domingo, 20 de abril de 2008

A Grande Música de Manuel de Falla - "Noches En Los Jardines de España"

Manuel de Falla foi um dos compositores mais destacados do século XX, criador genial de peças envolventes, sensuais e misteriosas, poderosamente evocadoras dessa Espanha profunda e telúrica onde ele nasceu (Cádiz, 23 de Novembro de 1876).
Em criança estudou música com sua mãe e outros professores da sua cidade natal.
De 1905 a 1907 ensinou piano em Madrid, e entre 1907 e 1914 estudou e trabalhou em Paris.
No período que vai de 1914 a 1938 viveu e compôs, sobretudo, em Espanha. Em 1939 fixou residência na Argentina, onde faleceu em 14 de Novembro de 1946.

Sob a influência de Felipe Pedrell, defensor de que as bases da música de um país devem provir do seu próprio folclore, Falla desenvolveu um estilo claramente nacionalista, que caracterizou praticamente todas as suas composições.
Não obstante, não costumava utilizar as canções folclóricas espanholas de forma directa nos seus temas, incorporando, antes, o seu espírito.
Isso é particularmente perceptível na famosíssima "Dança Ritual do Fogo", do "Amor Brujo" (carregue aqui:
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Manuel de Falla foi o inspirador de um movimento contra a influência, no seu tempo, da música alemã e italiana na ópera espanhola e contra a esterilidade da música de câmara e orquestral que então imperava.
Entre as suas mais famosas composições contam-se Noches en los Jardines de España (1909-1915), para orquestra e piano, a ópera La Vida Breve (1913), com texto de Fernández Shaw, os ballets El Amor Brujo (1915) e El Sombrero de Tres Picos (1919), a Fantasía Bética para piano (1919), El Retablo de Maese Pedro (1924), o Concierto para Clave y 7 Instrumentos (1923-1926) y sica para Guitarra.

Sobre as fantásticas Noches En Los Jardines de España, transcreve-se parte de um artigo que Daniel Eisenberg lhes dedicou:
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"Os jardins espanhóis que interessavam a Falla eram todos andaluzes.
A peça foi o primeiro disco de música espanhola que possuí. Causou-me calafrios desde o primeiro momento.
Entre todas as peças do compositor, foi aquela cujo sentido mais me custou a encontrar, isto é, descobrir o que se passava de noite nos jardins de Espanha.
Manuel de Falla pinta um mundo formoso, emocional e violento, acaso perigoso, mas, por fim, aprazível e espiritual.
Segundo Joaquín Turina, esta é a obra mais triste de Falla, na qual ele expressa um drama íntimo.
Os três movimentos que a compõem são: "En los Jardines del Generalife"; "Una Danja Lejana" e "En los Jardines de la Sierra de Córdoba".
Os dois últimos movimentos tocam-se sem pausa. O dedicado ao Generalife foi para mim, desde o princípio, o mais compreensível, pois este é o jardim andaluz mais bem conservado.
O Generalife, o lugar mais agradável que conheço no planeta, foi um jardim dedicado ao amor e, ao mesmo tempo, constitui uma expressão dele. Segundo Santiago Rusiñol, "assim como há artistas que do amor fazem poesia, ou música ou obra de arte, houve quem do amor fizesse jardins, e foi o artista enamorado quem idealizou o Generalife". Naturalmente, não se trata do amor conjugal ou procriativo: foi "ninho de amores, mansão de sultana favorita, refúgio de reis, retiro acariciado pelo perfume das flores, os misteriosos sussurros do bosque e o murmúrio das fontes".
Ciprestes, frescura, exclusão dos ruídos do mundo. Tanques e cascatas, fontes, repuxos: água, flores e frutos por todo o lado. A água, símbolo da vida, foi o principal elemento decorativo. "Hoje mesmo, as suas ruínas possuem a vaga tristeza dos lugares que foram teatro de antigas felicidades, e tudo canta o prazer perdido, nessa linguagem muda das coisas que transportam consigo a recordação."
Falla teve interesse pela história andaluza. Os "Jardines de la Sierra de Córdoba" têm que ser os do eremitério de Ibn Masarra. Ibn Masarra foi o fundador do pouco conhecido sufismo espanhol. As danças violentas do terceiro movimento são certamente danças "sufies", danças místico-eróticas, danças que vão até Deus e até ao êxtase, que seriam uma e a mesma coisa. E a paz e o bem-estar com que o movimento termina são, à vez, inseparavelmente, sensuais e espirituais.
Naturalmente, uma obra assim deixou-me encantado, ainda que a não entendesse até há pouco tempo. Em "Noches en los Jardines de España", Falla passa do existente ao desaparecido, do presente ao passado, do amor humano ao amor divino, do leste ao oeste, de Granada a Córdoba, do último reduto do Islão hispânico à sua plenitude.
Recria um mundo apaixonado e apaixonante, não só desaparecido mas também oculto. A sua evocação musical contribuiu muito para que eu me dedicasse ao estudo da cultura hispânica. Mas as minhas aulas de literatura e história espanholas - nas quais a Espanha se identificou completamente com Castela - não me esclareceram.
Tive que descobri-lo à minha custa."
(E nós também o podemos descobrir carregando aqui: http://www.youtube.com/watch?v=7xdU2j8f_14
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