sábado, 14 de fevereiro de 2009

Aberturas de Grandes Livros - "Moby Dick" (Herman Melville - Estados Unidos)

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“Tratem-me por Ismael.
Há alguns anos – não interessa quantos – achando-me com pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e sem qualquer interesse particular que me prendesse à terra firme, apeteceu-me voltar a navegar e tornar a ver o mundo das águas.
É uma maneira que eu tenho de afugentar o tédio e de normalizar a circulação.
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Sempre que sinto um sabor a fel na boca; sempre que a minha alma se transforma num Novembro brumoso e húmido; sempre que dou por mim a parar diante de agências funerárias e a marchar na esteira dos funerais que cruzam o meu caminho; e, principalmente, quando a neurastenia se apodera de mim de tal modo que preciso de todo o meu bom senso para não começar a arrancar os chapéus de todos os transeuntes que encontro na rua – percebo então que chegou a altura de voltar para o mar, tão cedo quanto possível.
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É uma forma de fugir ao suicídio. Onde, com um gesto filosófico, Catão se lança sobre a espada, eu, tranquilamente, meto-me a bordo.
E não há nisto nada de extraordinário. Embora inconscientemente, quase todos os homens sentem, numa altura ou noutra da vida, a mesma atracção pelo Oceano.
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Vejam agora o que sucede com a vossa Manhathan, rodeada de docas como uma ilha do Índico cercada pela restinga de coral – o comércio envolve-a com a sua alta ressaca. À direita e à esquerda as ruas conduzem ao litoral. No extremo limite da cidade baixa encontra-se a Bateria, cujos nobres contrafortes são lavados pelas vagas e refrescados por brisas que poucas horas antes ainda sopravam no alto-mar. Observem a multidão que ali se junta para contemplar as águas.
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Dêem uma volta pela cidade numa sonolenta tarde de domingo. Vão de Corlears Hook para Coenties Slip, e daí, pelo Whitehall, dirijam-se para o Norte.
Que encontram?
Postados como sentinelas em toda a periferia da cidade, milhares e milhares de mortais contemplam, hipnotizados, o oceano.
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Uns apoiam-se às estacas; outros sentam-se na beira dos molhes; outros namoram o arcaboiço dos navios que vêm da China; alguns sobem até ao topo dos mastros para desfrutar uma perspectiva marinha ainda mais ampla.
É todavia gente ligada à terra, gente que passa os dias da semana entre quatro paredes de cal e gesso – amarrada aos escritórios, colada aos bancos, debruçada sobre as escrivaninhas.
Então porque se encontra aqui?
Já não existem os belos prados verdes?
Que força os arrasta para este lugar? (…)”
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Moby Dick - Herman Melville (1819-1891) - Publicado por Editorial Estúdios Cor, Lisboa, 1962.
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Informação adicional: obra disponível, actualmente, em edição da Relógio D'Água, Lisboa (€ 24,00)
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Também acessível na Biblioteca Nacional de Lisboa - (Cota ---> L. 17157 V.)
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