sábado, 19 de janeiro de 2008

Aljubarrota - O Dia de Nun'Álvares Pereira (A Invasão Castelhana de 1385)

"(...) Nun'Álvares manda no dia seguinte tocar as trombetas e, com a sua hoste - cerca de três mil soldados leais, quase todos alentejanos -, toma a direcção de Tomar, por onde ainda pensa que transitará o rei de Castela. Ele torna a ser o Galaaz das façanhas impossíveis, cavalga resolvido a enfrentar a Besta Ladradora mesmo que Percival e Palamades não venham ter com ele neste transe.
João de Avis, inteirado disto, fica aterrado. E resolve-se a contestar enfim a prudência dos conselheiros, dizendo-lhes, para os convencer, o que vem na Bíblia - às vezes, quando Deus Nosso Senhor quer, os poucos alcançam vencer os muitos. Depois, e como quase sempre sucederá nos grandes momentos do futuro, confia-se à genial impulsividade do condestável.
Levando o resto das forças, vai ter com ele a Tomar. Atrás do rei seguem os conselheiros timoratos que ainda há pouco procuravam escapar-se, por qualquer meio, ao poder letal de Castela. Vão decerto cheios de pessimismo, com o credo na boca. Mas vão. E o que mais espanta é ver este grupo de homens de letras e de negócio a deixarem-se conduzir na aventura pelo nervo, pela crença e pelos princípios senhoriais de um jovem e gen­eroso cavaleiro medieval. Galaaz já não cavalga só, e, doravante, o essencial da estratégia e das tácticas dos Portugueses passará pela sua cabeça.
Uma vez que o exército invasor continua a descair, no seu arco fugidio, para os lados do mar, a hoste portuguesa inflecte para noroeste numa clara diagonal de intersecção. De Tomar saem as tropas para Ourém e, daqui, para Porto de Mós, onde chegam a 12 de Agosto, no mesmo dia em que Juan I se instala nas redondezas de Leiria. Os dois exércitos estão separados por pouco mais de três léguas e as operações adquirem um ritmo apressado por banda dos Portugueses. A iniciativa está agora do seu lado e o condestável entrega-se a uma actividade friamente calculada. Tudo quanto ele faz, daqui em diante, visa dar razão às ci­tações bíblicas do seu rei: é preciso trabalhar para que, no instante crucial, os pou­cos se transformem em muitos e os muitos se transformem em poucos.
É isto que Nun'Álvares leva em mente quando, no domingo, 13 de Agosto, após a missa em Porto de Mós, cavalga com uma centena de homens pelos cabeços escalvados que ondulam, entre charnecas e riachos, na direcção de Leiria. Ante a passividade do inimigo, que descansa ali perto fiado no seu poderio, o condestável efectua o reconhecimento que lhe há-de permitir determinar onde, quando e como deverá ocorrer o contacto dos exércitos. Juan de Castela encara, a partir de Leiria, duas alternativas de progressão: ou baixa pelo caminho que, através de Porto de Mós, o pode conduzir a Santarém; ou, derivando ainda mais para ocidente, mete na direcção de Aljubarrota e de Alcobaça e procura alcançar direc­tamente Lisboa. Nun'Álvares empenha-se, neste domingo, em achar o local de es­pera onde qualquer das alternativas possa contrariar-se com eficácia. Quando re­torna com a escolta a Porto de Mós já leva a decisão amadurecida.
O rei João I, ouvido o condestável, concorda que soou a hora. Na segunda-feira, 14, toda a hoste se põe a pé muito cedo. Sob o azul alaranjado desta antemanhã de Verão, o acampamento, atravessado por rumores urgentes de vozes e de metais, revolve-se numa azáfama de missas, comunhões, terrores, es­peranças. Ainda mal despontou o dia e já o exército de sete mil homens desliza em marcha acelerada para noroeste. Vai na cadência determinada de quem tem destino certo e horas marcadas para chegar. Até que, cinco quilómetros adi­ante, se detém no dorso plano e extenso de um cabeço situado onde hoje se encon­tra a povoação de S. Jorge. Daqui a Leiria, para norte, são perto de três léguas. Aljubarrota - que, embora afastada, ficará hoje célebre para sempre - dista, por sudoeste, mais ou menos dez quilómetros. Alcobaça, logo abaixo, fica a quase quinze. E as praias mais próximas, em linha recta, a cerca de vinte.
A elevação seleccionada por Nun'Álvares tem escassos metros de altura. Mas vai transformar-se, pelas condições naturais e pelos trabalhos de fortificação que já decorrem, numa fortaleza praticamente inconquistável por assalto directo. O ex­tremo norte do planalto, virado para Leiria, dá para uma depressão pronunciada e irregular, na base da qual se escoa, em direcção ao rio Lena, a ribeira da Calvaria. À esquerda e à direita do planalto desenvolvem-se declives acentuados, que vão dar aos sulcos de dois afluentes da Calvaria - o ribeiro de Vale de Madeiro e o de Vale da Mata. Deste modo, a posição mais vulnerável parece ser a extremidade sul do cabeço, que confina com a charneca por terrenos pouco acidentados.
Mas as facilidades são, de facto, aparentes. Observando mais de perto descobre-se que os sulcos dos ribeiros, convergindo neste ponto, estrangulam o cabeço de tal forma que o acesso ao planalto só se pode fazer, deste lado sul, por uma espécie de passagem estreita - não mais de três centenas de metros - o que inviabiliza a for­mação de uma frente muito ampla em qualquer ataque. Por outro lado, os Portugueses estão a semear de obstáculos o caminho apertado, bem como as suas imediações laterais. Empilham troncos de árvores, abrem fossos e valas e - peça de requinte da ratoeira - escavam furiosamente centenas de buracos rectangulares, as famosas covas-de-lo­bo, deixando depois tudo escondido sob uma capa de ramagens. Agora, instala­dos no cabeço, ficam à espera.
A primeira organização defensiva de Nun'Álvares compõe-se de uma vanguarda de seiscentas lanças, por ele próprio comandada, no extremo norte do planalto - uma frente voltada, como se viu, para os lados de Leiria, de onde se espera que surja o inimigo. À direita e à esquerda, ao comprido do planal­to, ficam as alas. Recuado, com a sua reserva de setecentas lanças, estaciona o rei. E mais para trás arruma-se a carriagem, guardada por besteiros e homens de pé. Trata-se, no seu todo, de um dispositivo leve e flexível, capaz de manobrar com rapidez consoante as possíveis opções dos Castelhanos.
Neste mesmo dia 14 de Agosto, pela manhã, a extensa mancha do exército in­vasor deixa os arredores de Leiria e retoma a marcha para sul. Por volta das dez horas as vanguardas avistam à distância o cabeço eriçado de homens, de pendões e de lâminas. No seu pesado movimento de aproximação, pela Jardoeira, as colunas imponentes são um susto para quem as segue lá de cima:
(...) Começaram a aparecer as gentes de el-rei de Castela, as quais eram tantas por toda a terra que, vendo-as, não havia homem que pudesse cuidar que os Portugueses perante elas pudessem salvar-se. Os pavesados e bes­teiros vinham adiante (...), de modo que vales e montes se escondiam sob a grande multidão de uns e de outros. E dando o sol em suas resplandecentes armas, faziam-nos parecer muitos mais do que as gentes diziam. E escusado é perguntar se sua vista punha temor e espanto nos que os olhavam. E, vindo muito de seu vagar, chegaram perto dos Portugueses, sendo já o sol no meio-dia.
Na fornalha faiscante do fim da manhã, em plena charneca poeirenta, os guerreiros mais adiantados do exército castelhano estão imóveis. Observam com atenção, por cima do leito da ribeira da Calvaria, a lomba íngreme que conduz ao topo norte do cabeço. Torna-se óbvio, para eles, o que também deve ter saltado aos olhos dos Portugueses quando escolheram a posição - por aqui é im­possível atacar com um mínimo de probabilidades de êxito. Parecem-lhes igual­mente problemáticas as hipóteses de assalto pelas ravinas que formam os flancos da elevação. Pouco passando do meio-dia, os invasores põem-se outra vez em andamento, virando para as bandas do mar, a contornar por ocidente, ao largo do Casal do Relvas e da Calvaria, o cabeço inimigo.
Por algum tempo dá a impressão de que o grande exército se propõe ignorar o desafio, evitando o contac­to, recusando a luta, continuando, como se nada fosse, a sua procissão inexorável rumo ao Sul. Mas não é isso que sucede. Os batedores castelhanos descortinaram já, na extremidade oposta, aquilo que lhes parece o local propício a uma investida. As tropas, descrevendo um semicírculo amplo debaixo de um sol de brasas, voltam portanto a inflectir para leste. E, achando a certa altura um terreiro espaçoso, desimpedido de acidentes significativos, entre o Chão da Feira e o Carqueijal, começam a suster o movimento. Estão mais ou menos a um quilómetro do lado sul do cabeço, e dão então início, com a lentidão que lhes im­põe o próprio efectivo esmagador, aos preparativos de ataque.
Em tudo isto consomem grande parte da tarde, e supõe-se que a manobra não tenha sido concluída antes das dezassete horas.
O dispositivo português adapta-se entretanto às evoluções castelhanas. Nun'Álvares, abandonando a primeira posição, percorre, em sentido inverso, cerca de dois quilómetros pelo cimo do cabeço. Passando pelas forças de João de Avis vem reconstituir a vanguarda na extremidade sul. Ladeando o condestável, e projectadas um pouco para diante como duas pinças, formam as alas. Na da esquerda distingue-se Antão Vasques com alguns aliados estrangeiros, como os gascões Guilhem de Montferrand e Basquin de Sola. Na da direita - a Ala dos Namorados - estão Mem Rodrigues, Rui Mendes de Vasconcelos e outros bons fidalgos, formando uma alegre companhia.
Atrás dos homens de armas das alas posiciona-se para cima de um milhar de besteiros portu­gueses e de arqueiros ingleses, presumindo-se que o número destes últimos atinja um mínimo de quatrocentos. À retaguarda continua o rei, com as lanças de reserva, tendo por perto, com a sua bandeira, Lopo Vasques da Cunha. Na cauda ficam os carros de apoio com seus serventes - tudo cercado por homens de pé e besteiros, de forma que nas costas da retaguarda e nesta carriagem está tudo prevenido para repelir quem queira atacar. A inversão do dispositivo leva-se a cabo como se desde o primeiro momento se soubesse que teria de ser obrigatoriamente execu­tada. Pode assim presumir-se que a opção dos Castelhanos foi tão prevista como provocada pelo comando português. E, se assim tiver de facto sucedido, é lícito suspeitar-se de que Juan I de Castela esteja a ser deliberadamente atraído para uma armadilha mortal.
É este mesmo Juan I que, ali perto, a cerca de mil metros dos inimigos, se prepara para escrever uma das páginas mais dolorosas da história medieval castel­hana. Ele continua queimado de febres pelas sezões, padece de enjoos e de tonturas, e há já duas semanas que mal sai da liteira. Mas obriga-se a con­vocar um conselho de emergência para discutir o que se deve fazer em relação ao cabeço inesperado e hostil. O rei vacila, agarra-se a um dos cavaleiros para se ter de pé, e é assim abatido, balbuciando frases sumidas, que ele aborda o assunto.
Juan I dispõe de informações recentes, pois acabam de regressar os parlamentários mandados aos Portugueses para os convidar a desistir. Um dos emissários foi o próprio irmão de Nun'Álvares, Diogo, e outro foi Pedro López de Ayala, o cronista, que comporá em breve um relato impres­sionante sobre os acontecimentos deste dia.
Os parlamentários, como é de uso em tais circunstâncias, aproveitaram a missão oficial - naturalmente mal sucedida - para espiarem o que puderam. Não viram tudo, mas descobriram o suficiente para desaconselharem ao seu senhor um ataque imediato. Eles deram pelas irregu­laridades do terreno, detectaram os sulcos dos ribeiros, ob­servaram as ladeiras mais abruptas. Por isso opinam que a posição portuguesa, com ex­cepção de um dos lados, é quase inexpugnável. Outras vozes de prudência se erguem na tarde quente, como a do velho Jean de Rye, camareiro-mor do soberano de França, veterano de batalhas famosas - Crécy, Poitiers. Jean de Rye, e outros moderados, avançam argumentos responsáveis e óbvios: a hora vai adiantada, o dia não tarda a morrer, os homens sentem-se fati­gados e precisam de se alimentar. Além disso, há ainda forças castelhanas a camin­ho, as quais nem sequer suspeitam do que está a passar-se. O melhor é deixar correr a noite, repousar, readquirir organização - e na manhã seguinte se verá.
Juan I ouve. E hesita. Estas são as vozes da sensatez e da competência, que, se atendidas, poderão proporcionar-lhe dentro de poucas horas uma jornada gloriosa. Mas o rei es­cuta também, neste conselho, palavras diferentes. São as opiniões dos jovens cavaleiros que substituíram no grande exército os veteranos desaparecidos. Eles são generosos e valentes, mas péssimos avaliadores, pois a presente campanha representa o baptismo de guerra para a maioria. É por isso que falam com desenvoltura, espevitando os brios ao rei. E a eles se juntam os cavaleiros de França, que não suportam ver-se ultrapassados nas bravatas. Até João Afonso Telo, irmão de Leonor Teles, o mais importante dos nobres portugueses que aqui se acham, se sente no dever de recomendar o ataque. O contrário será, diz ele, mostrar covardice. E João Afonso prevê que se o rei não der combate aos insurrectos passará com certeza pelo vexame de os ter nos calcan­hares, durante o resto do caminho para Lisboa, ladrando, até que torneis a eles e lhes deis batalha.
O que estes homens intrépidos, mas levianos, se lembram de dizer a Juan I para acabarem de o convencer, é que ele é um dos maiores soberanos da Cristandade. E que reúne direitos inquestionáveis ao trono português. E que possui uma superioridade avassaladora so­bre os inimigos.
Talvez existam nestes discursos alguns pontos defensáveis, mas, aprofundadas as coisas, não passa tudo de uma ilusão.
Junto do cabeço, os títulos de Juan I, só por si, de nada valem. Mesmo quanto ao número de combatentes, a sua superioridade é meramente potencial. Ela só contaria de facto se cada um dos guerreiros pudesse envolver-se na luta em simultâneo com todos os companheiros. É a impossibilidade disto que os mais avisados procuram mostrar ao rei. Nada do que aqui foi dito pelos audaciosos modificou sequer uma partícula das condições objectivas que os invasores têm pela frente. Os homens de João de Avis mantêm-se defendidos nas suas posições - ordenados, firmes, vigilantes. As ravinas continuam intransitáveis à cavalaria castelhana. E, sem que ninguém o suspeite no conselho de Juan I, as valas, os fossos e as covas-de-lobo continuam à espera.
No cimo do cabeço pairam, sem dúvida, a angústia e o medo. Mas por ali imperam também a fé, a capacidade de liderança e um plano de batalha tacticamente genial. Do lado castelhano sobram a coragem e o orgulho. Mas descobre-se igualmente a precipitação, a incompetência e uma perigosa ausência de comando.
O rei, macilento e agoniado, ouve de um lado, ouve do outro e mostra-se incapaz de agarrar o destino. Mais tarde, quando tudo estiver consumado, López de Ayala assumirá a sua defesa e garantirá que ele chegou a concordar com os conselhos de prudência e que mandó que se ficiese así. O próprio Juan I deixará escrito, daqui a uns tempos, que não foi responsável pelo pro­ceder dos estouvados - eles fuéronse sin nuestro acuerdo.
Jamais se conhecerá a verdade inteira. O mais provável é que o monarca, já de si indeciso, e, agora, debilitado e confuso, tenha deixado o essencial em suspenso. Ele terá flutuado em irresoluções, ter-se-á exprimido equivocamente, terá até sido mal compreen­dido. Mas, de uma maneira ou de outra, o resultado é que cada um dos inter­locutores se sente autorizado a fazer o que lhe aprouver. Dá a impressão de que o exército invasor perdeu - se é que alguma vez contou com isso - um co­mando único e determinado, fraccionando-se em diversos grupos autónomos, sem comunicação entre si, entregues a tácticas e a impulsos próprios. Assim, por volta das dezoito horas do dia 14 de Agosto de 1385, os dados ficam irrever­sivelmente lançados.
O evento que só muito mais tarde se designará por batalha de Aljubarrota - consagrando-se um lugar bastante distanciado do centro dos acontecimentos - parece ter-se desenrolado em dois tempos distintos. E há notícia de que, entre esses tem­pos, ocorreu no cabeço, por acção dos aliados anglo-portugueses, um episódio tenebroso.
Dois dos três cronistas principais deste dia, o português e o castelhano, guardaram sobre o caso um silêncio de túmulo. Só o cronista francês - Froissart, um andarilho infatigável que passa a vida no encalço dos protagonistas das suas histórias para lhes captar os testemunhos - menciona o assunto em traços coloridos mas pungentes. Segundo ele, a peleja inicia-se, ao cair da tarde, por uma carga a cavalo das van­guardas francesas de Juan I. Por que motivo galopam sozinhos os Franceses rumo ao cimo do cabeço? Provavelmente por simples descoordenação. Ou, então, pelo afã de reivindicarem as honras de varrer do planalto, sem ajudas, este aglomerado provocador de soldados bisonhos. Os sobreviventes da investida afi­ançarão depois que os Castelhanos se atrasaram em prestar-lhes apoio, mas não consta que os responsáveis do ataque se hajam empenhado em agir de acordo com os seus aliados. O mais crível é que os cavaleiros se tenham atirado irreflectidamente para diante, buscando, sem precauções de maior, o seu instante de glória nesta campanha monótona em que não ocorreu ainda nada de notável.
De qualquer maneira, sob a chuva de projécteis dos atiradores inimigos, eles cedo se descob­rem tolhidos pelas armadilhas preparadas de antemão. Forçados a desmontar, en­volvem-se num combate desigual com as tropas entrincheiradas e, cercados, não demoram a render-se, caindo às centenas nas mãos dos inimigos. Neste momento, no cabeço, toda a gente se mostra satisfeita: os prisioneiros, porque salvaram as vidas; os defensores, porque os resgates dos fidalgos lhes vão decerto render uma fortuna.
De súbito, o clima torna a anuviar-se. Conhecedores do desaire francês, os Castelhanos parecem estar a organizar-se para o ataque principal. Os Portugueses e os seus aliados convencem-se de que correm o risco de enfrentar a mais po­derosa das investidas com uma chusma de prisioneiros postados nas suas costas. O quadro de soluções apresenta-se-lhes, pois, dramaticamente limitado: ou matam ou morrem. A sentença surge rápida e crua - nem um só dos Franceses pode ser deixado com vida. Então, enquanto os Castelhanos se afadigam em preparativos, os prisioneiros são executados, um a um, pelos defensores do cabeço.
O ataque que Castela pretende decisivo organiza-se com uma vanguarda de mil e seiscentas lanças, comandadas por Pedro de Aragão, filho do marquês de Villena, e aqui se incorpora o núcleo principal dos senhores portugueses que apoiam Juan I. As duas alas juntam cada uma setecentas lanças. A da esquerda está confiada a Pedro Álvares Pereira, irmão de Nuno, agora feito mestre de Calatrava, e a da di­reita a Gonzalo Núñez de Guzmán, mestre de Alcântara. À retaguarda formam mais três mil lanças. Trata-se de um impressionante aparato de cavalaria, mas a maior parte de­stes homens não chegará a entrar em acção.
Quando o avanço se inicia as tropas seguem ainda montadas, com as compridas lanças em riste. Breve se confirmam, todavia, as mais negras previsões dos conselheiros de Juan I. O es­treitamento gradual do terreno - uma espécie de triângulo isósceles, em que os ata­cantes progridem da base para o vértice superior - combina-se a dado passo com a inteligente disposição de abatizes, fossos e covas-de-lobo onde os animais se en­redam e tropeçam.
Os cavaleiros, desmontando, quebram as lanças para poderem continuar a utilizá-las e procuram retomar a progressão. Mas a exiguidade do espaço disponível, determinada pelo efeito conjugado dos obstáculos naturais e das armadilhas, obriga-os a descair para o centro da encosta. É aqui que se aglomera uma compacta massa de homens, engrossada a cada momento pelos que forçada­mente resvalam dos extremos da vanguarda e pelos que chegam embalados de trás. O novelo de gente, que se movimenta para diante com inenarráveis dificuldades, está agora situado numa área perfeitamente exposta aos olhos dos defensores - aquilo que em termos militares modernos se poderia qualificar como uma "zona de morte".
É so­bre este alvo denso e convidativo que se concentram as atenções dos atira­dores postados nas alas de Nun'Álvares - os fundibulários, os besteiros, os arqueiros ingleses. Um único destes arqueiros pode descarregar num só minuto, com o arco de madeira de teixo a que está acostumado desde criança, uma saraivada de dez a doze flechas capazes de perfurar o metal das armaduras. Para a multidão de atacantes castelhanos, bem como para os portugueses que os acompanham, a encosta transforma-se num inferno. Eles deslocam-se debaixo de uma nuvem mortífera de virotões, de calhaus e de flechas, e, para tudo piorar, de­param de repente, já próximos do topo, com uma vala transversal da altura de um homem. Dos cavaleiros das alas não lhes pode vir ajuda, pois eles foram como que expulsos do ataque pelo afunilamento do terreno. Com a eventual excepção de um ou outro desgarrado que tenha conseguido reunir-se à vanguarda, esses cavaleiros andam agora em galopadas impotentes e inofen­sivas ao longo das depressões que protegem o cabeço. Dos lados, portanto, não pode a desmantelada ponta-de-lança do ataque esperar socor­ro. E de trás também não, pois daí apenas acorrem grupos soltos de homens tão desnorteados como os da frente. A vaga humana vai assim escorre­gando aos poucos, em tremenda embrulhada, na direcção da vanguarda inimiga, agitando ao alto, num desespero, o seu estandarte real.
Mais do que coragem, é um impulso de aflição o que empurra agora os Castelhanos para diante. No sítio onde estão, recuar é já impossível e parar é morte certa. Rolam, portanto, em frente, não lhes resta outra alternativa senão acabarem de transpor a mortífera pista de obstáculos. Muitos ficam caídos nos fossos, es­magados, asfixiados - seus corpos sem almas serão mais tarde encontrados sem ferimentos visíveis. Os que sobram galgam os últi­mos metros. Trata-se de homens quase exaustos, muitos deles feridos, que, ainda assim, produzem um choque terrível com a vanguarda de Nun'Álvares. As linhas portuguesas fracturam-se junto do pendão do condestável, no lugar onde ele mandará erguer mais tarde a ermida de S. Jorge.
A luta transforma-se num corpo-a-corpo sem contemplações, onde se utilizam machados, espadas, achas, martelos-de-armas, punhais, estoques. Tornam-se realidade as profecias que João de Avis foi buscar à Bíblia para estimular os timoratos - os muitos são agora pou­cos e os poucos passaram a muitos, porque a táctica de Nun'Álvares logrou afastar da batalha o grosso do exército castelhano. É este mesmo Nun'Álvares que vemos acorrer aos sítios em maior dificuldade, procurando remendar as linhas que se romperam: Ah!, Portugueses, pelejar, filhos e senhores, por vosso rei e por vossa terra! Acode também da retaguarda João de Avis, gritando valentias e ânimos à sua gente: Avante, sen­hores! Avante, avante! S. Jorge! S. Jorge! Portugal, Portugal, que eu sou el-rei! Por momentos o rei fica com a vida suspensa de um milagre, pois o arrojado Álvar González de Sandoval parece tê-lo à mercê da sua acha-de-armas. Mas é ele próprio, Sandoval, quem tomba fulminado pelo socorro que chega no derradeiro instante a João de Avis. Num repente, as alas portuguesas, livres de ameaças por parte das alas castelhanas, curvam-se para o interior do campo e, no que constitui um dos momentos decisivos da batalha, fecham-se, como se fossem de facto as pontas de uma tenaz, sobre o que resta, em termos práticos, da investida castelhana.
A par de um combate pela independência, o que se trava aqui é também a parte final de uma luta de morte entre a cavalaria senhorial luso-cas­telhana e a infantaria portuguesa dos burgueses e dos pés-rapados, apoiados por seus fidal­gos menores. Cercados no extremo do cabeço os atacantes trocam os derradeiros golpes. Cai cada vez mais gente de Juan I, está a dar-se um verdadeiro e inimaginável mas­sacre dos seus homens. Até que tomba também, arrastada no pó, a bandeira real de Castela, onde se misturam as armas de Portugal. A fé, o poder, o destino - tudo parece pender para um só lado. O desabar da bandeira constitui um golpe ir­reparável e um sinal do fim. Do lado português grita-se: Já fogem! Já fogem! E é, na realidade, para aqueles que ainda o podem fazer, o início de uma fuga de­sabalada.
Esta batalha, que não se prolongou por mais de meia hora, foi um aconteci­mento estranho, feito de incompetências gritantes, de alguns rasgos de geniali­dade e de diversos mistérios. Apesar do sucedido, Castela conta ainda, nas imediações do cabeço, com milhares de homens ilesos, a pé e a cavalo, que foram poupados ao combate. O que ficou do seu exército bastaria, à vontade, após o reagrupamento, para se organizar um contra-ataque efi­caz. Os Portugueses admitirão seriamente tal possibilidade e pas­sarão grande parte da próxima noite a reforçar as defesas do cabeço. Mas Castela, que parece ter tudo para não baixar já os braços - homens, montadas, armamento -, não possui o essencial. Falta-lhe comando. E, além disso, não resta no grande exérci­to um pingo de moral. O pânico é tão contagioso como o entusiasmo, e a imagem dos homens que se escapam apavorados do cabeço pega-se aos outros como o fogo à palha seca.
O mestre de Alcântara, Gonzalo Núñez de Guzmán, é o único que tenta incomodar com a cavalaria a carriagem portuguesa, mas tudo se malogra num ataque inconsequente, sem possibilidades de virar os acontecimentos. Por isso se limita agora o mestre a procurar salvar, nas primeiras sombras do crepúsculo, o que possa ainda ser salvo do desastre. Gonzalo acabará por retirar em boa ordem, com forças importantes, rumo ao Sul. Atrás dele, dispersos pelas redondezas, ficam todavia milhares de fugitivos desorientados. Escondem-se nas moitas e nos bosques, deslizam cautelosos ao largo dos casais. Grande parte sucumbirá às mãos de camponeses ávidos de sangue e de saque, e há quem diga que foi deste modo, em centenas de dramas ignorados, que Castela sofreu o maior número de baixas.
Juan I perdeu na batalha, ou nos momen­tos imediatos, muitos colaboradores importantes. Os senhores portugueses que o apoiavam pereceram quase todos - entre outros os irmãos Álvares Pereira, o conde João Afonso Telo, Gonçalo Vasques de Azevedo e seu filho Álvaro. Morreu Jean de Rye, o velho e ponderado francês. Tovar, o novo almirante castelhano. Pedro de Aragão, que comandou a vanguarda. Geoffroi de Parthenay, chefe das lanças francesas. E também os marechais mais recentes de Castela, com um número elevado de ofi­ciais, deixando ainda mais decapitado o grande exército. Fala-se de milhares de mortos e prisioneiros, contra um volume de baixas incomparavelmente inferior dos Portugueses. Não há quem possa, todavia, garantir números certos.
E Juan I? Trémulo de febre e de espanto, ele testemunha, no ocaso deste dia negro para Castela, a queda do seu estandarte, da sua melhor gente e do seu sonho. Um rei é sempre um rei, mesmo quando lhe restam apenas os caminhos da fuga: o que Juan mais deseja neste momento, tal como os que se responsabilizam pela sua segurança, é colocar-se a milhas deste lugar perigoso. E é nos minutos de nervosismo que precedem a evasão que se forja uma das imagens impressivas de Aljubarrota. Pede-se, na confusão, um cavalo para que el-rei se ponha a salvo dos inimigos, pois ele não pode, evidentemente, fugir de liteira. É então que se adi­anta para a lenda e para uma cena que Mariano Salvador Maella imortalizará quatro séculos mais tarde num óleo comovente, o mordomo-mor do rei, Pedro González de Mendoza. De joelho em terra, mão espalmada sobre o coração, Mendoza oferece o seu magnífico cavalo a Juan I para que este possa salvar-se, enquanto ele próprio se resigna a desaparecer sob os golpes dos Portugueses.
O rei cavalga com a escolta pela noite fora, febril e semiconsciente, até dar entrada em Santarém. A cidade, tal como quase todas as posições em poder dos Castelhanos, não tardará a cair nas mãos das tropas de João de Avis, pois a maioria dos alcaides portugueses virará simplesmente a casaca, ao mesmo tempo que as guarnições estrangeiras debandarão para lá da fronteira. Mas Santarém, nesta noite memorável, permanece ainda segura para Juan I.O régio fugitivo, de dedos crispados nas faces lívidas, lamenta a sua desgraça: Ah!, Deus, que mau rei e sem ventura!
Chora Juan I, implorando a morte aos céus. Jamais voltará a ser o mesmo. É o seu vulto embuçado e desfeito, de rei trágico, que vemos de madrugada a encaminhar-se para uma barca. Perseguido pela nuvenzinha fatal, desliza Tejo abaixo, rosto sempre encoberto, metido entre tochas que arrancam centelhas tristes à superfície escura das águas. Juan I vai a caminho do estuário, onde tem fundeada, a sitiar Lisboa, a sua frota poderosa. É dali que tenciona seguir numa galé até à Andaluzia para se enterrar em lutos e sentimentos de culpa. Nunca mais regressará a estes lugares de perdição.
Atrás de si, na esteira lúgubre da barca, deixa um povo estranho, imprevisível - e livre."
(José Bento Duarte - Peregrinos da Eternidade - Crónicas Ibéricas Medievais - Editorial Estampa - Lisboa - 2003)

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