domingo, 25 de outubro de 2009

Na juventude de Eça de Queiroz (1) (por Jaime Batalha Reis)

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Eça de Queiroz (1845-1900)
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“Uma noite, no Verão de 1867 ou 1868, depois de cear, o Eça de Queiroz, o Salomão Saragga e eu (Jaime Batalha Reis) fomos de passeio, conversando, até Belém.
A noite estava muito quente. Havia uma grande claridade de Lua cheia. Seriam umas duas horas da madrugada quando chegámos à Praia da Torre.
Quase varado na areia, havia um barco. Metemo-nos dentro. A maré enchente fez-nos flutuar. Aí continuámos a nossa conversação até que o dia apareceu e o Sol se levantou por detrás da casaria e dos altos de Lisboa.
Desembarcámos então e dirigimo-nos para Belém, com fome, em busca duma taberna ou restaurante. Queríamos almoçar ali mesmo, continuando, à beira do rio, a nossa discussão. Mas conhecíamos os nossos três apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que ele apenas pagaria um insuficiente repasto.
Que fazer?
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- Tenho uma ideia – disse o Eça de Queiroz, fazendo o gesto consagrado de bater na testa. – Tenho uma ideia genial – acrescentou, erguendo tremulamente os braços ao céu: - Sigam-me.
E negro, linear, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, com passos largos e rítmicos, que pareciam saltar obstáculos invisíveis, a sombra da figura esguia e imensa projectada pelos raios horizontais do Sol nascente, Eça de Queiroz adiantou-se em direcção à calçada que leva de Belém à Ajuda.
Salomão Saragga e eu íamos atrás, famélicos, murmurando.
Seriam quase cinco horas da manhã.
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Torre de Belém - Lisboa - Portugal
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Junto da Igreja da Memória o Eça de Queiroz dirigiu-se a uma casa baixa, de janelas cerradas, e bateu.
Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus sonos.
O Eça de Queiroz explicou-nos:
- Mora aqui o Mancília, a quem vamos dar um tiro. Só ele nos pode salvar neste deserto.
E continuou a bater durante minutos.
Por fim ouviu-se falar dentro da casa. Alguém abriu a porta resmungando, e vimos diante de nós uma cara larga, um bigode castanho, e uns olhos, entre terríveis e risonhos, sob uma grande trunfa de caracóis desordenados. Era o Lourenço Malheiro.
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- Menino – começou o Eça de Queiroz – estamos esfomeados após muitas horas de incalculável criação romântica. Jurámos não morrer antes de produzirmos três obras de génio. Dá-nos entretanto dinheiro para almoçar. Mas olha lá… Comunicámos toda a noite, espectralmente, no Restelo, com as armadas portuguesas que dali foram ao descobrimento da Índia e do Brasil: dá-nos pois dinheiros antigos e sugestivos – sequins, dobrões, florins, ducados, escudos, peças, ou, quando menos, pintos…
O Malheiro foi dentro e trouxe três moedas de cinco tostões.
- Ouvirás falar da tua generosa dádiva, Mancília – disse o Eça de Queiroz, apertando-lhe as mãos com comoção e solenidade.
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Voltámos a Belém.
E, enquanto na cozinha da taberna, onde bebiam marinheiros e uma guitarra gemia frases lancinantes do fado, se preparava a pescada com batatas e a caldeirada que encomendáramos, o Eça de Queiroz e eu, num quarto do primeiro andar, organizávamos o seguinte problema cuja glosa e solução seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:


“Cristo deu-nos o amor
Robespierre a liberdade;
Malheiro deu-nos três pintos:
Qual deles deu a verdade?”


(…) Almoçando, o Eça de Queiroz e eu glosámos e resolvemos o problema em quatro quadras e décimas, cantadas ali logo, ao acompanhamento do fado que continuava a ouvir-se chorar na cozinha do rés-do-chão.
Existem as minhas quadras (ver Nota, no fim), mas perderam-se as décimas de Eça de Queiroz, que com efeito sobrescritámos para o Lourenço Malheiro, décimas cheias de graça e fantasia.

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Jaime Batalha Reis (1847-1935)
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De outra vez, dois dos nossos amigos – o capitão João de Sá e o Zagalo – convenceram-nos a irmos com eles a uma espera de touros.
Na volta, pela madrugada, abancámos a cear numa tasca do Arco do Cego. Éramos, a esse tempo, um grupo numeroso. Apareciam amigos, conhecidos, desconhecidos.
Nós, expansivamente, íamos convidando. Eles iam comendo, bebendo, desaparecendo. Quando rompeu o dia e quisemos nós mesmos partir, descobrimos que havíamos gasto, em bacalhau, iscas de fígado, azeitonas e vinho Colares, um dinheirão que não tínhamos na algibeira.
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Comêramos num pátio onde havia galinhas, e uma horta com couves e parreira.
Ao lado, dava para esse pátio uma casa estreita, de janelas sem vidraças, onde se guardavam frutas, legumes secos e feno. Era madrugada.
O Eça de Queiroz e eu, já sonolentos, resolvemos esperar ali, até à tarde seguinte, que o João de Sá e o Zagalo nos viessem desempenhar com o dinheiro necessário a pagar as nossas dívidas.
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Cerca do meio-dia acordámos sobre os molhos aromáticos do feno, rodeados por galinhas e pombos familiares. As paredes da casa onde dormíramos eram caiadas. Então – depois de almoçarmos ainda a crédito – com dois lápis, devorando fruta, principiámos a cobrir as paredes dum longo poema, difuso, indeterminado, lírico, humorístico, tristíssimo e hilariante (…).
Este exercício durou quatro ou cinco horas. Duas das paredes da casa ficaram, até à altura de um homem, cinzentas de versos.
Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do Eça de Queiroz nesta colaboração extravagante.
Lembro-me nitidamente de que havia nessa parte trechos espantosos pelas imagens originais, pela fantasia, pela graça, pelo imprevisto.”

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NOTA – Entre os papéis de Jaime Batalha Reis encontraram-se as seguintes três quadras:


“Declamador tremebundo,
Tirano atroz, por bondade,
Deu-nos, matando meio mundo,
Robespierre, a liberdade.
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Maior que a lenda e a retórica,
Ao ver-nos, aos três famintos,
Com mão magnífica, e histórica,
Malheiro deu-nos três pintos.
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Com este dom de fartar,
E peixe frito à vontade,
É inútil perguntar
Qual deles deu a verdade.
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“Eça de Queiroz e Jaime Batalha Reis – Cartas e Recordações do seu Convívio”
Lello & Irmão – Editores – Porto (Portugal) – 1966 (Págs. 118 a 123)
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