sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Eça de Queiroz e a Marinha Portuguesa ("As Farpas" - Julho de 1871)

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“Mas, meus senhores, antes de tudo, nós não temos Marinha!
Singular coisa! Nós só temos Marinha pelo motivo de termos colónias – e justamente as nossas colónias não prosperam porque não temos Marinha!
Todavia, a nossa Marinha, ausente dos mares, sulca profundamente o orçamento. Gasta 1 159 000$000.
Que realidade corresponde a esta fantasmagoria das cifras?
Uns poucos de navios defeituosos, velhos, decrépitos, quase inúteis, sem artilharia, sem condições de navegabilidade, com cordame podre, a mastreação carunchosa, a história obscura.
É uma Marinha inválida.
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A D. João tem 50 anos, o breu cobre-lhe as cãs: o seu maior desejo seria aposentar-se como barca de banhos.
A Pedro Nunes está em tal estado, que, vendida, dá uma soma que o pudor nos impede de escrever.
O Estado pode comprar um chapéu no Roxo com a Pedro Nunes – mas não pode pedir troco.
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A Mindelo tem um jeito: deita-se. No mar alto, todas as suas tendências, todos os seus esforços são para se deitar.
Os oficiais de Marinha que embarcam neste vaso fazem disposições finais.
A Mindelo é um esquife – a hélice.
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A Napier saiu um dia para uma possessão. Conseguiu lá chegar. Mas, exausta, não quis, não pôde voltar. Pediu-se-lhe, lembrou-se-lhe a honra nacional, citou-se-lhe Camões, o Sr. Melício, todas as nossas glórias. A Napier, insensível, como morta, não se mexeu.
Das 8 corvetas que possuímos são inúteis para combate ou para transporte – todas as 8.
Nem construção para entrar em fogo, nem capacidade para conduzir tropa.
Não têm aplicação.
Há ideia de as alugar como hotéis. A nossa esquadra é uma colecção de jangadas disfarçadas! E este grande povo de navegadores acha-se reduzido a admirar o vapor de Cacilhas!
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Têm um único mérito estes navios perante uma agressão estrangeira: impor-se pelo respeito da idade. Quem ousaria atacar as cãs destes velhos?
Já se quis muitas vezes introduzir nas fileiras destes vasos caducos alguns navios novos, ágeis, robustos. Tentou-se primeiro comprá-los.
Sucedeu o caso da corveta Hawks.
Era esta corveta uma carcaça britânica, que o Almirantado mandava vender pela madeira – como se vende um livro a peso.
Por esse tempo, o Governo português – morgado de província ingénuo e generoso – travou conhecimento com a Hawks, e comprou a Hawks. E quando mais tarde, para glória da monarquia, quis usar dela, a Hawks, com um impudor abjecto, desfez-se-lhe nas mãos!
Estava podre! Nem fingir soube! Tinha custado muitas mil libras.
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Tentou-se então construir em Portugal.
Sabia-se que o Arsenal é uma instituição verdadeiramente informe: nem oficinas, nem instrumentos, nem engenheiros, nem organização, nem direcção. Tentou-se todavia – e fez-se nos estaleiros a Duque da Terceira. Foi meter máquina a Inglaterra. E aí se descobre que a tenra Duque da Terceira, da idade de meses, tinha o fundo podre!
Foi necessário gastar com ela mais cento e tantos contos.
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Nova tentativa. Entra nos estaleiros a Infante D. João. 87 contos de despesa. Vai meter máquina a Inglaterra. Fundo podre! O Arsenal perdia a cabeça! Aquela podridão começava a apresentar-se com um carácter de insistência verdadeiramente antipatriótica!
Os engenheiros em Inglaterra já se não aproximavam dos navios portugueses senão em bicos de pés – e com o lenço no nariz. As construções saídas do Arsenal sucumbiam de podridão fulminante.
A Infante D. João custou em Inglaterra mais cento e tantos contos!
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O Arsenal, humilhado no género navio, começou a tentar a especialidade lancha. Fez uma a vapor. Lança-se ao Tejo, alegria nacional, colchas, foguetes, bandeirolas… E a lancha não anda! Dá-se-lhe toda a força, geme a máquina, range o costado – e a lancha imóvel! Mas de repente faz um movimento…
Alegria inesperada, desilusão imediata! A lancha recuava. Era uma brisa que a repelia.
Em todas as experiências a lancha recuava com extrema condescendência: brisa ou corrente tudo a levava, mas para trás. Para diante, não ia.
O Arsenal tinha feito uma lancha a vapor que só podia avançar puxada a bois.
O País riu durante um mês.
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A nossa glória, inquestionavelmente, é a Estefânia.
Parece que poucas nações possuem um vaso de guerra tão bem tapetado! O orgulho daquele navio é rivalizar com os quartos do Hotel Central. É um salão de Verão surto no Tejo.
E no Tejo, realmente, dá-se bem. No mar alto, não! Aí tem tonturas. Não nasceu para aquilo: um navio é um organismo, e como tal pode ter vocações: a vocação da Estefânia era ser gabinete de toilette. É pacata como um conselheiro. É uma fragata do Tribunal de Contas!
Por isso, quando a quiseram levar a Suez, quantos desgostos deu à sua Pátria! Quantas brancas fez à honra nacional!
É verdade que os cabos novos, da Cordoaria Nacional, quebraram como linhas, e ninguém lhes pode contestar que tivessem esse direito.
A marinhagem também não quis subir às vergas (opinião respeitável, porque a noite estava fria).
Alguns aspirantes choraram de entusiasmo pela Pátria.
O capelão quis confessar os navegadores.
O caso foi muito falado nesse tempo. Mais celebrado que a descoberta da Índia. (…)
O facto é que desde então brilha no Tejo, tranquila, reluzente, vaidosa – a Estefânia, corveta mobilada pelos Srs. Gardé e Raul de Carvalho.”
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Eça de Queiroz – Uma Campanha Alegre ( As Farpas - Julho de 1871) - Vol. I - Pág.134-138)
Lello & Irmão Editores – Porto – Portugal – 1979.
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