sábado, 16 de agosto de 2008

Mário Soares - A Monstruosidade Neoliberal


(...) Vale a pena insistir: o neoliberalismo, como ideologia e modelo da chamada "democracia liberal", esgotou-se.
Está a conduzir o Ocidente - e talvez o mundo - a uma crise do capitalismo pior do que a de 1929.
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Vale a pena insistir, porque muitos políticos, intelectuais e economistas, embora reconheçam a crise, que aí está a instalar-se, ainda pensam poder resolvê-la sem abandonar o modelo neoliberal, que afirma o primado do mercado sobre tudo o resto.
O que representa uma contradição insanável.
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Porque foi este modelo economicista, anti-social e anti-ambiental, que nos conduziu aonde estamos.
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O Courrier Internacional, no número que chegou a Lisboa sábado passado, anuncia em grandes letras na primeira página: "O regresso de Marx."
E, em subtítulo, escreve: "Como o século XXI repõe na actualidade o pensador do capitalismo."
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Com efeito, 2008 celebra o 190.º aniversário de Karl Marx e os 160 anos da publicação do Manifesto Comunista.
Depois do colapso do comunismo, em 1989-91, parecia que o mercado seria o centro do mundo e a sua bússola.
Chegou a confundir-se mercado e democracia.
Contudo, o capitalismo financeiro, especulativo e dito de casino, do séc. XXI, e o descalabro a que está a conduzir o Ocidente - e as desigualdades e exclusões sociais que provoca - suscitam uma nova reflexão sobre a obra de Marx (...).
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Seja, porém, como for - e o futuro próximo o dirá - à "democracia liberal" terá de suceder a democracia social e ambiental, com uma grande preocupação distributiva e socialmente inclusiva.
Se quisermos evitar revoltas graves e violentas, se não revoluções...
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É um caminho que passa pelo regresso em força aos valores éticos, ao respeito pelos Direitos Humanos, pela Lei, pelo Direito Internacional, pelo diálogo multicultural e inter-religioso, pelo respeito pelo outro e pelo direito à diferença, pela solidariedade e, sobretudo, pela paz.
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Porque não é o mercado - não obstante a sua importância para assegurar a liberdade individual - nem, muito menos, a economia que conduzem o mundo.
São as ideias.
Como há mais de um século escrevia o grande Antero de Quental, fundador do Partido Socialista, em 1875...
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(Mário Soares, no Diário de Notícias, de Lisboa, Portugal, em 22 de Julho de 2008).
Mário Alberto Nobre Lopes Soares, 83 anos, foi Primeiro-Ministro e Presidente da República de Portugal.

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