domingo, 19 de abril de 2009

Receita de Mulher (Vinicius de Moraes - Brasil)

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As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja
qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
em tudo isso
(ou então
que a mulher se socialize elegantemente
em azul,
como na República Popular Chinesa).
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Não há meio-termo possível.
É preciso
que tudo isso seja belo.
É preciso que súbito
tenha-se a impressão de ver
uma garça
apenas pousada
e que um rosto adquira
de vez em quando
essa cor só encontrável
no terceiro minuto da aurora.
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É preciso que tudo isso seja sem ser,
mas que se reflicta e desabroche
no olhar dos homens.
É preciso,
é absolutamente preciso,
que tudo seja belo e inesperado.
É preciso que umas pálpebras cerradas
lembrem um verso de Eluard
e que se acaricie nuns braços
alguma coisa além da carne:
que se os toque
como ao âmbar de uma tarde.
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Ah, deixai-me dizer-vos
que é preciso
que a mulher que ali está
como a corola ante o pássaro
seja bela
ou tenha pelo menos um rosto
que lembre um templo
e seja leve
como um resto de nuvem (...)
.
(...) Pés e mãos devem conter
elementos góticos
discretos.
A pele deve ser fresca
nas mãos,
nos braços,
no dorso
e na face
Mas que as concavidades
e reentrâncias
tenham uma temperatura nunca inferior
a 37 graus centígrados
podendo eventualmente
provocar queimaduras do primeiro grau.
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Os olhos,
que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta
quanto a da Terra;
e que se coloquem sempre para lá
de um invisível muro da paixão
que é preciso ultrapassar.
Que a mulher seja em princípio alta
ou, caso baixa,
que tenha a atitude mental
dos altos píncaros.
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Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que,
se fechar os olhos,
ao abri-los
ela não mais estará presente
com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha;
parta, não vá
E que possua uma certa capacidade
de emudecer subitamente
e nos fazer beber
o fel da dúvida.
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Oh, sobretudo,
Que ela não perca nunca,
não importa em que mundo,
não importa em que circunstâncias,
a sua infinita volubilidade de pássaro;
e que acariciada no fundo de si mesma
transforme-se em fera
sem perder sua graça de ave;
e que exale sempre
o impossível perfume;
e destile sempre
o embriagante mel;
e cante sempre
o inaudível canto
da sua combustão;
e não deixe de ser nunca
a eterna dançarina do efémero;
e em sua incalculável imperfeição
constitua a coisa mais bela
e mais perfeita
de toda a criação inumerável.
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Vinicius de Moraes - Brasil (1913-1980) - Receita de Mulher (Extracto)
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