(1922 - 1977)
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Capas da revista "Asia" (anos de 1925-1933)

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Autor das capas:  Frank McIntosh
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domingo, 19 de dezembro de 2010

Afonso de Albuquerque - 2.º Governador Português da Índia (1509-1515)

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Afonso de Albuquerque foi filho de Gonçalo de Gomide, senhor de Vila Verde, e de D. Leonor de Albuquerque. Terá nascido entre 1453 e 1462. Faleceu em 1515.
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Moço fidalgo do rei D. Afonso V (1432-1481), serviu em Arzila (Norte de África) e na guarda pessoal do rei D. João II (1455-1495), de quem foi estribeiro-mor.
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O rei D. Manuel (1469-1521) enviou-o à Índia em 1503, com o primo Francisco de Albuquerque, cada um comandando três naus, e levando ordens de combater Calecut, fazer fortaleza em Cochim e estabelecer relações comerciais com Coulão, incumbência plenamente realizada.
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De regresso a Portugal em 1504, Albuquerque foi bem recebido pelo rei, e terá sido então que expôs ao soberano um vastíssimo plano imperial, visando a conquista de posições estratégicas no Índico, desde as portas de Bab-el-Mandebe até ao estreito de Malaca, vedando à navegação muçulmana a saída das especiarias pelo mar Vermelho.
Isto transformaria o Índico num verdadeiro mar reservado de Portugal.
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Concordando com este programa, o rei mandou que Albuquerque regressasse ao Oriente em 1506, na armada de Tristão da Cunha.
Levava com ele um documento secreto que o nomeava governador da Índia em sucessão do vice-rei Francisco de Almeida que então ocupava o cargo (e cujo mandato findaria em 1508).

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Neste intervalo de tempo, Albuquerque ficaria como capitão-mor do mar da Arábia, patrulhando as costas e apoderando-se das posições que julgasse convenientes.
Com forças diminutas, naus mal equipadas e tripulações doentes, Afonso de Albuquerque conseguiu vitórias espantosas, tomando os principais portos do Omão e conquistando a riquíssima cidade de Ormuz, que fez tributária de Portugal.
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A desobediência de alguns capitães indisciplinados e a oposição do vice-rei obrigaram Albuquerque a deixar a fortaleza em construção, dirigindo-se à Índia, onde D. Francisco de Almeida não só se recusou a entregar-lhe o governo, como o perseguiu e prendeu.
A chegada do marechal Fernando Coutinho, em 1509, pôs termo à insólita situação. O vice-rei Almeida teve de partir, deixando os poderes a Albuquerque.

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Finalmente com as mãos livres, o novo governador principiou a série de triunfos ininterruptos, apesar da crónica escassez de recursos dos Portugueses na área.
Em 1510, chamado pelos naturais da bela cidade de Goa, oprimidos pelo jugo do turco Idalcão, Albuquerque apoderou-se da praça, que foi temporariamente abandonada devido à esmagadora maioria das forças turcas. Seria recuperada a 25 de Novembro do mesmo ano, após renhidos combates.
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Afonso de Albuquerque tratou desde logo de firmar o domínio português sobre bases de justiça e de consideração pelos nativos, ao mesmo tempo que procurava criar uma raça luso-indiana, casando os seus homens com mulheres da terra.

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Restos da porta de Malaca, mandada construir por Afonso de Albuquerque
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Em 1511 Afonso de Albuquerque parte com a armada para Malaca, de onde lhe chegavam apelos de portugueses aprisionados.
Não conseguindo entender-se com o sultão para a libertação dos mesmos, assaltou e conquistou a riquíssima cidade, defendida por 20.000 homens e elefantes de combate. Depois de construir uma fortaleza em Malaca, largou para a Índia transportando um rico despojo, o qual se perdeu no naufrágio da nau capitania.
De regresso em 1512, achou Goa cercada pelos Turcos, mas libertou-a através de uma audaciosa manobra marítima e terrestre, tomando ao inimigo a fortaleza de Benastarim.
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Em 1513 levou a armada até ao mar Vermelho, tentando de passagem um assalto aos fortíssimos muros de Ádem, que se malogrou por se terem quebrado as escadas. Prosseguindo a rota, entrou pelas portas de Bab-el-Mandebe, sendo o primeiro comandante europeu a navegar no mar Vermelho, que descreve num interessante relatório.
Passou o ano seguinte na Índia, em trabalhos administrativos e diplomáticos, tendo concluído pazes com Calecute.
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Em 1515 dirige-se a Ormuz, a fim de acabar a construção da fortaleza abandonada em 1508. Desta vez não houve quem ousasse resistir ao conquistador, que tomou o reizinho, que vivia amedrontado por ministros ambiciosos, sob a protecção de Portugal.
As chaves do Índico estavam, pois, na posse dos Portugueses.

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Monumento a Afonso de Albuquerque, diante do Palácio da Presidência da República - Lisboa- Portugal
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Entretanto, no remoto Portugal, caluniadores invejosos conseguiram malquistar o rei com o governador que tão bem o servira, persuadindo-o a substituir Afonso de Albuquerque pelo seu inimigo Lopo Soares. Quando, em Novembro de 1515, Afonso de Albuquerque, doente e exausto por nove anos de trabalhos em climas insalubres, partiu de Ormuz para a Índia, soube, por uma nau que passava, da chegada do seu rival, acompanhado dos seus piores inimigos.
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Proferiu então a célebre frase: Mal com os homens por amor de el-rei, mal com el-rei por amor dos homens.
À beira da morte, ditou uma carta para o rei D. Manuel, lembrando-lhe os serviços prestados e recomendando-lhe o seu filho natural, Brás. Acabou por morrer à vista da sua Goa bem amada, cujo povo o chorou em altas lamentações.

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Poucas vezes tem aparecido na história génio de maior envergadura do que Afonso de Albuquerque.
Foi ao mesmo tempo marinheiro, soldado, estadista, administrador e diplomata, colocando sempre as suas faculdades ao serviço de um único fim – exaltar o seu rei e a sua pátria.
Acrescente-se a isto um sugestivo poder de expressão nas admiráveis cartas que dirigia ao rei, as quais nos permitem acompanhar quase dia a dia a sua acção.
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Trata-se de documentos únicos, escritos sem qualquer preocupação literária, em português simples e saboroso, uma linguagem forte e viva, que prende e impõe, dando-nos a impressão de contacto directo com a sua grande personalidade.
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Adaptado de um artigo de Elaine Sanceau na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura
(Editorial Verbo - Lisboa - Portugal).
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sábado, 18 de dezembro de 2010

Arte Africana

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Artista: Shadreck Chivandire (Zimbabwe)
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Letra para um Hino (Manuel Alegre)

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É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.
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É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.
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É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
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Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
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Manuel Alegre - Águeda - Portugal (1936)
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