domingo, 15 de novembro de 2009

O Polvo (Padre António Vieira)

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"(...) Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio.
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O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge;
com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela;
com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão.
E debaixo desta aparência tão modesta,
ou desta hipocrisia tão santa,
testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar.
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Consiste esta traição do polvo primeiramente em as cores a que está pegado.
As cores, que no camaleão são gala,
no polvo são malícia;
as figuras, que em Proteu são fábula,
no polvo são verdade e artifício.
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Se está nos limos, faz-se vestir ou pintar das mesmas cores - de todas aquelas verde;
se está na areia, faz-se branco;
se está no lodo, faz-se pardo;
e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra.
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E daqui que sucede?
Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente e fá-lo prisioneiro.
Fizera mais Judas?
Não fizera mais, porque não fez tanto.(...)" (*)
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(*) - O Polvo, de Padre António Vieira (n. Portugal, 1608 -- f. Brasil, 1697)
Extracto do Sermão de Santo António aos Peixes.
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Quem era (ou pode ser) o polvo de António Vieira?
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Ontem, como hoje, poderia representar ou caber em abundantes gestos e figurações.
Pensem sobretudo naquele "não ter osso nem espinha", naquela "hipocrisia tão santa", naquele transformismo das aparências, naquele salto repentino de emboscada, de "dentro do seu próprio engano"...
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Enfim, naquele tempo e naquele espaço - o tempo e o espaço de Vieira - dizia-se que ele aludia, especialmente, à temível Inquisição...
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