domingo, 2 de novembro de 2008

Coimbra, Janeiro de 1355 - O Fim de Inês de Castro


(Afonso IV diante de Inês de Castro -Quadro de Columbano Bordalo Pinheiro)
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"(...) Afonso IV, perante os cenários que assim se lhe vão futurando, continua a hesitar por algum tempo. Mas, nos começos de Janeiro de 1355, mais ou menos um mês depois de Pedro de Castela se ter escapado de Toro, ele convoca o conselho para Montemor-o-Velho. Desta vez - muito provavelmente devido à confusão política que lavra no reino vizinho, a qual se teme possa alastrar a Portugal -, o rei tenciona abor­dar o caso em termos urgentes e finais. Ele tolerou o desafio da paixão de Pedro durante cerca de uma década, mas, agora, já não se acha na disposição de contemporizar.
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Diz-se que foi um julgamento o que em Montemor se realizou. Porém, neste julgamento de uma mulher ausente e desprevenida, onde comparece gente das justiças reais e onde se enfileiram, uma após outra, as tremendas vozes de acusação, não consta que haja soado uma única frase de defesa. Inês de Castro torna-se culpada no mesmo instante em que a tomam por ré e, num relâmpago, sofre a condenação fulminante.
Segundo as veneráveis razões de Estado, que são cegas e insensíveis, e que, portanto, deslizam sempre por linhas desempenadas e inclementes, ela é culpada de amar erradamente. Amou o homem errado, no país errado, no tempo errado. E a sua culpa fez-se irremediável no momento em que se viu por igual erradamente retribuída no seu amor.
Em Montemor-o-Velho, Inês é, portanto, declarada culpada. E por culpas de um tal crime ordenam as ditas razões de Estado que se execute sen­tença de morte. Está tudo visto, revisto e resolvido. Que morra, então, como criminosa de amor que é, Inês Pérez de Castro, Colo de Garça, lindíssima filha da Galiza, para descanso e salvação da terra lusitana.
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No dia 7 de Janeiro de 1355, Afonso IV sai para Coimbra com muita gente armada, com alguns conselheiros, com o meirinho-mor e com o carrasco. O momento foi escolhido com cuidada premeditação: Pedro ausentou-se dos paços de Santa Clara para as suas caçadas e o caminho surge desimpedido.
Alvitram alguns que a marcha se deve ter feito pelo alvorecer deste funesto dia de Inverno. É muito possível, pois o bando que assim se acerca dos campos rasos da margem esquerda do rio parece empenhado em passar despercebido. O movimento sorrateiro faz mais lembrar uma investida de salteadores do que a marcha compenetrada dos executores de uma sentença judicial. Há discrição e silêncio, e não se lança o pregão público das culpas.
Afinal, de que forma se poderia denunciar aos povos o crime de uma paixão?
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Em poucos instantes o grupo acha-se diante das casas de Santa Clara e alguém chama pelos de dentro. A partir desta altura os pormenores perdem nitidez. De acordo com os velhos cronistas, Inês, avisada, assoma num sobressalto à porta, e aqui, dando com a face rígida e determinada do rei, olha-o com o rosto de mulher que vê a morte presente.
É de facto uma mensagem fatal a que ela lê neste semblante fechado e sinistro, desprovido de comiseração. E diz-se que, na aflição, transida de pavor, nada mais consegue fazer do que interpor entre si e os recém-chegados, como pungente e frágil barreira, a inocência espantada dos seus filhos, e com tantas lágrimas e com palavras assim piedosas pede misericórdia e perdão a el-rei.
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Há quem hoje se obstine em rejeitar este quadro, argumentando que a cena é inverosímil, que as coisas não ocorriam assim, que as sentenças tinham forma própria de execução: portanto, desprezando os cronistas, excluem Afonso IV desta alvorada de morte nas margens do Mondego. Contudo, esmiuçando os factos, o que sobressai é exactamente o modo como tudo encaixa nesta história tal como a escreveram os antigos. O próprio rei, de resto, confirmará mais tarde a sua presença no local.
Ponderemos a gravidade da sua decisão. Ele não sentenciou um súbdito qualquer. A mulher que ele quer matar é mãe de três netos seus e companheira única, talvez esposa legítima, do seu filho e herdeiro, isto é, do homem que não tardará a tomar conta do Reino.
Por tudo isto, a presença do soberano em Santa Clara torna-se obrigatória, serve para proteger os conselheiros e os oficiais de justiça, porventura não tanto de um regresso inesperado do infante, mas daquilo que pode ser a futura reacção deste.
Comparecendo nestes paços o rei atrai sobre si a responsabilidade do gesto assassino e afasta dos outros a culpa, ou, pelo menos, a culpa maior.
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Quanto ao temperamento necessário para suportar um choque destes, é coisa que lhe não falta. Recordemos a fereza brutal deste bravíssimo varão, para quem as razões de Estado, não sendo tudo, sempre pareceram quase tudo.
Ele continua a ser o mesmo das aventuras tortuosas de Magacela, quando com outros se combinava para aniquilar os do próprio sangue. Este rei foi na juventude aquele infante que se alimentou de um ódio mortal por seus irmãos, é a mesma criatura que não teve uma centelha de piedade para com o pai já exausto, à beira do túmulo, forçando-o a abdicar dos seus afectos e do gosto de viver.
Este homem ordenou a morte de um irmão, escorraçou outro para um exílio ácido, lançou por ciúmes o Reino numa sangrenta guerra de família, incendiou as fronteiras com o país vizinho para vingar a infelicidade conjugal da filha.
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Umas vezes com alguma razão, outras nem tanto, Afonso é sempre Afonso - o mesmíssimo ente que neste momento se acha em Santa Clara de Coimbra, com o rosto esculpido numa impiedade granítica, diante da filha de Pedro de Castro, seu parente e companheiro de juventude.
Colo de Garça continua desfeita de terror, provavelmente agarrada aos filhos, que formam a cândida defesa que a separa da morte. Com Pedro ausente, postada diante do velho implacável, junto de quem mais poderia ela buscar salvação?
Afonso não despega da vítima os olhos assustadores. Insistamos: ele pertence àquela estirpe de seres que, quando servem uma causa que julgam superior, se despedem quase em absoluto da sua humana condição. Nesta espécie de gente, um homem de mando que se confesse sentimental ou é um fingidor, ou um falhado ou um mestre da demagogia.
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Apesar de tudo, tais personagens apresentam às vezes, algures, algumas fendas nas suas couraças. Por exemplo, este rei que aqui temos - e que é tudo aquilo que atrás vimos - também não se reduz a um monstro completo de insensibilidade. Palpita nele, ainda, uma fibra humana. Minúscula, abafada, reprimida, mas palpita. E, nesta hora excruciante de Santa Clara de Coimbra, esse fio de humanidade acaba por dar sinal de si, talvez acordado pela visão das crianças apavoradas.
Eis um percalço que ninguém previu em Montemor. O rei abana, mostra jeitos de retroceder. Os conselheiros percebem-lhe a indecisão. E assustam-se. Que será deles se as coisas ficarem por aqui, poupando-se esta mulher que os soube ali, em sua casa, espicaçando o rei no seu desígnio homicida? Quem os poderá livrar do castigo do infante - que já é quase rei - e da revolta de Inês, que, sobrevivendo, ninguém tem dúvidas de que se tornará um dia rainha? Como reagirá Pedro se pela boca da sua amada alguma vez tomar conhecimento da verdade?
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No rei coexistem por instantes dois impulsos – o de uma ténue e secreta vulnerabilidade, que o põe à beira de ceder à emoção, e o da pública impiedade, decorrente de deveres que o transcendem e que não lhe autorizam a clemência.
Nestes poucos segundos, mais do que a sorte da formosíssima amante de um príncipe, jogam-se em Santa Clara os destinos de um país. Não haja dúvida de que uma Inês sobrevivente dará origem, neste canto ibérico, a um Portugal diverso daquele que outros parentescos e gerações aqui poderão edificar.
Quando Afonso IV vira, enfim, as costas à condenada, assediam-no os conselheiros e os homens de justiça que o acompanham, mortos de apreensão por aqui terem vindo para nada. Imploram que o rei cumpra o que resolveu em Montemor-o-Velho, que cumpra tudo para salvar o Reino e, talvez mais do que isso, para os salvar a eles. Fixem os nomes dos principais, porque cedo tornarão a ouvir falar deles. Meirinho-mor: Álvaro Gonçalves. Conselheiros: Pero Coelho e Diogo Lopes Pacheco.
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Afonso recua, distancia-se da visão atroz do pavor de Inês. Mas, assim que o faz, acaba por escolher os caminhos de Pilatos. Ele foge da desgraça que criou, não lhe põe fim. O que ele diz aos que o rodeiam é o que eles querem ouvir, é o assentimento, a confirmação daquilo que em Montemor-o-Velho se firmou. Enquanto foge, consente. Seja o que for que ele tenha realmente dito aos conselheiros, foi como se lhes ordenasse: Vão e façam o que quiserem.
Procedendo deste modo o rei transfere culpas, perde autenticidade, diminui-se. E os seus companheiros, provavelmente com ele já ausente - como um criminoso arrependido -, invadem este ninho de amor transformado em câmara de execução e, porventura dali retiradas as crianças, deitam as mãos precipitadas e nervudas à condenada.
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Inês parece ter-se debatido, num último e desesperado apego à vida. Mas a sua resistência, se existe, é breve e baldada, porque o único ser que lhe poderia valer anda longe e ignorante de que aqui, com a vida dela, o que lhe tiram a ele é também a vida e, sobretudo, o siso. Agarram-na, sujeitam-na, oferecem-na ao carrasco. Inês pertence já por inteiro a este mestre da morte, que lhe puxa para trás a cabeça e lhe expõe ao lampejo frio da lâmina assassina a finíssima garganta de alabastro. Tudo acaba na revolta brusca e impotente de uma cabeleira esvoaçante.
E Colo de Garça ali fica, caída, desfigurada e lívida, numa poça de sangue tépido, a dois passos das águas turvas e enregelantes do Mondego (...)" (*)
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(*) - José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - Lisboa - 2003.
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(Nota da Torre - Ao contrário do que muitas vezes se divulga, a história completa de Pedro e Inês não se encerra nesta cena cruenta nem nos míticos túmulos brancos de Alcobaça.
Na verdade, cerca de um século depois, os seus descendentes sentar-se-ão em todos os tronos cristãos da Península Ibérica.
Será assim em Castela, em Navarra, em Aragão e, quem diria, em Portugal...)
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