quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A Tecelã (Mauro Mota - Brasil)

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A Tecelã
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Toca a sereia na fábrica
e o apito como um chicote
bate na manhã nascente
e bate na tua cama
no sono da madrugada.
Ternuras de áspera lona
pelo corpo adolescente.
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É o trabalho que te chama.
Às pressas tomas o banho,
tomas teu café com pão,
tomas teu lugar no bote
no cais de Capibaribe.
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Deixas chorando na esteira
teu filho de mãe solteira.
Levas ao lado a marmita,
contendo a mesma ração
do meio de todo o dia,
a carne-seca e o feijão.
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De tudo quanto ele pede,
dás só bom dia ao patrão,
e recomeças a luta
na engrenagem da fiação.
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Ai, tecelã sem memória,
de onde veio esse algodão?
Lembras o avô semeador,
com as sementes na mão,
e os cultivadores pais?
Perdidos na plantação
ficaram teus ancestrais.
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Plantaram muito. O algodão
nasceu também na cabeça,
cresceu no peito e na cara.
Dispersiva tecelã,
esse algodão quem colheu?
Muito embora nada tenhas,
estás tecendo o que é teu.
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Teces tecendo a ti mesma
na imensa maquinaria,
como se entrasses
inteira
na boca do tear
e desses a cor do rosto
e dos olhos
e o teu sangue
à estamparia.
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Os fios dos teus cabelos
entrelaças nesses fios
e noutros fios dolorosos
dos nervos de fibra longa.
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Ó tecelã perdulária,
enroscas-te em tanta gente
com os ademanes ofídicos
da serpente multifária.
A multidão dos tecidos
exige-te esse tributo.
Para ti, nem sobra ao menos
um pano preto de luto.
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Vestes as moças da tua idade
e dos teus anseios,
mas livres da maldição
do teu salário mensal,
com o desconto compulsório,
com os infalíveis cortes
de uma teórica assistência,
que não chega na doença,
nem chega na tua morte.
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Com essa policromia de fazendas,
todo o dia,
iluminas os passeios,
brilhas nos corpos alheios.
E essas moças desconhecem
o teu sofrimento têxtil,
teu desespero fabril.
Teces os vestidos,
teces agasalhos
e camisas,
os lenços especialmente
para adeus, choro e coriza.
Teces toalhas de mesa
e a tua mesa vazia
.
Toca a sereia da fábrica,
E o apito como um chicote
bate neste fim de tarde,
bate no rosto da lua.
Vais de novo para o bote.
Navegam fome e cansaço
nas águas negras do rio.
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Há muita gente na rua
Parada no meio-fio.
Nem liga importância
à tua blusa rota
de operária.
Vestes o Recife
e voltas para casa,
quase nua.
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Mauro Ramos da Mota e Albuquerque nasceu em 1911, na localidade de Nazaré da Mata, Brasil.
Foi jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista.
Faleceu no Recife, Brasil, em 1984.
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2 comentários:

Milu disse...

Bonito, apesar de sofrido!

Maria de Fatima Melo disse...

Encantador o poema, tecido com fibra, por um poeta, que sente, em si, o sentimento do outro. Parabens.