terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

"Gil Eannes" - O "Navio-Mãe da Frota Branca" Resistiu!

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Há mais ou menos trinta anos, na década de 1980, o outrora magnífico Gil Eannes jazia como podem ver acima, defronte da cidade de Lisboa.
Andava errante e escorraçado, de sítio em sítio, imprestável, abandonado, aparentemente condenado a um fim indigno da meritória carreira que construíra em mares longínquos - entre gelos mortíferos, tempestades tropicais e gente remota …
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O Gil Eannes caía literalmente aos pedaços, enferrujando centímetro a centímetro as suas insígnias, o seu casco lendário e os seus interiores, que tinham salvo vidas e abrigado sonhos.
Como um fardo inútil, foi sendo empurrado de cais em cais, até se imobilizar no Cais da Rocha, onde o venderam, para abate, à empresa Baptista & Irmãos, Lda.
O Gil Eannes, exausto, estava, de facto, à beira do fim, sentenciado a desaparecer de vez sob a investida das máquinas trituradoras dos sucateiros…
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O Gil Eannes actual (ancorado no porto de Viana do Castelo - Portugal) (1)
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Até que ocorreu o milagre!
Salvo pela gratidão e pela sensibilidade das pessoas, o navio estava já em Alhos Vedros quando a Comissão Pró Gil Eannes o foi buscar para ser rebocado até aos estaleiros de Viana do Castelo, no Norte de Portugal, onde ele nascera em 1955.
Aí o recuperaram, milímetro a milímetro, peça a peça, memória a memória. Insuflaram-lhe a vida antiga, tornando-o de novo altivo e acolhedor como sempre fora.
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O Gil Eannes actual (ancorado no porto de Viana do Castelo - Portugal) (2)
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A Comissão deu entretanto lugar à Fundação Gil Eannes, actual proprietária do navio.
E este, ancorado no antigo porto comercial de Viana do Castelo, tornou-se num Museu flutuante, que abriu as portas ao público em Agosto de 1998 (pode ser visitado nos horários que abaixo se indicam).
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As antigas enfermarias, de que o Gil Eannes dispunha, foram recuperadas por forma a poderem transformar-se numa Pousada da Juventude, com 65 camas disponíveis e uma acolhedora sala de convívio (serviço concessionado à Movijovem).
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O Gil Eannes actual (ancorado no porto de Viana do Castelo - Portugal) (3)
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Um Pouco de História
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O Gil Eannes foi construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (Portugal).
Pronto em 1955, constituiu sem dúvida o maior desafio que até então se colocara à empresa desde o início da sua actividade, onze anos antes.
Foi projectado pelo Eng.º Vasco Taborda Ferreira para ser um navio-hospital de apoio à frota bacalhoeira portuguesa que operava nos distantes mares do Norte, nas águas da Gronelândia e da Terra Nova.
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Casa do leme (1)
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O Gil Eannes, na sua primeira viagem (1955), iria assistir uma frota pesqueira de 70 unidades, com um total de tripulações que ultrapassavam os 5000 homens.
Repetiria a missão, com imenso mérito, nos 18 anos seguintes, acabando por tornar-se conhecido, entre os que apoiava, pela gloriosa e significativa designação de Navio-Mãe da Frota Branca.
Também lhe chamavam a Misericórdia do Mar.
Muito justificadamente, tais eram as condições de indizíveis dificuldades que padeciam os nossos pescadores nessas águas impiedosas.
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Casa do leme (2)
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O Gil Eannes era, pois, um hospital flutuante. Mas não se reduzia a isso, como iremos ver.
Tinha um comprimento total de 98,40 metros, uma boca de 13,70 m e um calado de 5,50 m.
Possuía dois motores, que lhe podiam dar uma velocidade de 14,3 nós.
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Estava equipado com dispositivos contra incêndios, de que se destaca um sistema automático de inundação por meio de chuva, e um outro para alagamento dos porões de carga com gás carbónico, tudo associado a um equipamento de detecção de fumos.
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Possuía ainda um sistema de ventilação bastante evoluído, com uma caldeira que permitia uma temperatura ambiente de 18º C.
O casco estava reforçado para a navegação em mares com gelo.
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Casa das máquinas - O coração do navio (1)
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Composto por 3 pavimentos devidamente apetrechados para todas as situações hospitalares, a sua capacidade permitia-lhe receber, em condições de normalidade, até 70 doentes.
No primeiro pavimento estavam instalados os gabinetes de consulta e de radiologia, apetrechados com o material mais moderno da época.
Dispunha de salas de espera e tratamento, câmara escura, enfermarias completamente isoladas para doentes infecto-contagiosos, camarotes para dois médicos, capelão e biblioteca.
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Casa das máquinas - O coração do navio (2)
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No segundo pavimento ficavam uma enfermaria para oficiais, outra para doentes em observação, com os respectivos serviços sanitários, e a enfermaria geral com 40 camas separadas por divisórias, servidas por largas janelas que davam a possibilidade aos doentes de assistirem dos seus leitos à celebração da missa.
Este pavimento dispunha também dos alojamentos dos enfermeiros, sala dos curativos e gabinete do enfermeiro de vela.
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Casa da rádio - TSF
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No terceiro pavimento localizava-se o bloco operatório e de ortopedia, constituído por ampla sala de operações, apetrechada do necessário material, salas de desinfecção e esterilização, gabinete de agentes físicos e laboratório de análises.
Os três pavimentos ligavam-se por amplas escadas e elevador com maca para transporte de doentes.
Em eventual situação de emergência, a lotação do navio podia ser “esticada” até aos 320 doentes.
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Consultório médico
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O Gil Eannes dispunha de local de culto.
Para além da capela da enfermaria, possuía uma capelinha que abria a toda a largura da tolda, onde sobressaía um artístico painel a óleo, da autoria do pintor Domingos Rebelo, representando ao centro Nossa Senhora dos Mares e tendo aos lados um pescador e um grupo familiar.
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Sala de operações
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A assistência prestada pelo navio era magnífica e totalmente gratuita.
Se o enfermo fosse pescador de um navio de pesca à linha, recebia como pagamento, durante o período de internamento, uma quantia calculada segundo a média capturada pelos companheiros do navio a que pertencia.
Os cuidados humanitários eram prestados aos pescadores (e demais tripulantes) de qualquer navio que actuasse naquelas paragens da Terra Nova e da Gronelândia, fossem eles espanhóis, franceses, italianos, alemães, russos, ingleses ou das Ilhas Faroé…
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Sala de esterilização
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Embora concebido e preparado como navio-hospital, o Gil Eannes foi “pau para toda a obra”.
Actuou como navio-capitania (com um oficial da Marinha de Guerra a bordo, o qual, no desempenho de funções de Capitão do Porto, tratava dos casos de (in)disciplina relativos a todas as tripulações da frota pesqueira nacional).
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A vida a bordo dos navios da frota pesqueira era muito difícil, quase sempre penosa.
Os momentos de lazer – nas poucas horas que sobravam entre o sono, a pesca e o amanho do bacalhau – passavam-se vendo filmes e jogando as cartas.
Uma rara distracção era uma visita a St. John’s, onde as populações terranovenses acarinhavam esses sacrificados do mar que eram os nossos pescadores.
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Cozinha
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O Gil Eannes funcionou também como navio-correio, recebendo e distribuindo as correspondências e encomendas dos homens da frota.
Em cada campanha manuseava-se a bordo cerca de um milhar de encomendas recebidas em Lisboa para os navios e suas tripulações e encaminhavam-se de setenta a oitenta mil cartas trocadas entre os pescadores e seus familiares.
Por vezes juntavam-se a bordo, para serem seladas, três a quatro mil cartas e tornavam-se necessários bastantes voluntários para ajudar o tripulante encarregado de tal serviço.
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Padaria
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O Gil foi ainda navio-abastecedor.
Os serviços de abastecimento aos navios da frota pesqueira eram efectuados sob as mais variadas condições de tempo e mar.
Durante a campanha distribuíam-se por esses navios cerca de 2000 quilos de isco congelado. Também se forneciam 400 toneladas de água potável e 250 toneladas de combustível.
Recebiam-se em terra e entregavam-se aos navios, nos seus locais de pesca, cerca de 90 toneladas de mantimentos e largas centenas de redes e malhas.
Desde equipamentos e farmácias, desde reparações eléctricas até reparações electrónicas – de tudo se fazia para facilitar a vida aos nossos pescadores.
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Sala de reuniões
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Outras meritórias funções do Gil Eannes: trabalhou como rebocador, salva-vidas e navio quebra-gelos. Quando um dóri ficava encalhado no gelo, o Gil seguia para o local, quebrando o gelo com o seu casco de aço, e abria o sulco de retorno ao barco sinistrado.
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Merece realce a assistência prestada ao navio Rio Antuã, que metia água pela proa. O Gil Eannes navegou cerca de 14 horas à frente do barco sinistrado, quebrando com a força das suas duas máquinas a muralha de gelo que lhe surgia pela frente e permitindo assim, em condições excepcionais, que o Rio Antuã chegasse a St. John’s sem novidade de maior.
Por tudo isto lhe chamavam o Navio-Mãe da Frota Branca.
E, também, a Misericórdia do Mar.
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Tempos de outrora - O Gil Eannes em alto-mar
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O Gil Eannes foi envelhecendo… Os tempos tornaram-se outros, com aquisições directas de bacalhau à Islândia e à Noruega.
A derradeira viagem do navio à Terra Nova ocorreu em 1973.
Ainda nesse ano fez uma viagem diplomática ao Brasil
Mais tarde rumaria à Noruega para de lá trazer bacalhau fresco nas suas câmaras de frio.
Também ajudou a trazer refugiados de Angola…
Depois foi sendo empurrado de cais em cais, como um objecto inútil.
Até que foi salvo, para nosso contentamento, por gente de engenho e coração...
O Gil Eannes resistiu!
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Tempos de agora - O Gil Eannes ao anoitecer de Viana do Castelo
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Visitas
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Horário:
Verão (de Abril a Setembro) das 9h00 às 19h00
Inverno (de Outubro a Março) das 9h00 às 17h30
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Aberto a visitas todos os dias incluindo sábados, domingos e feriados.
Preço:
Adultos e crianças com mais de 6 anos - € 2,00
Crianças com idades até aos 6 anos - Grátis
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O Gil Eannes como Pousada da Juventude
Camarote Duplo - de 22 € a 24 € por dia, consoante a época do ano
Camarote individual - 16 € durante todo o ano
Quarto múltiplo - 9 € a 10 € consoante a época do ano
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Reservas
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Navio Gil Eannes
+ 351 258 821 582
Central de reservas - 707 20 30 30
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Fontes do texto:
Arquivos da Torre
Mário Esteves (comandante do Gil Eannes entre 1959 e 1971)
Brito Ribeiro
Alberto Abreu
Fundação "Gil Eanes"
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Fotos:
Clube de Oficiais da Marinha Mercante
Pedro Prata
Rosa Pereira
Brito Ribeiro
Dias dos Reis
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