domingo, 21 de junho de 2009

O Rei dos Animais (Millôr Fernandes - Brasil)

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Saiu o Leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas.
Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar.
Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza.
Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses.
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Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou:
"Hei, você aí, macaco - quem é o rei dos animais?"
O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta:
"Claro que é você, Leão, claro que é você!".
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Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio:
"Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?"
E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio:
"Currupaco... não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?".
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Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade.
Encontrou a coruja e perguntou:
"Coruja, não sou eu o maioral da mata?"
"Sim, és tu", disse a coruja.
Mas disse de sábia, não de crente.
E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça.
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Encontrou o tigre.
"Tigre, - disse em voz de estentor - eu sou o rei da floresta. Certo?"
O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito:
"Sim".
E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o Leão se afastou.
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Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou:
"Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?"
O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro.
O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou:
"Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado".
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MORAL - Cada um tira dos acontecimentos a conclusão que bem entende.
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AVISO - Qualquer semelhança com factos recentes da política portuguesa é pura coincidência.
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O texto acima foi extraído de um dos mais geniais livros de Millôr: Fábulas Fabulosas, editado por José Álvaro - Rio de Janeiro, 1964.
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Millôr Fernandes, nascido no Rio de Janeiro a 16 de Agosto de 1923, é um desenhador, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor brasileiro.
Nasceu Milton Viola Fernandes, tendo sido registado, graças a uma caligrafia duvidosa, como Millôr.
Aos dez anos de idade vendeu o primeiro desenho para a publicação O Jornal do Rio de Janeiro, recebendo dez mil réis.
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Em 1938 começa a trabalhar como repaginador, factótum e contínuo no semanário O Cruzeiro.
No mesmo ano ganha um concurso de contos na revista A Cigarra (sob o pseudónimo de "Notlim").
Assumiria a direção da publicação algum tempo depois, onde também publicaria a secção "Poste Escrito", agora assinada por "Vão Gogo".
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Em 1941
volta a colaborar com a revista O Cruzeiro, continuando a assinar como "Vão Gogo" na coluna "Pif-Paf".
A partir daí passa a conciliar as profissões de escritor, tradutor (autodidacta) e autor de teatro.
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Dispensa o pseudónimo "Vão Gogo" em 1962, passando a assinar "Millôr" em seus textos n'O Cruzeiro.
Deixa a revista no ano seguinte, por conta da polémica causada com a publicação de A Verdadeira História do Paraíso, considerada ofensiva pela Igreja Católica.
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Em 1964
passa a colaborar com o jornal português Diário Popular.
Em 1968 começa a trabalhar na revista Veja, e em 1969 torna-se um dos fundadores do jornal O Pasquim.
Nos anos seguintes escreveria peças de teatro, textos de humor e poesia, além de voltar a expor no Museu de Arte Moderna do Rio.
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Traduziu, do inglês e do francês, várias obras, principalmente peças de teatro, entre estas, clássicos de Sófocles, Shakespeare, Molière, Brecht e Tenessee Williams.
Depois de colaborar com os principais jornais brasileiros, retorna à Veja em Setembro de 2004
(Extraído e adaptado de Wikipédia).
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