domingo, 21 de outubro de 2007

Sul de Angola - A Cruz (Vestígios de Portugal Antigo)



Na costa sul-angolana,
mesmo à beirinha do deserto profundo,
ao correr de planuras infindas,
semeadas aqui e ali
de penedias enegrecidas,
bruscas, carcomidas e cortantes,
por entre tufos de verdes requeimados,
e de mares azuis translúcidos,
e de espumas salgadas
a cobrirem o fulvo do areal,
de repente,
encravada no tempo e na História,
uma cruz de Cristo,
simplesmente uma cruz.
.
Indiferente aos séculos,
aos sacrifícios,
às mortandades,
aos desenganos,
às cobiças,
aos logros,
ao passo cadenciado e viril
dos batalhões imperiais
ao silvo lacerante e cruel
dos projécteis das emboscadas,
à palavra trémula e já extinta
de políticos antigos e distantes,
simplesmente, vejam lá,
uma cruz.
.
Uma cruz de braços abertos
ao oceano cálido
que foi em tempos
das caravelas
e dos sonhos,
uma cruz surda e muda,
albergando em si,
no silêncio geométrico
das suas linhas
definitivas e breves,
uns restos trágicos,
dolorosos,
inúteis,
do Portugal Antigo.
.
(As fotos são de Okawa Ryuko, de quem já se tem falado aqui. O Cavaleiro da Torre recomenda vivamente uma visita ao seu blogue - Angola: Huíla Namibe Kunene Luanda -, que apresenta centenas de imagens impressivas e apaixonadas de Angola. Sobretudo do Sul, o paraíso terrestre).

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