sábado, 4 de outubro de 2008

Namoro Angolano

Mandei-lhe uma carta
em papel perfumado
e com letra bonita
eu disse que ela tinha
um sorrir luminoso
tão quente e gaiato
como o sol de Novembro
brincando de artista
nas acácias floridas
espalhando diamantes
na fímbria do mar
e dando calor
ao sumo das mangas.
.
Sua pele macia - era sumaúma…
Sua pele macia, da cor do jambo,
cheirando a rosas,
sua pele macia
guardava as doçuras
do corpo rijo
tão rijo e tão doce -
como o maboque…
Seus seios, laranjas -
laranjas do Loje,
seus dentes… -
marfim…
.
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
Por ti sofre o meu coração
Num canto - SIM,
noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo,
pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro…
E ela disse que não.
.
Levei à Avó Chica,
quimbanda de fama,
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço
forte e seguro
que nela nascesse
um amor como o meu…
E o feitiço falhou.
.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar
e um anel
e um broche,
paguei-lhe doces
na calçada da Missão,
ficámos num banco
do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos…
falei-lhe de amor…
e ela disse que não.
.
Andei barbudo,
sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
“-Não viu… (ai, não viu…?)
não viu Benjamim?”
E perdido me deram
no morro da Samba.
.
Para me distrair
levaram-me ao baile
do Sô Januário
mas ela lá estava
num canto
a rir
contando o meu caso
às moças mais lindas
do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba -
dancei com ela
e num passo maluco
voámos na sala
qual uma estrela
riscando o céu!
E a malta gritou: “Aí Benjamim !”
Olhei-a nos olhos -
sorriu para mim
pedi-lhe um beijo -
e ela disse que sim.
.
["Namoro" - de Viriato da Cruz, poeta de Angola. Nasceu em Kikuvo (Porto Amboim) em 1928. Faleceu na China (Pequim) em 1973].

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