sábado, 10 de Janeiro de 2009

Admirável Mário Domingues: das pasmosas aventuras de Anton Ogareff e Billy Keller à incansável divulgação da História de Portugal

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Nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado, surgiram em Portugal uns livrinhos de aventuras extraordinárias, saídas da pena inspirada e prolífica de dois autores de nome inglesado (ou americanizado): Henry Dalton e Philip Gray.
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O enredo das histórias, aparentemente sem fim, versava sobre as realizações assombrosas de alguns aventureiros de diversa proveniência.
"A Volta ao Mundo por Dois Aventureiros", por exemplo, ficou a cargo de um belga (Roger) e de um checo (Alex)....
Calcorrearam os Himalaias, os gelos polares, etc.
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Anton Ogareff, o russo, protagonizava as "autênticas façanhas do maior aventureiro eslavo" ...
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Billy Keller, O Rei do Far-West, era um caso à parte, pela consistência, densidade e dramatismo da sua existência.
Deixo acima a capa do livro em que emocionadamente travei o primeiro conhecimento com as suas aventuras movimentadíssimas - e que ainda hoje conservo: "Olho por Olho, Dente Por Dente", promessa um tanto inquietante mas de ressonâncias indiscutivelmente bíblicas.
Ao tempo, pareceu-me tudo muito bem...
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Órfão de pai e de mãe (mortos por facínoras sem alma), Billy Keller herdou o "Rancho dos Ecos" e cresceu vigorosamente para uma vida aventurosa sem par, passada, entre perigos múltiplos, nas imensas pradarias da América ou nos corredores labirínticos das suas montanhas, lá, no oeste longínquo...
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Havia índios bons e índios maus. Entre os bons sobressaíam - cito de memória - o Artmu e o Palapan. Obedeciam ao nobre Chefe Condor, amigo e aliado de Billy no combate aos perversos daquelas histórias.
O chefe dos índios maus era o escorregadio e crudelíssimo Garra Adunca, cumpliciado com um dos maiores patifes brancos que alguma vez se lobrigaram por tais paragens: o nefando Big Jackson, velhaco sem pingo de consciência nem réstia de comiseração pelas suas vítimas...
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Até que um dia, muito tempo depois, apurei que Henry Dalton e Philip Gray não eram ingleses nem americanos. Mais: nem sequer existiam.
O autor - o verdadeiro, solitário e denodado autor - daquelas histórias era um português, mestiço, humilde, trabalhador e talentoso, a quem se ficou a dever, já sem cobertura de qualquer pseudónimo,  um enorme esforço de divulgação da História de Portugal, em estilo aprazível e documentado.
Era Mário Domingues (n. 1899 - f. 1977).
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Foram dezenas de "Evocações Históricas", a maior parte delas editadas pela Livraria Romano Torres ("Casa Fundada em 1885"), de saudosa memória...
Evocações incluídas na "Série Lusíada", tais como as de D. Afonso Henriques - D. Dinis e Santa Isabel - O Marquês de Pombal (cujas capas aqui ficam)...
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... mas houve muitas mais, como:
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Inês de Castro na Vida de D. Pedro - A Vida Grandiosa do Condestável - O Infante D. Henrique - D. João II - D. Manuel I - D. João III - Camões - D. Sebastião - O Cardeal D. Henrique - O Prior do Crato Contra Filipe II - A Revolução de 1640 - D. João IV - O Drama e a Glória do Padre António Vieira - D. João V - Bocage - Fernão Mendes Pinto - Fernão de Magalhães - D. Maria I - Liberais e Absolutistas - O Regente D. Pedro - Grandes Momentos da História de Portugal...
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Custa a crer como arranjou este homem (de mil ofícios) tempo, inspiração e disposição para reunir e tratar a documentação necessária a obra tão extensa e meritória.
Aqui se deixa, em justa homenagem, um extracto do que sobre ele se divulgou na lombada de uma destas publicações.
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"Mário Domingues nasceu na Ilha do Príncipe, numa roça denominada "Infante D. Henrique".
Contando apenas dezoito meses de idade, trouxeram-no para Portugal e confiaram-no a sua avó paterna, que se encarregou da sua educação.
Fez seus estudos em Lisboa, revelando desde muito novo vocação para as Artes e para as Letras.
Contrariado, enveredou pela carreira do Comércio, chegando a ser ajudante de guarda-livros e correspondente de Inglês e de Francês.
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Mas consagrava todos os seus ócios ao estudo de problemas literários e artísticos.
Aos dezassete anos publicou as primeiras tentativas de ficção numa efémera revista de estudantes de Medicina (a "Alba"), apresentada pelo doutor Júlio Dantas..
Aos dezanove, porém, o seu nome começou a surgir com frequência a assinar contos e crónicas num jornal diário de Lisboa.
E em breve se tornou jornalista profissional, ascendendo a Chefe de Redacção e director de alguns jornais.
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Como crítico de Pintura, nos anos Vinte, distinguiu-se pelo ardor com que defendeu os Modernistas, então desdenhados pela opinião pública.
Unindo-se a Fernando Pessoa, José Bocheko, Vítor Falcão, António Ferro e outros batalhadores pela renovação da arte em Portugal, teve a coragem de proclamar o excepcional valor de "proscritos" como Almada Negreiros, Eduardo Viana, António Soares, Jorge Barradas e Lino António.
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Um dos momentos decisivos da vida de Mário Domingues ocorreu quando ele resolveu manter-se unicamente com o produto dos seus livros.
Esta audácia custou-lhe o ter de dissimular-se sob diversos pseudónimos estrangeiros, com os quais assinou mais de uma centena de romances policiais e de aventuras extraordinárias.
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Durou alguns anos este trabalho árduo, mas o escritor queria voar um pouco mais alto.
Conhecendo os homens do seu tempo, abalançou-se a descrever os de outrora, tal como os visionou no "clima" social, político e religioso em que viveram.
E assim nasceu esta "Série Lusíada", que atingiu um êxito invulgar para o nosso meio.
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Em atenção ao valor da sua obra de divulgação histórica, dignou-se o senhor Presidente da República agraciá-lo com o grau de Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada, destinada a distinguir individualidades de relevo nas Ciências, nas Artes e nas Letras".
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Nota - Após décadas de pesado e injusto silêncio, a obra (histórica) de Mário Domingues começou - em boa hora - a ser reeditada pela Prefácio.
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7 comentários:

Zé Kahango disse...

Indiquei o seu excelente blogue para o Prémio Dardos.

Por Mares Já Dantes Navegados disse...

A RTP Memória passou no outro dia um pequeno documentário dos anos 70sobre Mário Domingues, na série "Um Dia Com".

tojam disse...

Confesso que desconhecia este prolixo autor.
Foi pelo canal História, que gravei a partir do momento que me apercebi da importância deste autor, já aqui referido, que tive conhecimento deste vulto de Portugal.
A minha homenagem ao senhor e queria parabenizar o autor deste blog.
O meu muito obrigado!
Googlei-o e surgiu com a naturalidade de quem teria que surgir.No entanto, não vi qualquer informação biográfica na wikipédia,
o que é de lamentar.
O homem que quis viver só da escrita criativa; que iniciou a série Lusíada - biografias de grandes vultos históricos de Portugal; que teve que pseudonimizar-se - tudo o que é estrangeiro é que era bom! - para publicar banda desenhada. Ele próprio especialista em pintura, que fazia crítica.
Apercebeu-se do valor do então desenhador Almada Negreiros.
Porventura, eu próprio li as suas aventuras. A reportagem que fez de pedinte, a da Mitra, sendo inclusive preso.
Oficial da Ordem de Santiago e Espada.
Com obras no prelo, A revolução de 1640, segundo a entrevista de 1979.
Que ficava duas a três semanas em casa, como ele próprio referiu em 1979, ainda muito bem conservado sem sair à rua, apenas amarrado ao seu trabalho, como ele referiu.
Não tendo que obedecer a regras, a não ser as suas.
"O pior patrão que se pode encontrar é aquele que descobrimos em nós próprios".

Sara disse...

Boa tarde. Queria agradecer esta informação e avisar que a citei na rede social GoodReads.com para poder deixar um registo na entrada sobre este autor.

Obrigada.

Anónimo disse...

Respeitar o homem que foi Mário Domingues e o seu percurso de vida é uma coisa. Aprová-lo como historiador, é outra. A forma como, deliberadamente ou não, caluniou algumas personagens da nossa História e a forma como exagerou certos acontecimentos (desde a glorificação de feitos que, afinal, não foram assim tão épicos, até a um enorme exagero quando fala da Inquisição) fazem dele um autor demasiadamente marcado peolo exagero tragico-romântico que pautou certos autores do passado (p. ex. Herculano) e cuja obra deve ser mais alvo de cautelas do que uma verdadeira referência. E o pior é que, tal como Herculano, fez escola...

Anónimo disse...

Boa tarde,

Comprei por curiosidade " O menino entre gigantes" e fiz uma fantástica descoberta! Estou a gostar muito, particularmente porque o escritor nasceu e morreu, mais ou menos, com a idade dos meus avós paternos e é muito curioso ler a descrição da Lisboa deles, hábitos e costumes da época, embora ambos morassem em Campo de Ourique e o meu avô tivesse lá o seu negócio, herdado do pai dele, mármores e cantarias na rua Ferreira Borges 105 mesmo ao lado do Montepio, que nos comprou o prédio quando a firma fechou.
Maria do Carmo Torres

kindia Lima disse...

Boa noite,

Soube hoje por um amigo que respeito imenso que o escritor Mário Domingues é natural de S.tomé e Príncipe, fiquei muito curiosa e vim pesquisar, agradeço e fico feliz como santomense a homenagem feita ao escritor.

Kindia Lima