quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Empresas e Predadores

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I - 24 suicídios na France Telecom
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Um funcionário da France Telecom atirou-se de um viaduto, depois de escrever uma carta denunciando o clima profissional vivido no seio da gigante das telecomunicações francesa France Telecom.
Esta morte aumenta para 24 o número de suicídios de empregados da empresa nos últimos 18 meses.
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Casado e pai de dois filhos, o homem de 51 anos deixou dentro do carro uma carta dirigida à sua mulher, “evocando o sofrimento vivido no contexto profissional” (…).
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Desde Fevereiro de 2008 que tem havido uma vaga de suicídios na France Telecom, uma maré negra que provocou reacções emotivas na empresa e motivou a intervenção do Estado, accionista principal da empresa.
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Os sindicatos reagiram com indignação ao mais recente suicídio de um quadro da empresa, denunciando as condições de trabalho na central telefónica de Annecy.
Segundo o sindicato SUD-Solidaires, o funcionário que se suicidou tinha sido transferido recentemente e “não se sentia bem” no seu novo serviço, “do qual se libertou”.
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"É aterrorizante. Ele trabalhava numa secção conhecida há muito tempo por ser insuportável, havia uma verdadeira indiferença, nenhum calor humano, não se falava senão de números, os empregados eram carne para canhão”.
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O presidente da empresa, Didier Lombard, foi “imediatamente” ao local de trabalho do funcionário que se suicidou.
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O ministro do Trabalho, Xavier Darcos, pediu a Lombard que acelerasse as “negociações para a prevenção dos riscos psicossociais” no seio da empresa.
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A meio de Setembro, pressionado pelo governo francês, o presidente da France Telecom tinha prometido mudar certos métodos de gestão. (*)
(*) - (Dos jornais)
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II - Neoliberalismo e restauração do poder de classe
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(...) A ortodoxia neoliberal, pressionada tanto pela Inglaterra como pelos EUA, introduziu-se nas instituições financeiras internacionais depois de 1980.
O Fundo Monetário Internacional tornou-se o principal agente na promoção das políticas de “ajustamento estrutural” sempre que tinha de lidar com uma crise de crédito.
Como resultado, países como o México, Argentina, Brasil e África do Sul foram arrastados para o campo neoliberal.
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O preço de entrar no sistema económico global para muitos países da área soviética foi a privatização e o assumir de uma postura neoliberal.
A competição global arrastou muitos outros países, até a China e a Índia, para algo aproximado a uma estrutura de Estado neoliberal. (...)
Mas algumas variantes de Estado neoliberal agora predominam em todo o mundo. (...)
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Num mundo darwiniano, o argumento neoliberal vinga:
Ficas para trás porque não és competitivo.
Apenas sobrevives se te encaixares suficientemente bem.
Não há nada sistematicamente errado.
A falha está em ti. Não és suficientemente neoliberal.
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Em segundo lugar, e mais importante, os grupos com rendimentos mais elevados tornaram-se infinitamente mais ricos sob o neoliberalismo.
A desigualdade social aumentou em vez de diminuir.
Assim, o neoliberalismo tem sido erguido sobre a restauração do poder de classe de uma pequena elite de financeiros e directores-executivos.
E uma vez que essa classe tem um controlo decisivo sobre os processos políticos e sobre os instrumentos de persuasão, é claro que insiste em que o mundo está muito melhor.
E está, para eles.
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Mas se o crescimento agregado é tão lento, como é que as classes superiores acumulam tanta riqueza?
Elas fazem-no em larga medida devido ao uso de práticas predatórias, desapropriando outros.
Esta “acumulação por desapropriação” assume muitas formas.
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Mão-de-obra barata é rapidamente saqueada e quanto mais barata e dócil, melhor.
Os direitos comuns de propriedade (água, território, etc.) estão a ser privatizados.
Populações de camponeses desfazem-se dos seus terrenos.
O meio-ambiente é degradado.
Patentes de direitos para tudo, desde materiais genéticos, sementes, produtos farmacêuticos, até ideias, permitem extrair dinheiro de populações com baixos rendimentos.
Bens fundamentais como a educação e cuidados de saúde são tornados comercializáveis e os preços dos utentes sobem em flecha.
E a lista continua sempre a aumentar.
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Mas, mais importante de tudo, os sistemas de crédito e financiamento são usados activamente para acumular riqueza num pólo enquanto a extraem do outro.
O neoliberalismo é uma transferência maciça de riqueza dos pobres para os ricos.
Estas injustiças acenderam inúmeros protestos em todo o mundo, vagamente unidos no movimento anti-globalização ou pela justiça global.
A resposta do neoliberalismo foi frequentemente a repressão do Estado.
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Dada a sua base de classe, o Estado neoliberal é compreensivelmente antidemocrático.
A viragem para o autoritarismo e neo-conservadorismo é ilustrativa de quão longe irá essa classe e as estratégias que está preparada para desenvolver a fim de preservar e aumentar os seus poderes.
A massa da população terá de submeter-se a este esmagador poder de classe ou reagir-lhe também em termos de classe.
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Se isto parece, age e se sente como luta de classe, então temos de estar preparados para chamá-la pelo seu nome e agir em conformidade. (*)
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(*) - David Harvey (Professor de Antropologia no Graduate Center da Universidade da Cidade de Nova Iorque.
O seu livro mais recente é The New Imperialism, publicado pela Oxford University Press.)
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III- O liberalismo da 25.ª hora
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"A meritocracia", a "gestão por objectivos", a facada nas costas, o desprezo pela condição humana, enfim, o pensamento triunfante que calcula e que governa um pouco por toda a parte, já conduziu ao suicídio de vinte e quatro funcionários da France Telecom.
Condoído, o gerente da coisa prometeu mais "humanidade" e maior atenção às relações laborais e às transferências de postos de trabalho.
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Por cá, os "intelectuais" do liberalismo da vigésima quinta hora devem achar maravilhosa a prática desta privatizada empresa.
O bezerro de ouro - o lucro - justifica tudo e o seu contrário, porque vivemos num tempo desprovido de ética e onde o homem se limita a ser uma peça descartável.
E há sempre alguém (o alguém é uma metáfora) disponível para ocupar o lugar do morto seguinte em nome dos "objectivos".
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O homem não foi feito para a derrota, como escreveu o Hemingway?
Não teria tanta certeza.
Afinal, a France Telecom (isto é só um nome) prova que pode ser derrotado e destruído." (*)
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(*) - "Portugal dos Pequeninos"
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