domingo, 11 de novembro de 2007

Bertolt Brecht (9) - A Cruz de Giz

Eu sou uma criada. Eu tive um romance
Com um homem que era da SA.
Um dia, antes de ir
Ele me mostrou, sorrindo, como fazem
Para prender os insatisfeitos.
Com um giz tirado do bolso do casaco
ele fez uma pequena cruz na palma da mão.
Ele contou que assim, e vestido à paisana,
anda pelas repartições de trabalho
Onde os empregados fazem fila e protestam
E protesta junto com eles, e fazendo isso
Em sinal de aprovação e solidariedade
Dá uma palmadinha nas costas do homem que protesta
E este, marcado com a cruz,
é apanhado pela SA.
Nós rimos com isso.
Andei com ele um ano,
então descobri
Que ele havia retirado dinheiro
Da minha caderneta de poupança.
Havia dito que a guardaria para mim
Pois os tempos eram incertos.
Quando lhe pedi satisfações, ele jurou
Que suas intenções eram honestas.
Dizendo isso
Pôs a mão em meu ombro para me acalmar.
Eu corri, aterrorizada.
Em casa
Olhei as minhas costas ao espelho,
para ver
Se não havia uma cruz.
.
(Bertolt Brecht)

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