quinta-feira, 12 de junho de 2008

Pedro I de Castela e Leão (3.ª Parte) - O Fratricídio de Montiel



Em 1369, Pedro I de Castela e Leão está à beira do fim.
Sucessivamente derrotado pelas tropas do meio-irmão Enrique, conde de Trastâmara, o bastardo de Alfonso XI que encabeça a rebelião das irrequietas nobrezas castelhanas, ele está praticamente só, se descontarmos alguns fiéis que teimam em acompanhá-lo.
Perdeu João Afonso de Albuquerque, que se passou para o inimigo e que o combateu até à morte. Ficou sem a sua querida Maria de Padilla, falecida muito jovem. Enfrenta as nobrezas desleais, Aragão, o Papado, os mercenários da França comandados por Bertrand Du Guesclin.
Por fim, abandonado pelos aliados ingleses, acolhe-se a Montiel, para viver os seus últimos dias - até que se concretize o gesto ignóbil que iniciará em Castela a dinastia dos Trastâmaras.
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" (...) A partir deste ponto torna-se claro que os caminhos de Pedro de Castela só poderão ser curtos e céleres. Ao amanhecer de 14 de Março ele está com a sua gente - em que se integram aliados mouros de Granada - nos arredores de Montiel. As tropas acham-se dispersas e desprevenidas, e, quando por aqui surgem algumas forças de cavalaria do bastardo, o que se segue é mais uma escaramuça do que, propriamente, uma ba­talha. Mas deste pequeno recontro, que noutras circunstâncias não deixaria qual­quer traço nas memórias, vão nascer acontecimentos que marcarão a história da Península para sempre.
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Batido no choque insig­nificante, o rei legítimo acolhe-se às muralhas de Montiel e não tarda a descobrir, com os poucos fiéis que lhe restam, que o lugar se transformou numa ratoeira, sem condições de defesa e sem fuga possível. Pedro talvez se lembre do feliz desenlace de uma outra situação espinhosa - em Toro, catorze anos antes. Mas em Toro os seus opositores eram homens cerimoniosos e moderados, apesar de tudo dispostos a respeitá-lo. Aqui, em Montiel, os sitiantes fecham as mãos nos punhos das espadas e acham-se mais do que determinados a derrubá-lo, vivo ou morto, do seu trono. Enrique de Trastâmara percebe que tem o desfecho à vista, levanta barreiras de pedregulhos em torno das muralhas e manda que se empeçonhe a água que abastece o castelo. Assim que os víveres começam a faltar e se assinalam deserções, torna-se inviável a própria sobrevivência no reduto.
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Quando tudo parece perdido, brilha em Montiel um clarãozinho de espe­rança. Por secretas conversações com o mercenário Bertrand Du Guesclin, acredi­ta-se que será possível fazer evadir Pedro a troco de gordas compensações.
Na noite de 22 para 23 de Março de 1369, acompanhado de um grupo restrito de fiéis - entre os quais Fernando de Castro, Diego González de Oviedo, Men Rodríguez de Sanabria, Fernández de Villodre e Fernán Alfonso de Zamora -, o soberano deixa a relativa segurança do castelo. Mas, ao invés de uma tra­vessia das linhas de cerco em direcção aos campos dos arredores, o grupo é furtiva e estranhamente encaminhado, pelo meio das trevas, até à tenda de campanha de Du Guesclin.
Quando o rei pressente a cilada e se apresta para retirar dali, irrompe da escuridão, à entrada da tenda, a figura baixa de Enrique de Trastâmara, de bacinete na cabeça, armado até aos dentes. O bastardo não se avista com o irmão há muitos anos, custa-lhe identificá-lo na penumbra, e, por isso, interroga - como se fosse ele o soberano autêntico e o outro o usurpador: Onde está D. Pedro, que se chama rei de Castela?
Alguém o previne, apontando o rei legítimo, que aquele é o seu inimigo. E é neste instante que Pedro, num brutal assomo de nervos, salta raivoso sobre Enrique e se põe aos gritos: Sou eu! Sou eu!
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Um rei é e será sempre um rei. E este que aqui está, a urrar de ódio e de cólera, bate-se com bravura, até ao fim, pelo seu trono. Rolam caídos e engalfinha­dos, como feras, os dois filhos de El Onceno. Nestes se­gundos de horror, a Coroa de Castela disputa-se aos tombos, numa luta assassina, pelo chão de uma tenda de mercenário. Parece por momentos que Pedro tem por si o destino, já se prevê que seja sua a punhalada final, mas adiantam-se os homens do usurpador, sujeitam o rei legítimo, soerguem-no, expõem-no descoberto e inde­feso diante do seu inimigo - e logo o braço deste desfere, num relâmpago, o golpe de adaga que põe termo a um turbulento reinado de dezanove anos.
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E com este fratricí­dio de Montiel se segura de vez em Enrique de Trastâmara a coroa que ele tanto ambicionou e pela qual combateu até ao gesto irremissível. Mas, porque um rei é sempre um rei, o sopro sagrado que lhe chega das gerações antigas varre até mesmo os pecados mortais do presente.
O soberano de Castela, que é, a partir de agora, único, encabeça as nobrezas senhoriais triunfantes e será futuramente acolhido em crónicas amáveis com o nome de Enrique II.
A memória do seu irmão-inimigo ficará entretanto retida em páginas severas e tenebrosas, onde os homens o evocarão, pelos tempos fora, como Pedro, o Cruel. (...)"
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(José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Editorial Estampa - Lisboa - 2003)

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