terça-feira, 16 de outubro de 2007

(Martin Luther King) - "I Have a Dream"







Discurso de Martin Luther King, Jr. em Washington, D.C., a capital dos Estados Unidos da América, em 28 de Agosto de 1963, após a Marcha para Washington.
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O discurso de Martin Luther King, pronunciado na escadaria do Monumento a Lincoln, em Washington, foi ouvido por mais de 250.000 pessoas de todas as etnias, reunidas na capital dos Estados Unidos da América, após a «Marcha para Washington por Emprego e Liberdade».
A manifestação foi pensada como uma maneira de divulgar de forma dramática as condições de vida desesperadas dos negros no Sul dos Estados Unidos, e exigir ao poder federal um maior comprometimento na segurança física dos negros e dos defensores dos direitos civis, sobretudo no Sul.
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Devido a pressões políticas exercidas pela Presidência dos Estados Unidos - ocupada por John Kennedy -, as exigências a apresentar no comício tornaram-se mais moderadas, mas mesmo assim foram feitos pedidos claros: o fim da segregação no ensino público, aprovação de legislação clara no que respeita aos direitos civis, assim como de legislação proibindo a discriminação racial no emprego; para além do fim da brutalidade policial contra militantes dos direitos civis e a criação de um salário mínimo para todos os trabalhadores, que beneficiaria sobretudo os negros.
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Realizada num clima muito tenso, a manifestação foi um estrondoso sucesso, e o discurso ficou conhecido sobretudo pela frase permanentemente repetida no meio do discurso «I have a Dream» ("Eu tenho um sonho"), mas também pela frase que é repetida no fim - «That Liberty Ring» ("Que a Liberdade ressoe"), que retoma o poema patriótico «América». Tornou-se, com o discurso de Lincoln em Gettysburg, um dos mais importantes da oratória americana.
Em 1964 a Lei dos Direitos Civis foi votada e promulgada por Lyndon B. Johnson. Em 1965 foi por seu turno aprovada a Lei sobre o Direito de Voto.
Martin Luther King, Jr. foi escolhido como Prémio Nobel da Paz no ano seguinte, em 1964.
Foi assassinado em 4 de Abril de 1968.
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"Que Ressoe a Liberdade"

"Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre.
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Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, estando exilado na sua própria terra.
Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição. Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque. Quando os arquitectos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, estavam a assinar uma promissória de que cada cidadão americano se tornaria herdeiro.
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Este documento era uma promessa de que todos os homens veriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade. É óbvio que a América ainda hoje não pagou tal promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: "saldo insuficiente". Porém, nós recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Recusamo-nos a acreditar que não exista dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidades deste país.
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Por isso viemos aqui cobrar este cheque - um cheque que nos dará, quando o recebermos, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América a clara urgência do agora. Não é o momento de se dedicar à luxúria do adiamento, nem para se tomar a pílula tranquilizante do gradualismo. Agora é tempo de tornar reais as promessas da Democracia. Agora é o tempo de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial. Agora é tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é tempo para retirar o nosso país das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.
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Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante Verão do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o revigorante Outono da liberdade e da igualdade.
1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava só de desabafar, e que a partir de agora ficará sossegado, irão acordar sobressaltados se o País regressar à sua vida de sempre. Não haverá tranquilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania.
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Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações do nosso País até que desponte o luminoso dia da justiça. Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No percurso de ganharmos o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.
Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto, realizado de uma forma criativa, degenere na violência física. Teremos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência.
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Esta maravilhosa militância que engolfou a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como é claro pela sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que a sua liberdade está intrinsecamente ligada à nossa liberdade.
Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder. Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: "Quando é que ficarão satisfeitos?"
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Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores da brutalidade policial.
Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades.
Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior.
Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não puder votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar.
Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a rectidão como uma poderosa corrente.
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Sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês saíram recentemente de pequenas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde a vossa procura da liberdade vos deixou marcas provocadas pelas tempestades da perseguição e sofrimentos provocados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor.
Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Luisiana, voltem para as bairros de lata e para os guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não nos embrenharemos no vale do desespero.
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Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e das frustrações do momento, ainda tenho um sonho.
É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais".
Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.
Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.
Tenho um sonho que os meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu carácter.
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Tenho um sonho, hoje.
Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador actualmente pronunciam palavras de ódio e de recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes negros, e raparigas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e raparigas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.
Tenho um sonho, hoje.
Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.
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Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul.
Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança.
Com esta fé poderemos transformar as discórdias da nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade.
Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.
Esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra da liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".
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E se a América quiser ser uma grande nação, isto tem que se tornar realidade.
Que a liberdade ressoe então dos prodigiosos cabeços do Novo Hampshire.
Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque. Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvânia!
Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado!
Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia!
Mas não só isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!
Que a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!
Que a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.
Que, de cada localidade, a liberdade ressoe.
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Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e de cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra:
"Liberdade finalmente!
Liberdade finalmente!
Louvado seja Deus, Todo Poderoso, estamos livres, finalmente!"
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(Martin Luther King)
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Tennessee, Memphis, 4 de abril de 1968: o disparo de um rifle interrompia bruscamente a biografia de um negro chamado Martin Luther King, o maior líder negro das Américas.
O nome com que foi batizado marcou a existência e a trajectória luminosas do Dr. Martin Luther King Jr.: religioso, destemido, líder pacifista, majestoso, estadista, eloqüente, revolucionário.
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Nascido no sul dos Estados Unidos, em 1929, em pleno auge do famigerado sistema "Jim Crown" (separados mas iguais), filho de um pastor baptista, Martin Luther King Jr. recebeu o Nobel da Paz aos 35 anos, sagrando-se o mais jovem laureado pelo Prémio Nobel.
Comprometendo as igrejas com as lutas sociais, organizando boicotes aos transportes públicos, apoiando greves de estudantes e de trabalhadores, liderando passeatas integradas por legiões de negros, brancos, judeus e muçulmanos, pregando a resistência pacífica, difundindo os ensinamentos de Gandhi, Martin Luther King Jr. sacrificou a própria vida em nome da igualdade, da justiça e da paz.
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Em resposta aos linchamentos e às atrocidades cometidas pelos integrantes da Ku Klux Klan, Martin Luther King organizou a resistência pacífica, valorizou o diálogo, unificou as lutas do seu povo, pregou a não-violência, convocou negros e brancos para fundarem as bases de uma convivência harmoniosa, baseada no respeito, no espírito de compreensão e na tolerância recíproca. A Marcha sobre Washington, que em 1963 colocou mais de 200.000 mil pessoas nas ruas da capital norte-americana - ocasião na qual ele proferiu o seu mais famoso discurso (I Have a Dream...) - mudou a face e a história política e económica dos Estados Unidos.
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Depois daquele 28 de agosto de 1963, os Estados Unidos da América nunca mais foram os mesmos. O mundo nunca mais foi o mesmo - o sonho da igualdade despertou sonhadores em todas as partes: na África, na Índia, na Europa, nas Américas.
No Brasil, tinha início o regime ditatorial-militar que durante mais de duas décadas empurrou lideranças, partidos progressistas e movimentos sociais para a clandestinidade, incluindo o Movimento Negro.
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Na concepção e prática da luta negra que retoma espaço após a ditadura, lá estavam as lições, o pensamento, o legado político do Reverendo Martin Luther King. Nos nossos dias, em que se debatem intensamente propostas de políticas de promoção da igualdade racial, permanecem vivos e actuais os métodos e postulados do Dr. Martin Luther King.
Os sonhos não envelhecem.
Pode-se calar um homem, mas não se pode eliminar o vigor e a força de suas ideias, da verdade e da justiça.
Onde houver um ser humano lutando por dignidade, justiça e paz, lá estará sendo concretizado o sonho do Reverendo Martin Luther King.

1 comentário:

Anónimo disse...

Um discurso fantástico!, fantástico!, de um extraordinário orador! Ainda hoje mantém actualidade, nos Estados Unidos, na Colômbia, na Rússia, no Brasil, em Portugal. Só que, onde ele falava de "Negros" ponham lá vocês "Explorados", "Deserdados", os novos miseráveis, enganados, roubados, esmagados (pelos poucos que tudo têm, tudo podem, em tudo mandam), e que vão sobrevivendo (mal) nos limites da resistência e da dignidade humanas, vendo alargar-se e aprofundar-se cada vez mais o fosso entre uns e outros. Mas será só até um dia, o dia do ajuste de contas, em que "a liberdade e a justiça de novo ressoem", como vem acontecendo ciclicamente desde que o mundo é mundo e começou a ser calcorreado pelas feras de aspecto humano que se alimentam da desgraça dos que perante eles não têm defesa!