domingo, 16 de dezembro de 2007

Rei D. Sebastião de Portugal (1) - Menino e Sonhador

"Imerso em sonhos de heroísmo e grandeza, o capri­choso reizinho de dezassete anos preparava-se para conduzir o seu país, dentro de pouco tempo, a um tremendo desastre. Acorrentados ao destino deste mancebo leviano e espalha-brasas, também possuído pela miragem da África, os Portugue­ses precipitar-se-iam com ele num abismo sangrento de Marrocos. A tragédia privaria o País da independência por um período de sessenta anos.
Observada de perto, a meteórica passagem de Sebastião por esta vida deixa na sua esteira uma espécie de fulgurância hipnótica, um fatalismo que fascina e comove. Era mais do que seu direito que o cognominassem de Africano, mas reservaram injusta­mente a outro tão merecido título. As consequências do seu mando foram, em vida e depois de morto, de tal modo relevantes para o império, incluindo a nas­cente Angola portuguesa, que se justifica um relance pela memória dos seus pas­sos breves.
Nascido em 1554, elevado ao trono aos catorze anos, Sebastião será chocan­temente trucidado em combate aos vinte e quatro. O reinado deste rapazinho loiro-arruivado, de grandes olhos azuis engastados num rosto sardento, fino e cismático, foi antecedido, de acordo com as singelas vozes do tempo, por calamitosos presságios.
Neto de João Terceiro, não chega a co­nhecer o pai, um diabético falecido aos dezasseis anos, perto de três semanas antes da sua vinda ao mundo. A mãe, a carrancuda Joana, irmã do rei Fi­lipe Segundo de Espanha, vive aterrorizada por visões. Visita-a, por exemplo, a misteriosa Mulher de Negro, que, semioculta nas sombras dos aposentos, lhe vaticina por sinais que o fruto do seu ventre se dissipará no ar, como fumo. Noutras ocasiões sobressalta-se Joana com o fantasmagórico desfile de procis­sões de mouros, saídos não se sabe de onde, que se esgueiram através das pare­des, entoando cantorias fúnebres, em direcção ao negrume nocturno das águas do Tejo. Sussurram-se estranhas histórias de sibilas e espectros. Estes, invari­avelmente em grupos de três, aparecem a homens da Igreja com augúrios de es­pantar. E, sinal dos sinais, incendeiam-se uma noite os céus de Lisboa, por sobre a velha Sé, com o rasto de um esplendoroso cometa em forma de ataúde.
Herdeiro, sem irmãos, do trono português, Sebastiãozinho é rigidamente edu­cado por jesuítas. Cedo dá indícios de um génio maniento e pouco reflectido. Mas não se lancem sobre os padres as culpas do desequilíbrio. O ânimo incerto, predisposto a extravagâncias, é seu de nascença, talvez como resultado dos inú­meros enlaces consanguíneos dos antepassados. Acaba de desestabilizar-se no clima de exaltação em que é criado.
A lembrança dos feitos dos Antigos, que esculpiram um império descomunal a golpes de espada e catecismo, desenvol­ve-lhe no espírito a semente de uma obsessão. Na sua esforçada letrinha infan­til, avisa certa ocasião, para júbilo apreensivo dos adultos, que, em sendo grande, há-de ir conquistar a África. Cá está a África. É a África dos areais de Marro­cos, a dos Mouros, abomináveis campeões do Islão. Expulsos há séculos de Por­tugal, permanecem, provocadores, às portas da Cristan­dade, a escassas milhas marítimas das costas lusitanas.
Sebastiãozinho não mais se libertará dessa ideia fixa. Transforma a fugaz existência numa alucinante ca­minhada de autista, irremediavelmente ligada àquele mórbido desígnio. Fica por vezes prostrado, num êxtase choroso, pedindo a Deus que o faça Seu capitão. Capitão será um dia. O que não será jamais é um estratego, um genuíno coman­dante-chefe, um seguro condutor de imponentes massas de homens em armas. No fundo não passará, até ao derradeiro suspiro, de um solitário cavaleiro de Cristo, um arrogante soldadinho da sua fé, uma espécie de menino medieval que não cresceu, perdido numa vereda embruxada da História a esgrimir sem descanso contra o Mouro pérfido dos seus pesadelos de infância.
Por volta dos quinze anos, este pequeno homem, portador de um poder abso­luto nas suas perigosas mãos de adolescente, não hesita ante uma lúgubre incur­são ao reino dos mortos. Efectua uma peregrinação aos túmulos de diversos mo­narcas portugueses, violando-lhes as moradas eternas sem escrúpulos. No mos­teiro de Alcobaça ordena algumas exumações. Inebria-se diante das ossadas de Afonso Terceiro, esforçado vencedor dos Mouros nas lutas de liberta­ção da Península Ibérica. Viaja para os rendilhados de pedra da Batalha e traz à luz do dia o cadáver incorrupto de João Segundo. Venera-o como a um deus, acaba por proclamá-lo o melhor do seu ofício. Em Coimbra limita-se a cirandar, recolhido e reverencioso, junto ao mausoléu do rei Afonso Henriques, terror dos Sarracenos, lendário fundador da nacionalidade portuguesa no século XII. Desde logo projecta levar consigo a espada-talismã de Afonso, quando vier a hora da aventura africana.
E segue adiante, muito senhor do seu nariz, sem consentir que nada o distraia da sua empresa. Nada - nem mesmo os negócios do coração e do instinto. Esquiva-se a todos os arranjos casamenteiros, foge das mulheres como o diabo da água benta. Põe desse modo o reino em grave risco, porque não chega a deitar herdeiros a este mundo. Vai manter-se herói e casto, pronto para o sacrifí­cio final, como convém, aliás, a um capitão de Deus. Com os olhos postos naquela África irresistível, prepara-se para o grande embate. Estoira-se em exercícios físicos demolidores - toureia, caça, doma cavalos bravos. Apura uma coragem desafiadora e irracional. Mete-se pelo oceano dentro, em dias de tempestade grossa, zombando de vagas monstruo­sas a bordo de minúsculos barquinhos. Ninguém se atreve a denunciar-lhe com seriedade os desatinos. Adulado por quase todos, perde a noção da sua medida e percorre sobranceiro os trilhos enganosos de uma sina fatal.
Certa ocasião, ha­bilmente desarmado e vencido ao jogo das canas pelo alferes-mor Luís de Mene­zes, vê-se de imediato proclamado vencedor - imagine-se - pela maneira elegante com que erguera do chão a sua arma.
Dia após dia, suspira o reizinho por África, por Marrocos. Nesse tempo, ainda os Portugueses por ali mantêm alguns poderosos bastiões, virados ao Mediterrâ­neo e ao Atlântico - Ceuta, Tânger, Mazagão. São os sobejos de uma fieira de praças-fortes conquistadas ou construídas de 1415 em diante. João Terceiro, o avô de Sebastião, confrontado com a extensão esmagadora do império, não tivera outro recurso senão enveredar por uma severa política de compressão de despe­sas. Optara por renunciar nos domínios marroquinos a várias posi­ções. Uma vez perdida por assalto a fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Guer, foram abandonadas Safim, Azamor, Alcácer Ceguer e Arzila, esta posteriormente recuperada (...).
(...) O drama está iminente. As lutas internas pelo poder, em Marrocos, vão oferecer ao reizi­nho Sebastião o pretexto por que ele anseia para cair, como um anjo de vingança, sobre as planícies islamitas.
A cadeia de acontecimentos decisivos principiara a ganhar forma em 1574. Nesse ano, o mouro Mulei Mohamed levara a cabo a usurpação do trono marroquino, que, face às leis da dinastia dos Sádidas, caberia a seu tio, Mulei Abdelmalek, entretanto refugiado no estrangeiro.
No ano imedi­ato, amparado pelos turcos de Argel, Mulei Abdelmalek empreendera um vitori­oso retorno a Marrocos, sendo acolhido em delírio por um povo saturado da cru­eldade, da depravação e das extorsões de Mulei Mohamed. Ainda em 1575, Ab­delmalek alcançara um triunfo retumbante sobre as tropas do usurpador, que se pusera em fuga. Batê-lo-ia depois numa série de recontros, firmando-se como novo e ponderado xerife de Marrocos. Bom conhecedor da natureza turca, agira com sabedoria ao desembaraçar-se daqueles cúmplices incertos: gratificando-os com generosidade, suspirara de alívio assim que os vira desaparecer para as ban­das de Argel.
Em Portugal, Sebastiãozinho rejubila, pois pressente nestes sucessos emocionantes a sua miraculosa oportunidade. Desata a brandir o espantalho do perigo turco. Esses poderosíssimos aliados de Mulei Abdelmalek, argumenta ele, podem voltar um dia para ocuparem posições estratégicas na costa marroquina. Colo­carão dessa forma em risco a segurança das rotas marítimas e a própria estabili­dade dos reinos ibéricos. O jovem sustenta a necessidade de uma guerra santa, redentora, contra o Mouro.
É um desassossego, uma febre, uma canseira de Sebastiãozinho. Nada o detém. Acaba por associar-se ao xerife deposto, Mulei Mohamed, que não passa já de um político queimado, repelido pelo povo, sem a mais pequena hipótese de um futuro relevante em Marrocos. Forceja pelo auxílio do tio, Filipe Segundo de Espanha. O esperto castelhano, vagaroso, re­flectido, jogador magistral, entretém-no com falas moles e enredadas. Mas a ver­dade é que, quanto ao essencial, se empenha na rejeição daqueles projectos es­touvados.
Sincero ou não, o inefável tio Filipe procura abrandar os ímpetos do rapaz e demovê-lo da aventura, a seu ver tão arriscada como inútil. Em vão. O reizinho não escuta nem vê. Está surdo e cego, há um ror de anos, para tudo o que não seja a sua obsessão de infância, que é como uma estrela má a chamá-lo ininterruptamente no escuro firmamento do seu destino.
Dê por onde der, nos estremecimentos desta teia perigosa, só o aranhiço espanhol reúne possibilidades de ganhar alguma coisa. Basta que o estoira-vergas português se perca na guerra sem sucessores. Nesse caso, haverá fatalmente espanhóis à solta nas douradas praias lusitanas (...) "
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(José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - 1999)

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