sábado, 19 de dezembro de 2009

Carlos Drummond de Andrade - Provável influência do poeta na conquista da 3.ª Copa do Mundo pelo Brasil...

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De 31 de Maio a 21 de Junho de 1970, uma selecção brasileira compareceu no México para disputar a fase final da Copa do Mundo de Futebol.
O Brasil possuía (como sempre) jogadores superdotados. Basta lembrar Tostão, Gérson, Carlos Alberto, Rivelino, Jairzinho, Leão.
Possuía, acima de todos, o (sobrenatural) Pelé.
Mas o desfecho de um Campeonato do Mundo é sempre imprevisível, mesmo para o melhor futebol do Mundo, que é o do Brasil (recordem 1950, contra o Uruguai; ou 1966, contra Portugal).
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... Porém, a par de Pelé e de seus companheiros, o Brasil tinha ainda Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta.
Em Maio, às vésperas do início da competição, angustiado pelos males do seu país, ele elevou aos céus esta
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Prece do brasileiro
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Meu Deus, só me lembro de vós para pedir,
mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.
Desculpai vosso filho,
que se veste de humildade e esperança
e vos suplica:
Olhai para o Nordeste onde há fome, Senhor,
e desespero dando nas estradas entre esqueletos de animais.
Em Iguatu, Parambu, Baturité,Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?)
vede as espectrais procissões de braços estendidos,
assaltos, sobressaltos, armazéns arrombados
e – o que é pior – não tinham nada.
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Fazei, Senhor, chover a chuva boa,
aquela que, florindo e reflorindo,
soa qual cantata de Bach em vossa glória
e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,
ao pobre sertanejo destruído
no que tem de mais doce e mais cruel:
a terra estorricada sempre amada.
Fazei chover, Senhor, e já!
numa certeira ordem às nuvens.
Ou desobedecem a vosso mando, as revoltosas?
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Fosse eu Vieira (o padre)
e vos diria, malcriado, muitas e boas...
mas sou vosso fã omisso, pecador, bem brasileiro.
Comigo é na macia, no veludo/lã
e matreiro, rogo,
não ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)
mas ao Deus que Bandeira, com carinho, botou em verso:
“meu Jesus Cristinho”.
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E mudo até o tratamento:
por quê “vós”, tão gravata-e-colarinho,
tão“vossa excelência?”
O "você" comunica muito mais
e se agora o trato de “você",
ficamos perto,
vamos papeando
como dois camaradas bem legais,
um, puro;
o outro, aquela coisa, quase que maldito
mas amizade é isso mesmo:
salta o vale, o muro, o abismo do infinito.
Meu querido Jesus, que é que há?
Faz sentido deixar o Ceará sofrer em ciclo
a mesma eterna pena?
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E você me responde suavemente:
Escute, meu cronista e meu cristão:
essa cantiga é antiga
e de tão velha não entoa não.
Você tem a Sudene
abrindo frentes de trabalho de emergência,
antes fechadas.
Tem a ONU,
que manda toneladas de pacotes
à espera de haver fome.
Tudo está preparado para a cena
dolorosamente repetida no mesmo palco.
O mesmo drama, toda vida.
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No entanto, você sabe,
você lê os jornais, vai ao cinema,
até um livro de vez em quando lê
se o Buzaid não criar problema:
Em Israel, minha primeira pátria
(a segunda é a Bahia)
desertos se transformam em jardins
em pomares, em fontes, em riquezas.
E não é por milagre:
obra do homem e da tecnologia.
Você, meu brasileiro, não acha
que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?
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Jesus disse e sorriu.
Fiquei calado.
Fiquei, confesso,
muito encabulado,
mas pedir, pedir sempre ao bom amigo
é balda que carrego aqui comigo.
Disfarcei e sorri.
Pois é, meu caro.Vamos mudar de assunto.
Eu ia lhe falar noutro caso,
mais sério, mais urgente.
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Escute aqui, ó irmãozinho.
Meu coração, agora, tá no México
batendo pelos músculos de Gérson,
a unha de Tostão,
a ronha de Pelé,
a cuca de Zagalo,
a calma de Leão
e tudo mais que liga o meu país
e uma bola no campo
e uma taça de ouro.
Dê um jeito, meu velho,
e faça que essa taça
sem milagres ou com eles
nos pertença
para sempre, assim seja...
Do contrário
ficará a Nação tão malincônica,
tão roubada em seu sonho e seu ardor
que nem sei como feche a minha crônica.
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(Carlos Drummond de Andrade - 30-Maio-1970)
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Nota da Torre - ... e o Brasil, pela terceira vez, foi Campeão do Mundo de Futebol...
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2 comentários:

Milu disse...

Maravilhoso! Há aqui tanto sentir de criança, daquele sentir de criança que teima em persistir no coração dos puros.

José Rosa Soares Filho disse...

Muito bom o post e a poesia de Drummond, parabéns !

Como brasileiro eu agradeço !

abraços,

José Rosa.