quarta-feira, 20 de maio de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "A Ilustre Casa de Ramires" (Eça de Queiroz - Portugal)


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“Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor-de-rosa, trabalhava.
Gonçalo Mendes Ramires (que naquela sua velha aldeia de Santa Ireneia, e na vila vizinha, a asseada e vistosa Vila-Clara, e mesmo na cidade, em Oliveira, todos conheciam pelo “Fidalgo da Torre”) trabalhava numa novela histórica, “A Torre de D. Ramires”, destinada ao primeiro número dos “Anais de Literatura e de História”, revista nova, fundada por José Lúcio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do Cenáculo Patriótico, em casa das Severinas.
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A livraria, clara e larga, escaiolada de azul, com pesadas estantes de pau-preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas de carneira, grossos fólios de convento e de foro, respirava para o pomar por duas janelas, uma de peitoril e poiais de pedra almofadados de veludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente perfumada pela madressilva, que se enroscava nas grades.
Diante dessa varanda, na claridade forte, pousava a mesa – mesa imensa de pés torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e atravancada nessa tarde pelos rijos volumes da “História Genealógica”, todo o “Vocabulário” de Bluteau, tomos soltos do “Panorama”, e ao canto, em pilha, as obras de Walter Scott, sustentando um copo cheio de cravos amarelos.
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E daí, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes Ramires, pensativo diante das tiras de papel almaço, roçando pela testa a rama da pena de pato, avistava sempre a inspiradora da sua novela – a Torre, a antiquíssima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que em redor crescera, com uma pouca de hera no cunhal rachado, as fundas frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoura bem cortadas no azul de Junho, robusta sobrevivência do Paço acastelado, da falada honra de Santa Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meados do século X.
Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse severo genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuíno e antigo fidalgo de Portugal. (…)” (*)
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(*) - A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz (1845-1900) - Edição de "Livros do Brasil", Lisboa, s/d.
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Actualmente publicado por Porto Editora (€ 7,29) e Editorial Presença, Lisboa (€ 12,47).
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Disponível na Biblioteca Nacional de Lisboa (Cota ---> L. 45696 V.)
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